Um livro de muito sucesso, durante o século XIX, chamava-se O piolho viajante. Há quem diga ter sido o livro mais lido no Brasil nesse tempo. Há uma sugestiva relação do livro com a literatura angolana. Exploro, em seguida, um dos aspetos a considerar.
O título completo é O piolho viajante. Divididas as viagens em mil e huma carapuças. Obra muito util para o inverno e para o verão. Vertida da lingua piolha com algumas notas do traductor. O 'tradutor' chamava-se António Manuel Policarpo (este nome significa 'muitos dedos') da Silva e provinha, com muita probabilidade, da tribo de Judá.
O que me importa agora é a estrutura da obra. Inédita não, mas talvez significativa. Cada capítulo chama-se 'carapuça' - 'Carapuça I', 'Carapuça II', etc. Ao todo são 72 carapuças. Imaginem que somos piolhos e andamos a saltar de cabeça para cabeça. Essas são as nossas viagens e cada cabeça uma carapuça. As carapuças saíram primeiro em folhas (folhetos) semanais, anónimas. A primeira foi publicada em 1802 e as outra foram sendo ao longo de vários anos até se reunir tudo num livro só, em 1821, sob o nome de António Manuel Policarpo da Silva. O texto pode ser acessado na biblioteca digital da UNICAMP.
O que me interessa agora é que a forma de publicação dava à obra um desenho de folhetim. Cada carapuça tinha que ter autonomia semântica, ou seja, era uma pequena narrativa independente, contava um episódio completo.
Interessa também outro aspeto: que, estanciando de cabeça para cabeça, o piolho pode contar-nos o que faz e como age cada pessoa. O artifício de base (imaginar-se um piolho viajante) permite assim ao seu criador retratar vários tipos sociais e a própria sociedade do fim do século XVIII e começo do século XIX.
Esta estrutura, pela sua funcionalidade, foi adotada muitas vezes ao longo dos últimos 200 anos. No que diz respeito ao folhetinesco, mas também no que diz respeito ao artifício que permite, passagem a passagem (carapuça a carapuça), ir retratando com verosímil visualidade o que se passa à nossa volta.
O ficcionista angolano Pepetela, não sei se alguma vez leu O piolho viajante. Pode-se ter inspirado em qualquer outra obra. Mas o facto é que ele usa a estrutura por folhas (ou folhetinesca) em As aventuras de Ngunga. Ele explicou bem o motivo (ou acidente) biográfico da obra - relacionada com a produção de um manual para aprender português e, ao mesmo tempo, criar uma moral militante. Porém, como sabemos, o motivo biográfico não explica suficientemente a génese, estrutura e funcionamento de uma obra.
A coincidência com O piolho viajante é maior em O cão e os calús (ou O cão e os caluandas). Pegando num bicho mais digno e socialmente muito significativo também (órfão, aliás, da descolonização), ele usa o motivo do cão para visitar vários tipos sociais da Luanda dos anos 80 e para fazer um estudo acutilante de sociologia urbana.
O resto, sendo literatura e até realismo animista (o cão aparece em mais do que um lugar ao mesmo tempo), não fazia já falta. Ainda que se lhe dê função, mesmo simbólica.
Se é que faz sentido falar numa história estrutural, ou melhor, falar do percurso histórico de uma estrutura, então esta migrou, muito naturalmente, dos piolhos para os cães e veio até hoje.
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