Veio finalmente a público o número inaugural da revista Maka, revista "de literatura & artes" da União dos Escritores Angolanos. Quase sempre, o que é bom demora a fazer e foi o caso. Com um leque de colaborações em geral valiosas (há alguma mais redundante ou menos ligada à temática principal – jornalismo e literatura), subdivide-se em 7 secções: a primeira é a temática (no caso, como já disse, Literatura e Jornalismo); a segunda é dedicada a Estudos e intervenções (com um completíssimo ponto da situação sobre «a literatura angolana tradicional e a sua recolha»); a terceira é de Homenagem (para recordar nomes da nossa história literária e para homenagear os mais velhos mais consagrados e canónicos); a quarta é de Entrevista (neste número com Dário de Melo, uma entrevista bastante completa); a quinta é dedicada ao Intercâmbio da UEA (incluindo a tradução das conferências de Toyin Adewale-Gabriel quando da sua visita a Angola e o discurso do Secretário-geral "no sarau «Martinho da Vila e escritores angolanos»" no Brasil); a sexta (Miscelânea) reúne noticiário sobre atividades da instituição, bem como um obituário relativo aos escritores angolanos; a última fica reservada à recensão ou apresentação de obras literárias.
A secção sobre Literatura e Jornalismo tem colaboração de Manuel Muanza, Ismael Mateus, Albino Carlos, José Carlos Venâncio, Tânia Macedo, António Quino, Abreu Paxe, Cármen Lúcia Tindó Secco, Cátia Míriam Costa e Manuel Rui (com uma sugestiva crónica sobre a crónica). A diversidade nas abordagens e a preocupação de rigor da maioria dos colaboradores faz deste um excelente caderno dentro da revista.
Na segunda secção, para além do texto inicial (acima referido), destaque para o ponto de discussão colocado por Jomo Fortunato sobre a criação de uma "licenciatura em estudos angolanos" (que, realmente, é de estranhar nunca se ter criado) e sobre o cânone e a institucionalização das nossas literatura e culturas. Ainda, a finalizar a secção, o belo texto de Manuel Rui «Pedra a pedra constrói-se a poesia». O texto, rico também pelas intertextualizações que promove, transcreve a sua participação, em 22-2-2010, nas Correntes descritas, o famoso Encontro de poesia da Póvoa do Varzim. A colaboração da historiadora Reginilde Masseca vem colocar alguns pontos polémicos no estudo das relações entre História, Literatura, estudos culturais e estudo da História. Para além disso traz enfoques a discutir acerca das identidades e identificações atuais, num esforço comparativo que me parece de elogiar (ainda que, no caso angolano, me pareça redutora a visão que traz da 'sociedade pluricultural', em certo momento reduzida às comunidades étnicas – o que não explica cidades como Luanda).
A secção de Intercâmbio tem uma falha no índice. Lá dentro transcrevem-se duas conferências de Toyin Adewale-Gabriel: uma sobre «O impulso social da literatura nigeriana» e outra sobre as mulheres escritoras da Nigéria. Porém, no índice, vem só referido o primeiro título.
Na última secção, recensões-apresentações de obras de João Maimona, Carmo Neto, Adriano Barbas e David Capelenguela.
Ao todo, um bom conjunto, uma boa safra – a figurar em qualquer biblioteca de bom gosto interessada na literatura angolana.
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