Sem dúvida que é uma das questões candentes do nosso tempo, a par da biodiversidade a questão da semiodiversidade. É do que falava já Glissant quando nominava o caos-mundo por oposição ao mundo unívoco imposto pelo domínio comercial e tecnológico dos EUA e dos países 'ocidentais'.
O problema que se põe é o mesmo que se pôs à desmultiplicação do deconstrucionismo e do pós-estruturalismo. Estes, enquanto sistemas de descondicionamento do discurso filosófico e teórico ocidental (um movimento que se origina no próprio mundo euro-americano e tem que ver com a sua história cultural), foram apropriados por minorias (desses países) que se apropriaram do método para promoverem o descondicionamento de um discurso enquanto caminho para nos levar a condicionarmo-nos por outro (feminismo, discriminação positiva, nativismos, etc). Assim também, muitas pessoas defendem a semiodiversidade (ainda que não recorram ao termo, que não me lembro de ter lido) mas apenas como percurso para depois condicionarem o discurso a uma visão local ou ideológica desfavorecida no momento.
Ora os exercícios de descondicionamento visam manter a mente aberta e só como tal são válidos. O resto é o que sempre se fez (no 'Ocidente' e fora dele): tentar realizar o mito da cabeça vazia, que se abre e onde a gente inculca o que acha que deve meter. É claro, quando se liga o botão, isto não é computador e sai uma linguagem que ninguém percebe – porque, naturalmente, nem a cabeça estava num vácuo (por mais que a descondicionássemos), nem ela por si é vazia, pelo contrário, se fosse máquina era um gerador de criatividade, diferença, nunca um reprodutor discursivo.
Também a semiodiversidade só poderá ser válida na medida em que seja para nos mantermos conscientes dessa diversidade e a vivermos com inteira liberdade.
É portanto uma impossibilidade lógica defendermos ao mesmo tempo a diversidade cultural e linguística e o regresso e o condicionamento mental a culturas ou línguas que, de alguma forma envolvidas no e pelo processo de globalização, jamais voltarão a ser as mesmas. Hoje essas são quase todas as línguas e culturas importantes do mundo, importantes no sentido em que se mantêm, mantendo vigor, personalidade e inventiva no seio das vozes globais que fazem a semiodiversidade.Se nos reduzirmos novamente a uma delas (o que nem sequer é possível) teremos voltado à univocidade, ao sistema único de pensamento, ao partido único do espírito, à militarização do raciocínio, enfim, a tudo aquilo que temos combatido para que a liberdade seja uma palavra com alimento próprio.
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