No posfácio de Hildeberto Barbosa Filho ao livro O cão de olhos amarelos de Alberto da Cunha Melo (Recife: Pirata, 1979. p. 265, re-editado em São Paulo pela Girafa em 2006 e Prémio da Academia Brasileira de Letras do ano seguinte) o ensaísta paraibano (Aroeiras, 9-10-1954) cita o norte-americano Thomas Stearns Eliot (26 Set. 1888 – 4 Jan. 1965), num ensaio sobre Hamlet, a propósito da correlação objetiva entre um "conjunto de objetos, uma situação e uma cadeia de acontecimentos que sejam a fórmula para esta emoção particular", que a provoquem tal como acontecendo na realidade a provocariam.
Subjacente à conhecida tese de Eliot, com a qual em princípio concordo, está no entanto uma visão que ele não terá explicitado: a da existência literária num circuito entre autor e leitor. Por simplificação, quando raciocinamos ou expomos a alunos a nossa visão da comunicação literária, tomando geralmente por modelo o da linguística (emissor – texto/mensagem – leitor), imaginamos uma situação em que qualquer dos três pontos da equação é singular. Na realidade sabemos que não é assim: o autor é coadjuvado por uma série de coautores involuntários (os que cita e nos deixa perceber que estão citados ou aludidos) ou voluntários (os leitores) que tornam o texto instável (portanto plural) em resultado das múltiplas leituras possíveis da obra e das suas relações intertextuais.
Nesse caso há uma pergunta a fazer: será que a mesma "fórmula" provoca as mesmas emoções em todo o mundo? Ou: o que será preciso fazer para que tal aconteça? Ou, ainda: será que temos vantagem em que tal aconteça, uma vez que o texto pode funcionar provocando emoções diferentes em semiosferas diferentes?
A parte final da afirmação, já não entre aspas, é também muito importante. Ela suscita uma conceção do funcionamento da arte entre autores e leitores que também não fica explícita. Ao escrever "tal como acontecendo na realidade a provocariam" estava, porém, consciente do que isso implica se levarmos em conta alguns dados e algumas hipóteses da neurobiologia.
Quero dizer: a "fórmula" de que fala Eliot tem uma correspondência na "fórmula" que usamos para reconhecer uma situação e elaborar uma resposta a ela, que passa pelos motivos marcados pelas emoções e que as sugerem. Sem dúvida, há circuitos (neuronais), redes disposicionais (e proposicionais), padrões de receção e de interpretação mentais que são característicos do funcionamento de qualquer cérebro humano. Outros, porém, outras "fórmulas", em razão da complexidade atingida pelo funcionamento cerebral, podem variar em dependência de condicionantes culturais. Essas condicionantes estariam demarcadas por semiosferas diferentes. E esta última hipótese nos leva a reformular as três perguntas feitas acima.
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