As partilhas antigas, culturais e políticas, entre povos do nordeste africano e do centro ou do sul da África negra, ficaram mitigadas nas memórias coletivas dos povos angolanos, às quais se somaram depois outras memórias mitigadas, no longo período colonial angolano também aquelas veiculadas por agentes globalizantes europeus.
A formação, lenta e partilhada, de um inconsciente coletivo angolano, quanto visitada por poetas que nele se embebem de peito aberto, ganha expressão na nossa lírica. Penso que a memória mitigada da partilha original pode ser encontrada, poeticamente, num livro de um poeta nosso revelado nos anos 80, João Maimona. Certamente que em mais poemas seus mas, com maior incidência, em O sentido do regresso e a alma do barco isso é percetível. Diria mais: é a própria alma do barco.
No entanto, na literatura angolana a memória do Nilo e do
Egito, como de povos árabes, explicitamente foi recuperada a partir de
referências ocidentais ou globalizadas. Isso não sucede só no século XIX, onde
o Egito e o Nilo (como os árabes) estão conotados com o harém, ter muitas
mulheres, - o que sucede na lírica de Joaquim Dias Cordeiro da Matta.
Notamo-lo também nos autores revelados após a independência.
Por exemplo, num outro poeta (o mais novo) dos anos 80, Lopito Feijoo. Num dos
seus mais belos poemas, «A sede dos rios africanos», o Nilo é a primeira
referência. Transcrevo:
NILO
Percorre divinalmente de cabeça esbranquiçada
fertilizante de cheias estivais
(n)aquela tela vista por Fromentin.
Percorre divinalmente de cabeça esbranquiçada
fertilizante de cheias estivais
(n)aquela tela vista por Fromentin.
Eugène Fromentin, como se sabe, é um pintor (e escritor)
francês do século XIX. Esteve por duas vezes na Argélia e toda a paisagem
norte-africana, incluindo muitas paisagens do Nilo, marcou profundamente a sua
obra e a respetiva popularidade. Daí muitos títulos de quadros como Le Nil, Jeune femme devant le Nil, Vue du Nil, etc. Quadros e textos
onde manifesta o verdadeiro êxtase que a lembrança do Nilo nele provocava.
O curto poema de Lopito Feijoo começa por evocar a divindade
do Nilo, essa ligação entre água e espiritualidade tão marcante nas culturas
banto angolanas; passa a evocar a fertilidade, igualmente associada, nas mesmas
culturas, à divindade e às águas; finalmente passa por Fromentin, aquele pintor
francês que se extasia com o grande e sagrado rio. Ou seja: coloca a referência
colonial subjugada ao fascínio exercido pelo Rio, como pressentindo a sua
divindade.
Num poema intitulado «Testemunho», Lopito Feijoo resume ainda
um dos percursos acima referidos por mim – por sinal o mais longo e onde o
lugar de origem é, numa análise semântica mais cuidada, o de chegada. Escreve
ele:
Todo o sangue vem é de Atenas às terras do país Koi-Sam
distinguindo-se de entre outros pela viril mente condensada de origem secular.
O sangue a vir de Atenas ao Namibe, é o retorno da humanidade ateniense à origem dos homens, de que estarão mais próximos os Khoi e, eventualmente, os San. É de referir, aliás, as investigações recentes que apontam mesmo para o Kalahari-Namibe a possível origem da humanidade. Creio que Lopito Feijoo condensa todos esses mitos fazendo Atenas regressar, em memória, à sua origem “Koi-Sam”, onde outra memória nos lembra que “nós e os brancos temos a mesma origem, porque todos viemos do Leste”.
Uma poetisa revelada sobretudo nas últimas duas décadas,
Amélia Dalomba, dá o título de Espigas do
Sahel a um dos seus livros (Dalomba, 2004) , remetendo-nos para
uma localização que é outra plataforma de cruzamentos, passagens, entendimentos
e desentendimentos. Também em outros textos seus encontramos sombras desse inconsciente coletivo comum, por exemplo no tratamento semântico
dado à palavra “catarata” num poema de Lágrimas
e laranjas (Dáskalos, 2001 p. 31) :
Fomos peregrinos de tantos lugares
E de gentes de outras línguas
Bebemos águas de muitas fontes.
Mas àquela cachoeira
Que nos pertencia
Não podíamos chegar.
Prenderam-nos no exílio
E na tortura de a sonhar.
Não somos mais peregrinos,
Estamos em outro lugar.
Mas viaja a alma
Para nessa cachoeira mergulhar.
A autora, que descende de emigrantes gregos, condensa aí
todo o sentido viático na origem da constituição dos nossos povos e nações,
reportando a origem e a pertença a uma cachoeira, uma queda de água, tão
importante na simbologia e na História do Nilo quanto na relação entre água e
origem a que já me referi. Num outro poema nos transportara já à visão do Boi
Ápis – ou, pelo menos, de algum seu parente chegado:
Esquecia-me de mim.
Um boi sagrado pastava
No círculo de fogo do sol.
Os olhos não choravam
E
O mesmo sol estampado na
Camisola
Carregava a morte.
Mas o poeta com mais referências explícitas ao Nilo, nos
anos 80, é sem dúvida José Luís Mendonça.
Para o próprio escritor, as duas mais importantes estão nos
poemas «claros são os números» e «no deserto do meu voo». No primeiro Nilo e
Assuão são marcos temporais, zonas de limite no tempo que o referente textual
ultrapassa:
Do cão mítico da terra ao lirismo azul do sangue
claros são os números que naufragam
ao gume dessa poeira de chuva
sentada entre manhãs de alumínio Nilo
não era ainda um rio nem Assuão
havia descido as muralhas suspenso do choro dos
cegos anões Desde
quando a águia
constrói o seu ninho entre os joelhos
dos homens submersos em Atlântida?
A segunda referência explícita evoca a conotação negativa do
escriba, que a literatura africana lusófona conhece já desde Rui Knopfli
(Moçambique) e Arménio Vieira (Cabo Verde):
Leva meu canto ó águia da montanha
à luz reta das lâmpadas
pendentes da cintura das almas furtivas
dos caçadores Os escribas
que me delataram a sombra
conceberam Kéops no deserto
do meu voo antes de eu ser
o rio evaporado na indómita
ressonância do hungo que me subscreve
ao sol mudo da minha secretária
O cacimbo fresco do meio da tarde
entrava pela janela aberta do toyota land cruiser
banhando o meu rosto de matéria pura
e o teu cabelo ainda cheirava a lápis de cor
dos tornozelos do céu
Mudando de registo, num curto poema («Aves da estação») do
livro mais recente ele atravessa toda a zona intermediária entre África ‘negra’
e ‘branca’, passando por referências conhecidas e reconhecidas da poesia de
raiz africana:
Aves de estação
Os grandes pelicanos
Não aprederam a arte
Da navegação
Em nenhuma academia
Do país de Selassié.
Conhecem porém melhor
Que os pilotos ingleses
As ruas abertas no céu
Os mapas do horizonte
E o tempo propício ao amor
Às margens do Senegal.
Poeta africano e cosmopolita, tanto quanto João Maimona, soa
natural a sua semantização e simbolização do Nilo e das referências religiosas
ao Egito Antigo. Fá-lo com maior distanciamento, entre outros, no poema «Meu
nome é tão cereal»: podes contar todas as
pirâmides do Egito – onde a grandeza histórica do país se eleva à
infinidade, a par da idade cósmica de Ur (Mendonça, 2006 p. 17) . A semantização
torna-se, a meu ver, mais interessante quando ele a universaliza, afastando
referências explícitas, excitando assim o nosso inconsciente coletivo através
de fragmentos líricos que podem ser ligados a várias tradições africanas e,
mesmo, não africanas. É o que realiza, por exemplo, ao falar no canto litúrgico de longos rios submarinos;
ou quando personaliza o mar visualizando a ponta
dos dedos do mar; ou quando nos remete à
luz ténue do primeiro mar – alusão bíblica mas também coincidente com a do
mito de Khnoum (Mendonça,
2006 pp. 27, 26) ,
que se alonga em outros versos e chega a fazer a ligação entre o mar e a nossa
formação ‘pré-uterina’: se o mar não
existisse se não tivesse um dia / escutado no seu ventre / a primeira canção de
embalar. / Não estará na maré / a hora certa do nosso nascimento e o know-how
pré-uterino / que ilude os ponteiros da morte?
Vogando e
vagando sobre tais águas, Mendonça coloca-se ao lado de Maimona na assunção
difusa de uma coletividade dispersa, que nos vincula pelo verbo a uma herança
universal, com uma caravela de numeração
árabe entre os cabelos.
Interessante material, que ligo à conversa de passagem pelo aeroporto. Oxalá tenha corrido pelo melhor. Bom weekend
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