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Totalidade e leitura


Os conceitos instrumentais trazidos pela semiótica e pelo estruturalismo têm-se revelado úteis e plásticos o suficiente para se adaptarem à descrição e à compreensão artísticas das relações entre literatura, informática e Internet. Mas a diferença constituída pela ciberpoesia é de tal grau que nos obriga a repensar e reestruturar profundamente a semiótica e o estruturalismo, pelo menos os conceitos principais da semiótica e o conceito de estrutura, com seus agregados.


É o caso da «totalidade». Até praticamente hoje, toda a leitura de uma obra partia necessariamente da sua totalidade e a ela tinha que regressar. A leitura pressupunha ter-se lido tudo num livro de arte verbal e a crítica devia abarcar, com suas explicações, a totalidade da obra – no sentido em que devia ajudar-nos a compreender como ela funciona no seu conjunto e devia, portanto, fornecer-nos uma explicação que abrangesse todo o livro.


O conceito de «totalidade» é um conceito-chave para a definição da própria «estrutura», juntamente com os de «transformação» e «autorregulação». No entanto, em muitas obras postas a circular na Internet e baseadas em procedimentos informáticos, parece que a totalidade não existe. Existe um fluir contínuo, certamente com fim, mas com tais dimensões ou aleatoriedade que o desfilar de versos, ou frases, ou khardjas é percebido como não tendo fim, como fragmentos discursivos ou simbólicos, mandalas verbais que não produzem sentido a partir do seu conjunto mas remetem diretamente para um núcleo temático.


Essas estruturas abertas obrigam-nos a requalificar a posição hierárquica de «estrutura aberta» (e a redefinir o conceito), ou de obra aberta, porque esse vem-se tornando o tipo de estrutura dominante na ciberpoesia posta em linha. Conduzirão, também, a um estudo dos procedimentos artísticos novos, que precisamos comparar com os antigos para percebermos as diferenças operativas em jogo.
É, sem dúvida, não um campo aberto, mas uma série ainda mal definida de hipóteses de trabalho o que sai destas observações – que de resto não são únicas.

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