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O «eu» e a criatividade poética


E. M. de Melo e Castro tem, como quase todos os que se debruçam sobre a criação poética a partir do computador, tem sido sensível à problemática do «eu» colocada e recolocada pela prática da ciberpoesia, que transforma radicalmente as noções habituais da teoria literária.



A questão do «eu» ganha dimensão vinculativa, para a teoria da criatividade e para a teoria da literatura, conscientemente a partir do Renascimento na Europa. Cresce a par da noção de autor individualizada e do desenvolvimento de preocupações com direitos autorais e reivindicação de autoria, tal como a par da noção de plágio.

Todo este leque de questões teóricas e práticas atinge máxima intensidade e vivacidade com o Romantismo. Se repararmos, então se deram polémicas famosas sobre direitos autorais (em Portugal, por exemplo, a questão chegou a levar Alexandre Herculano a entrar em polémica dura com Almeida Garrett), ao mesmo tempo em que a figura do autor era fundida muitas vezes com a do enunciador textual e a do sujeito público detentor dos direitos de autoria.


Simultaneamente ainda, o poeta ganha uma dimensão mítica e religiosa, voltando a aproximar-se do vate, do profeta, do génio com o qual ainda se confundiu - numa aleatória, involuntária e imprecisa proximidade com a noção grega de «génio», a noção cristã de «alma» e o conceito egípcio de «Ka».

E. M. de Melo e Castro vem, desde o fim dos anos 50 e princípios de 60 em Portugal, inscrever-se numa linha de reflexão e prática poéticas que se origina, também, sobre a perceção dissociativa das relações entre o «eu» do poeta, o sujeito da enunciação, a obra literária, a sua composição e a sua circulação. 


O estruturalismo havia preparado caminho para tal perceção mas é a produção de ciberpoesia, a intervenção da informática na criatividade, que vem tornar nítida, aclarar definitivamente a dissociação. 


Esta vertente das vanguardas ainda atuais coloca-se, portanto, nos antípodas do caminho que vinha do Renascimento para o Romantismo e que se começa a diluir depois, mesmo com o Simbolismo, o Surrealismo, o Realismo e o Neorrealismo. Em todos esses movimentos o «eu» personalizado, separado do todo social, afunda-se nesse todo que deve revelar, ou submerge dando lugar à expressão de um inconsciente ou de uma corrente subversivos, coletivos, além do individuo, de que o indivíduo é somente um instante e uma expressão.

Torna-se, portanto, natural uma passagem como esta:

É que a criação poética não envolve necessariamente o eu do poeta nem ele se confunde sempre com o enunciador do poema, podendo até distinguir-se várias colocações do eu perante o texto que ele próprio produz (Castro 1998: 9).

Esta perceção, teorizada, resolve radicalmente as disputas em torno da intenção do autor, que tanta tinta fez correr ao longo do século XX. Simplesmente essa intenção parece volatilizar-se perante a realidade posta a nú pelo ato criativo ciberneticamente assistido.

No entanto, é sintomático não desaparecer totalmente a questão do «eu» e da intenção na teoria da criatividade poética. Parece mesmo incoerente com a citação anterior esta, produzida logo na p. seguinte do autoprefácio aos Algorritmos infopoemas:

Se o autor é relativizado, o seu trabalho torna-se exponencial e inesperado. Se o processo em si próprio não contém a noção de fim, já que pela mobilidade própria dos pixels as infoimagens podem sempre ser transformadas, então cabe ao autor-operador a função exclusiva de conduzir a intencionalidade do processo e de exercer, ao mesmo tempo, a crítica dos resultados visuais obtidos.

É neste ponto que se pode encontrar a fórmula de equilíbrio entre a tradição autoral e a perceção transpessoal dos fenómenos criativos em arte. É que a interferência do autor e a sua intenção se revelam mais pelos limites que, apesar de tudo, uma obra em papel, uma apresentação no computador e, sobretudo, pelos limites que a nossa capacidade de atenção nos impõe. Havendo que interromper o fio potencialmente infinito das combinações, autor é quem assume e assina essa responsabilidade.

Além disso, o autor pode servir de fonte para o fornecimento de conteúdos e constitui os limites de conhecimento que o próprio texto manifesta - embora o texto possibilite, pelas relações que dispara - superar essas limitações na sua receção (incluindo nas leituras que dele faz o seu primeiro proprietário).

Daí mais uma aparente contradição de Melo e Castro nesse autoprefácio aos infopoemas. Ao falar em "velocidade" e, sobretudo, "rigor das ações permitidas pela máquina" vê neles "um poderoso fator de estímulo para a inventividade e diversidade das intervenções do operador e da sua capacidade de decisão crítica" (pp. 10-11). Mas logo em seguida reconhece "um processo pararracional [...] um processo claramente abdutivo que pode chegar a representar uma outra forma de subjetividade ou mesmo originar algo a que se poderia chamar de subconsciente artificial." O processo pode chamar à tela "de um operador assíduo e experimentado, imagens que correspondem às do seu mais íntimo imaginário privado." É desta emergência que depende, afinal, "a qualidade poética dos infopoemas produzidos", mais do que "das máquina utilizadas".


Repentinamente, o teórico parece ter regressado ao surrealismo, vendo a tecnologia só como despoletador do inconsciente. Esse volte-face é que gera a contradição. No entanto, ele vem de se reconhecer algo natural: que os conteúdos atirados para a tela e para a máquina ocorrem na mente do 'autor'. Mas a autoria não se define por tais conteúdos (visto que ela subsiste ainda quando nos limitamos a fazer colagens com frases e versos de outras pessoas). Ela consiste nas capacidades de antecipação do operador e no sentido crítico sobre o qual assume decisões, cortes, limitações que a "velocidade" e o "rigor" cibernéticos impõem. 


É também por isso que "a função crítica do operador não pode deixar de ser sempre enfatizada" (p. 12).

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E. M. de Melo e Castro - Algorritmos: infopoemas. São Paulo: Musa, 1998.


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