Acerca dos equívocos em torno da figura e da obra de Gilberto Freyre, convém ler estas passagens do seu texto «Civilização, religião e arte»:
"Impressionou-me há alguns anos, nos meus contatos com o Oriente e com a África, o erro que, a meu ver, vem sendo cometido, em várias dessas áreas, por alguns dos representantes não só protestantes como até católicos do cristianismo, entre as populações não cristãs, das mesmas áreas, ao identificarem tais europeus e quase europeus, nessa representação, o cristianismo com um tipo de civilização que é apenas uma civilização há séculos cristianizada - em parte cristianizada: a europeia ou ocidental. Trata-se de uma identificação arbitrária que só tem feito prejudicar o cristianismo: religião cuja universalidade, sendo plurirregional, não deve ser reduzida à expressão do pretendido valor universal de estilos e de instrumentos europeus de civilização, alguns de duvidosa capacidade de universalização; ou válidos apenas na sua região ou na sua área ecológica."
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É neste sentido que ele vislumbra na chamada Escola de Sagres, orientada pelo Infante D. Henrique, uma intenção de saber universal - e portanto elogia-a, não por lusismo, antes por se abrir ao saber do outro. Elogia-lhe, nomeadamente,
"o esforço no sentido de ligar-se ao saber do europeu o saber de outros povos; ao saber adquirido por europeus no estudo da região europeia - de suas sub-regiões frias e temperadas - o saber desenvolvido pelos estudiosos de outras regiões, através do estudo ou da análise dessas outras regiões."
Esta perspetiva, que está presente na ensaística de M. António, ainda se deve conjugar a uma segunda consideração sobre as culturas europeias e euro-americanas:
"Lembremo-nos do seguinte: que a civilização europeia, completada hoje pela anglo-americana, é uma civilização que não tendo se originado no trópico se sente estranha em regiões tropicais; e que até hoje não conseguiu estabelecer-se em sua pureza em qualquer área tropical."
Por vezes se permite o sociólogo ainda generalizações sem nenhum fundamento histórico, por exemplo quando generaliza a "os portugueses" uma característica presente em alguns deles e em alguns momentos da sua colonização. Mas o que me interessa aqui é a visão ecológica da cultura, a visão ao mesmo tempo radicada e aberta, que lhe permite reassumir no final do texto:
"Um dos erros de muito cristão e até de muito missionário católico em terras pagãs tem sido este: o de se considerarem propagandistas menos de um cristianismo capaz do máximo de universalidade através do máximo de plasaticidade, de variedade e diversidade nas suas expressões de cultura - inclusive de arte - que de um cristianismo superiormente europeu, intransigentemente gótico, culturalmente medieval, associado não só ao branco da pele e ao louro do cabelo dos europeus [os europeus são todos loiros?] como às suas estilizações artísticas de Deus, dos santos, dos anjos: São Josés sempre de barbas ruivas, Meninos Jesus sempre de olhos azuis, Nossas Senhoras sempre de face cor-de-rosa, anjos sempre albinos; e todos vestidos de túnicas gregas e de togas medievais; penteados à europeia; adornados com adornos europeus. semelhante arte nunca foi principalmente cristã quando pretendeu estender-se assm europeia a povos não europeus: foi imperialmente europeia. foi racista. foi burguesa. foi imperialista. e em vez de uma arte de paz, que conciliasse o não europeu com o europeu, foi uma arte animadora de preconceitos: preconceitos de superioridade da parte de europeus para com não europeus; preconceitos de inferioridade da parte de não europeus, em face de europeus cujo cristianismo se apresenta aos olhos de povos pardos, amarelos, pretos, vermelhos, através de uma arte identificada de modo absoluto com brancos, louros, albinos."
Catolicismo significa universalidade. Para um católico, as manifestações anteriores à conversão podem ser animadas por um espírito pré- ou protocristão, por pessoas que sentem de alguma forma a presença de um Deus sublime e subtil, transcendente e imanente.
O cristão percebe nas formas précristãs essa antecipação da conversão e promove uma percepção cristianizada delas. Não europeizada ou africanizada ou americanizada, etc., mas cristianizada. Quero dizer: mostra como nelas se manifestava já a sublimidade de um Deus que encarna para vencer a morte morrendo como homem e ressuscitando no esplendor da sua inteira verdade.
Foi assim que surgiu uma arte cristã europeia, com base no paganismo dos povos que habitavam no continente, aliás várias artes cristãs europeias, porque variavam conforme a zona da Europa em que se instalavam, justamente por esse conluio sublimador do espírito do lugar. Porque, lembremo-nos, o cristianismo nasceu no que hoje são a Palestina e Israel, espalhou-se primeiro pelos países vizinhos e depois é que veio para a Grécia, daí para Roma e daí para todo o império romano.
O choque provocado pelos jesuítas portugueses que chegaram à Etiópia (e tiveram que expulsá-los passado pouco tempo, dada a sua intolerância) foi o choque da atitude criticada aqui por Gilberto Freyre contra um cristianismo desenvolvido numa outra semiosfera e numa outra esfera biológica, ambiental, histórica, etc. Contrasta ela com a do português, anterior, Pero da Covilhã (de provável origem judaica ou hebraica), que ali acabou fixando-se e trabalhando a sua universalidade sob a sombra do Prestes João, quer dizer, do cristianismo etíope.
Isso mostra que é preciso relativizar algumas generalizações de Gilberto Freyre, mas também que ele tinha razão no que dizia, no seu ponto de partida, que era essencialmente cristão e não europeu - mas brasileiro.
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