Avançar para o conteúdo principal

Óscar Ribas em Lisboa em 1932




Óscar Ribas viveu em Benguela, como já toda a gente sabe. Pessoalmente me disse que tinha sido Augusto Bastos a introduzi-lo à escrita literária e que as suas primeiras obras tinham muita influência do novelista e etnógrafo benguelense. 




A noveleta O resgate de uma falta foi publicada ali, no Jornal de Benguela, em 1929 saindo em livro também. Faz parte das duas primeiras obras literárias que publicou (a outra chama-se Nuvens que passam e é de 1927) e que achava entusiasmos de juventude. 


Óscar Ribas tinha estado em Portugal e revela o seu conhecimento da vida portuguesa nessa noveleta (qualquer coisa entre conto e novela, como suponho que pensava o grande ficcionista caboverdiano António Aurélio Gonçalves quando cunhou o termo). 


O que eu não sabia é que ele tinha voltado a Portugal. Desconheço ainda o motivo que o levou lá, talvez a cegueira que já se manifestava - o que terá feito com que viajasse acompanhado. Uma local do Jornal de Benguela de 1932 dá-nos conta da sua chegada à cidade já então das acácias e das casuarinas. Não lhe dá particular relevância, o que não deixa de ser estranho tratando-se de um escritor que publicara o seu folhetim naquelas páginas. Mas integra-o numa lista de passageiros desembarcados no Lobito no dia 15 de Março desse ano, juntamente com Joaquim Ribas. 


No encontro que tive com ele, não me referiu nunca esta sua viagem. O dado pode, no entanto, ser cotejado com aquelas páginas da sua autobiografia romanceada (Tudo isto aconteceu) em que Osvaldo (a personagem que fica cega ainda jovem) reúne algum dinheiro e vai a Lisboa tratar-se, melhorando muito pouco, de tal forma que acha que não valia a pena ter ido. Foi e voltou com o irmão mais novo, Jorge, beneficiando ambos de algum apoio do pai e, sobretudo, das economias feitas por Osvaldo. 


A dupla de nomes dá-nos uma chave para descodificar a relação entre a autobiografia romanceada e a biografia de Óscar Ribas: a inicial dos nomes é igual, como se pode ver em Osvaldo e Óscar, Jorge e Joaquim, Relvas (apelido dos irmãos e do pai em Tudo isto aconteceu) e Ribas (apelido do pai e dos filhos na vida real). 


A data avançada no Jornal de Benguela é a do regresso. Não sei quando partiram. Em Tudo isto aconteceu há uma passagem (p. 296) em que um professor liceal recém-chegado de Portugal (Saraiva de Carvalho) leva os alunos ao anexo onde morava Osvaldo. Na entrevista pergunta-lhe quando é que ele tentou curar a cegueira indo a Portugal. A resposta é taxativa: 


Em 1931. Portanto, há vinte e sete anos.







Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano