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Mensagens

A família Bantu

"Dentre os grupos linguísticos dessa grande família congo- saariana, as línguas bantu apresentam um parentesco genético tão notável que pode ser encarado como um fenómeno relativamente recente. Não só linguistas como também historiadores e arqueólogos empenharam-se em elucidar a 'génese dos Bantu'. Mas as hipóteses diferem. Alguns presumem que a migração bantu, partindo do norte, mais precisamente da região do Camarões ou da bacia do Chade, teria marginado a floresta de modo a contorna-la a leste e, passando pela África oriental, ter-se ‑ ia difundido na África meridional. Outros, como Sir H. Johnston, acreditam que os Bantu vieram diretamente da região centro ‑ africana, através da floresta do Zaire. Por fim, alguns estudiosos, de acordo com a teoria do linguista M. Guthrie, que situa o núcleo linguístico protótipo dos Bantu entre os Luba e Bemba no Alto Zaire, apontam essa região como seu lugar de origem.  Avançando ainda mais, chega ‑ se a apresentar os povos de lín...

Tradição e representação

Os estudiosos da tradição política da monarquia portuguesa – entre os quais, sem dúvida, vários integralistas lusitanos – destacaram (talvez por causa da discussão premente sobre representação e liberdade na Europa do seu tempo) o sistema representativo tradicional, que levou às Cortes e a uma utopia monárquica na qual ainda hoje me parece que podemos encontrar a semente de um novo sistema político, mais equilibrado e mais representativo. Essa utopia não estava isolada, muito menos era apenas o fruto de uma espécie de neonativismo luso e medievalista. Podemos encontrá-la espalhada pelo mundo, com matizes próprios segundo o lugar – como é próprio de propostas políticas equilibradas. Até em países islâmicos, como o Paquistão de Zia-ul-Haq. O grande problema dessa como de outras utopias é o de se prestarem a que dirigentes ditatoriais delas se apropriem, caricaturizando-as para servirem os seus interesses imediatos – como sucedeu em Portugal com Salazar e no mesmo Paquistão com o mesmo g...

Os do quintal

Ao fim de muitos anos de espera os leitores podem hoje consultar as instigantes investigações de Virgílio Coelho sobre o reino do Ndongo e sobre os Tumondongo. São dois volumes (haverá mais, assegura o autor): «Em busca de Kábàsà…» : estudos e reflexões sobre o «Reino» do Ndòngò : contribuições para a História de Angola (Luanda: Kilombelombe, 2010) e Os Túmúndòngò, os «génios» da natureza e o kílàmbà : estudos sobre a sociedade e a cultura kímbùndù (Luanda: Kilombelombe, 2010). Mais acento, menos acento, deve ser isso… Como pelos subtítulos se mostra, o primeiro dos volumes referenciado centra-se em temas históricos, ou histórico-antropológicos; o segundo centra-se em temas mais estritamente antropossociológicos. Para dois grossos volumes (468 e 418 pp. respetivamente), comentários de caráter geral virão com mais tempo, naturalmente. Alguns aspetos vão, no entanto, surpreendendo-nos e suscitando reflexões ao longo da leitura. Um dos mais instigantes prende-se, a meu ver, com u...

Novas crioulidades, novas descentralidades e a nossa herança estética

Datada de 4 deste mês, o magazine do prestigiado jornal francês Le monde publicou uma série de oito testemunhos de oito escritores(as) africanos sobre o ‘continente negro’ (siga a ligação http://www.lemonde.fr/international/article_interactif/2010/12/04/huit-ecrivains-africains-racontent-l-afrique-qui-vient_1447623_3210.html ). O ‘dossier’ intitula-se “Huit écrivains africains racontent l'Afrique qui vient”. “L’Afrique qui vient” é, precisamente, uma das pedras de toque do caderno, motivado por um recente encontro, no Mali, a propósito das comemorações dos 50 anos das independências africanas. O encontro realizou-se sob a forma de  festival, intitulado sugestivamente «Etonnants Voyageurs de Bamako». O festival decorreu entre 22 e 28 de Novembro último e, segundo o Le monde , “revelou aos jornalistas (entre outros aspetos) a nova geração de escritores africanos francófonos… Libar Fofana, Alain Mabanckou, Léonora Miano, Patrice Nganang, Véronique Tadjo, Abdourahman Waberi entre os ma...

Gbagbo, o ex-democrata

As eleições e a democracia em África, particularmente na África Ocidental, continuam num processo de avanços e recuos em que, naturalmente, os recuos são trágicos. Enquanto na Guiné Conakry - um país com cinco décadas de ditaduras - o candidato derrotado aceitou os resultados, que deram a vitória a um opositor e democrata veterano, a Costa do Marfim encontra-se novamente às portas da guerra civil. Ao longo da campanha Gbagbo já tinha dado sinais de que só era democrata enquanto o seu poder não estivesse em risco. A encenação da paz visava, na verdade, engolir a oposição armada e a oposição civil, gradualmente, incluindo através de eleições que ele estava destinado a ganhar. Ao longo da campanha, acusações constantes de ingerência estrangeira (por exemplo por um chefe de Estado vizinho receber o candidato oposicionista, procedimento normal entre países democráticos) e outras faziam subir o tom e levavam-nos a desconfiar da democraticidade do candidato-presidente. A reação pós-eleitor...

frente e costas, de bicicleta

Veio a público, a partir da Mandrágora  portuguesa, pedalando numa bicicleta que descende por via uterina do próprio Marcel Duchamps, a primeira ação do projeto editorial frente & costas . Como entre pessoas íntegras frente e costas não se desmentem, ambas as metades dessa assimetria são assinadas por M. Almeida e Sousa, performer, ator, poeta português desde cedo envolvido nas vanguardas artísticas ibéricas. Como em todas as peças assim concebidas, o final das duas partes fica, paradoxalmente, no meio da brochura. Mas o que mesmo interessa está lá dentro, de qualquer maneira. Na frente um teatro absurdo, com uma linguagem completamente nova e intraduzível - embora de sonoridade agradável. As indicações cénicas são dadas em português e culminam com a última, onde uma linguagem profundamente lírica, surreal e paradoxal fecha a peça com chave (portuguesa) de ouro.  Na segunda metade, a presença da linguagem se junta à sua indiferenciação, por ilegibilidade ou por i...

II trienal de Luanda

A II trienal de Luanda continua a cumprir uma função estruturante no meio artístico luandense: a de atualizar as culturas artísticas locais pelo emparceiramento com criadores de outros países e de qualidade evidente.  Este ano a fotografia ganhou relevo e mostrou o que já se vinha observando a pouco e pouco, mitigadamente: que a fotografia artística angolana pode apresentar-se, de igual para igual, em qualquer parte do mundo. Esta trienal torna-se, por consequência, um marco na história da fotografia angolana – ainda que, felizmente, não se reduza a isso. Outra escolha da trienal que me parece de realçar é a inclusão de espetáculos de leitura de poesia, articulada ou não com música, design, fotografia, projeções. Há sem dúvida mais trabalho a desenvolver, porque a apresentação de poesia é – também ela – um espetáculo total, incluindo performance , representação, mímica, projeção de imagens e de sons, dança. O poema chama por tudo isso para se transmitir. Por sua vez, nem todos...