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Um almoço e um cabinda



Augusto Bastos, inteligente e profícuo escritor, investigador e político benguelense, escreveu nos anos 30 o que talvez seja o primeiro policial angolano: As aventuras policiais do reporter Zimbro. Por mais que procure ainda não me deparei com tal livro.


Descobri, sim, uma primeira publicação em folhetins no Jornal de Benguela, incompleta (embora com a maioria esmagadora dos capítulos). Isso vai suscitar-me comentários e estudos mais prolongados - e a extensão do texto não fica bem aqui. De resto, preciso prepará-lo primeiro para divulgação, pois contém muitas gralhas e uma grafia confusa. 


Repasso entretanto este excerto hoje desconhecido e sempre delicioso, que narra um almoço por alturas de 1879 (ano em que penso que se desenrolam as 'aventuras'). O almoço, nesse tempo, era servido por volta das 10h da manhã. 


Mantive a ortografia tal como na fonte. Mesmo as gralhas, que vão assinaladas.





"O reporter, cerrando as palpebras e tirando do seu fino cachimbo de espuma com pipo de ambar e anilha de ouro grandes rolos de fumo de bom tabaco holandez, que, em poucos minutos saturam o ambiente, recosta-se bem no canapé de palhinha em que estava sentado, cruza os braços e as pernas e põe o pontencial [sic] dos neurones em locubração concentrada.Os dois detectives amadores caem em profunda meditação.

Os ponteiros do relogio avançam, porém, e os minutos correm. Os dois raciocinadares [sic] não dão pelo tempo. Por fim são arrancados ao mundo interior das ideias pelo bater metalico do pequeno martelo na campainha do relogio anunciando as dez horas da manhã. – Horas do almoço.

Á porta do gabinete de trabalho do reporter-detective assomou a cabeça da ladina Berta, de feições simpaticas, que, pediudo [sic] prêvia licença, anunciou:

- Senhor, o almoço está na mesa!

- Abençoada noticia! – exclamou Manuel da Silva ao mesmo tempo que, preguiçosamente, estiraçava os braços e as pernas.

- E a respeito de apetite? – perguntou Zimbro.

- Devorador, como sempre.

- Vê se bem que não há mal que lhe chegue.

- Os exercicios mentaes constituem para mim um poderoso aperitivo. Até sinto cocegas nas paredes do estomago.

- Para a mesa então, meu caro Silva, e não poupe as iguarias do nosso cosinheiro, que não há quem o suplante na arte culinaria.

- Lá isso, não há, não. Ou não fosse ele cabinda!

- Que são os melhores mestres de cosinha, que tenho conhecido em Africa.

- Incontestavelmente.

Os dois amigos haviam chegado á casa de jantar, que era uma varanda aberta sobre o quintal, como tinham quasi todas as casas nesse tempo, e tomaram logar à mesa, um de fronte do outro

Sobre a mesa, comprida e estreita, alinhavam-se, em travessas e em pratos cobertos, umas seis iguarias, entre ensopados (como antigamente se chamava aos guisados) fritos e assados, enchendo o ambiente de aromas que, expulsando o fastio, despertavam um apetite luculino.

É que mestre Tate, o abalisado cosinheiro do reporter Zimbro, não poupava a dispensa bem fornecida do patrão, e condimentava fartamente as exquisitas iguarias, que a sua habil mão preparava, e a sua fertil imaginação préviamente ideava, com temperos picantes, fortes e bons, em que entravam a pimenta, (então chamada do Reino) o colorau, o gindungo, o cravo da India, a canela e outros adubos culinarios.

Os dois amigos, em tête-á-tête, atacaram vigorosamente os primeiros guisádos, pondo os maxilares em exercicio activo. Retinem os talheres numa esgrima de constante cadencia e ouve-se o glu-glu do então afamado vinho de pasto da casa Bento Pereira, de Lisboa, correndo da bojuda garrafa de cristal para os copos.

A simpatica preta ladina Berta, ajudada por um molequito de nome Catraio, vae fazendo o serviço de mesa, num vae-vem de passos e de meneios dengosos e elegantes.

Para sobremesa, Berta apresenta queijo flamengo com bananas e uma lata de gelêa de marmelo com acompanhamento de vinho do Porto, da antiga marca «D. Luiz».E para rematar o suculento almoço, como eram todos nesse tempo, o aromatico café bem fumegante, acompanhado do classico calice de genebra «Leão»

Zimbro acende o seu inseparavel cachimbo de espuma e Silva entala entre os dentes um puro havano."

Bom apetite!

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