A relação entre oraturas angolanas e a poesia escrita
(refiro-me à poesia em verso, principalmente lírica) traz-nos à reflexão uma
renovação temática e estrutural cujas consequências ainda estão no começo de
serem consideradas.
Uma delas prende-se com o ritmo. Há uma coincidência notável
entre a nossa poesia modernista e a poesia modernista globalizada que chegou
até nós. Ela prende-se com o ritmo. Os ritmos vão sendo decompostos e
recompostos, cria-se um ritmo gráfico para além do ritmo sonoro. Já escrevi sobre
essa dissociação entre ritmo gráfico e sonoro, como também exploro isso com os
alunos nas aulas. Resumo: o verso, indicado como tal graficamente, comporta um
ou mais versos, ou fragmentos de um ou mais versos, que o são se contados os
ritmos pelo ‘ouvido’, a partir da rítmica por assim dizer tradicional e
intuitiva.
Essa rítmica, marcada sonoramente, como também o ritmo
gráfico, aponta no sentido de uma oscilação constante entre versos em geral
próximos quanto à métrica (ao total de sílabas métricas). O que se adequa, por
um lado, a ritmos como dos tocadores de marimbas tradicionais, por outro lado aos ritmos
modernistas globalizados. Em vez da regra europeia, por exemplo, se manter em
torno de regularidades métricas sistematizadas e repetidas, com ou sem variações, ela reduz-se à criação de
ritmos próprios a cada poema, obra, autor – ou seja: a regra passa a ser a da
personalização radical no uso dos ritmos, que se tornam mais dinâmicos no que
diz respeito às combinações possíveis das unidades rítmicas básicas.
A nossa poesia modernista cumpre esta nova regra. O problema,
quando nos debruçamos sobre o ritmo na poesia angolana escrita, começa quando
queremos contar as sílabas métricas e, a partir daí, as unidades rítmicas
básicas. Uma vez que, de forma geral, nas línguas banto de Angola (a maioria
das línguas do país) as sílabas são todas tendencialmente abertas e acentuadas,
o português falado no país reflete, em muitos falantes, essa tendência, levando
a abrir e acentuar vogais de forma inusitada para o padrão europeu.
Levando em conta que o ritmo é declamado, lido, recitado,
falado, para considerarmos a realização dos versos propostos é preciso ter em
conta como serão lidos. Aquilo que venho chamando ambivalência, que tem
presença muito forte entre os nossos escritores, funciona também neste nível (o
do ritmo). Viriato da Cruz, por exemplo, pode ser lido em Portugal com o
sotaque português (e até cantado). Aí contam-se as sílabas métricas como é de
norma em Portugal: por causa da tendência geral da variante portuguesa (fechar
a última sílaba da palavra, constituindo portanto palavras graves quanto à
acentuação), conta-se até à última sílaba tónica. Mas, de certo modo (este, que
a escola formal de raiz europeia nos legou), não há palavras agudas ou graves
ou exdrúxulas nas línguas banto de Angola e, tendencialmente, no português
angolano (uma tendência, portanto, não temos uma pronúncia única, mas várias e
uma delas é a de que falo). Ou seja: muitos leitores angolanos realizam um
ritmo diferente dos leitores portugueses, porque acentuam as sílabas até ao
fim. De certo modo (este de que falo) a acentuação distribui-se mais ou menos
por igual em todas as sílabas das palavras.
Insisto na expressão ‘de certo modo’ por algum motivo. Porque
a acentuação, na maioria das línguas banto, parece passar pelos tons e por
sílabas ou vogais longas ou breves. Em parte, a contagem dos ritmos do verso já passou próximo disso, quando por exemplo no latim se tinha que levar em conta sílabas breves e longas. A terminação de versos por breves ou longas, alternadamente ou não, constituía mesmo um jogo que substituía o jogo de rimas das línguas novilatinas. É, portanto, necessário voltar a considerar os versos levando em conta a duração das sílabas. Mas não só. Também os tons. Porém, são tantas as variantes e invariantes a levar em conta que podemos deixar os tons para mais tarde, aspeto que se realiza também de forma diferente em várias línguas do globo. No entanto, o poeta pode ter levado em conta estas diferenças.
A duração, prosódia e natureza das vogais encaixadas nas palavras e frases não foram sistematicamente
estudadas ainda, embora haja muitos trabalhos dispersos (por exemplo os de
Amélia Mingas sobre o Iwoyo). Não foi feita ainda uma sistematização dos dados
que nos esclareça cabalmente, no que ao ritmo poético interessa. Nem me parece
que possa vir a fazer-se antes de termos um laboratório de linguística a
funcionar e antes de termos todas as nossas línguas sistematicamente estudadas
também.
Mas é possível que as contagens das sílabas métricas – e,
portanto, das unidades rítmicas básicas dos versos angolanos – tenham de ser
alteradas ou reconsideradas quando estiver completo um estudo sistemático, pelo
menos, das principais línguas do país. Um verso de 7 sílabas (que tenha 7
sílabas métricas segundo a contagem tradicional portuguesa) pode passar a ter
oito ou nove para um recetor angolano. Até que haja um estudo sistemático feito
podemos somente comparar gravações de leituras mais ou menos espontâneas e
audição de canções onde os músicos interpretem poemas oriundos da nossa
literatura escrita. São meios limitados, dados sobre os quais é sempre perigoso
constituir generalizações. Mas parece-me que são os únicos que temos neste
momento. Podemos, por exemplo, comparar uma versão portuguesa e uma versão
angolana do poema «Namoro» de Viriato da Cruz. E Viriato, como outros da sua geração, parece bem colocado para o fazermos, não só pela sua peculiar atenção ao ritmo, mas também porque, tendo estudado no Liceu, recebeu lições de versificação portuguesa e, portanto, é de supor que tinha noção de conceitos como os de «sílaba métrica», outros conceitos métricos e de versificação, que também mexem com as noções e definições de ritmos.
Lendo os seus poemas mais famosos percebemos uma constante oscilação entre versos "métricos" (quero dizer que se podem contar de acordo com a versificação portuguesa) e versos não métricos, onde o ritmo parece determinado por outras oscilações, não previstas nos tratados de versificação.
É todo um programa de pesquisa que urge levantar.
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