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Universais da literatura


A questão dos universais vem, pelo menos, desde a filosofia medieval europeia. É ao mesmo tempo natural e estranha, dependendo do ponto de vista: natural porque é natural pensarmos no que temos em comum; estranha porque, se é natural termos 'universais' em comum, não se percebe muito bem porque é que há-de levantar-se alguma questão.

Aceitando que há universais estéticos, como defendem Denis Dutton e os estetas evolucionistas por exemplo, sempre há questões a colocar e uma delas é a de quais. Dutton, no livro Arte e instinto já comentado aqui, define 12 – talvez por analogia com os 12 apóstolos…

Define-os como "traços característicos encontrados interculturalmente nas artes", mas da lista sobram alguns que não me parecem convincentes para o efeito. Um deles é o da novidade, aliás novidade-criatividade. Segundo o autor, "a arte é valorizada, e apreciada, pela sua novidade, criatividade, originalidade e capacidade para surpreender o seu público". Diria um amigo brasileiro que não vejo há décadas: é, mas não é muito. Pelo menos não é só. Dutton esquece que, muitas vezes, tanto na semiosfera euroamericana quanto nas outras, o prazer da arte neste aspeto consiste precisamente no contrário, em ver executado uma vez mais um cânone, um paradigma, em sentir o deleite da coincidência entre expectativa e sugestão. Cultiva-se nessas alturas o exímio, procura-se a perfeita execução, a repetição absoluta da obra. A história da literatura é mesmo feita disso, de fases em que tal prazer vigora, domina; depois esgota-se na repetição do modelo e então, sim, o que se procura é novidade, criatividade, originalidade, surpresa.

Outro traço que me parece duvidoso é o da crítica de arte, nos termos mesmo em que ele fala nela e sobretudo no que diz respeito à crítica profissional. Em muitas sociedades isso não existe, existem simplesmente mestres na arte que vão comentando com os discípulos as respetivas execuções ou criações, num circuito restrito de ensino pessoal, não partilhado com o resto da comunidade. Há comunidades que não sentem falta nenhuma dos críticos, acham que isso é problema do foro dos mestres relativamente aos seus 'miúdos'.

Um terceiro traço, cuja universalidade me suscita dúvidas, é o do que o autor chama "foco especial": "as obras de arte e as performances artísticas tendem a ser apartadas da vida normal". Acho que nem sempre isso acontece, principalmente nas pequenas comunidades rurais, unidas eventualmente por alguma chefia frágil, pouco distanciada dos súbditos. As esculturas em muitas comunidades rurais angolanas, por exemplo, estão quase sempre fora disto (como da exigência de novidade) e não deixam, no entanto, de ser consideradas artísticas pelos habitantes. Nem sequer exigem um "aparato" ou "atenção" especial, uma cerimónia de apresentação que suscita a sensibilidade artística vista como algo específico, isolado e para se apreciar separadamente.

Tirando isto, os outros traços parecem-me relevantes – embora acredite que, por exemplo certas formas de poesia, certas formas de arte sufi, certas performances contemporâneas não sejam propriamente representativas, não procurem pelo menos sê-lo. Concedo, porém, que são de escassas minorias e para minorias igualmente escassas.

Mas, tirando estas, há outras características que lhe parecem universais da literatura, ou das artes e não dá para pôr em causa, são mesmo universais. A simples lembrança desses universais (sejam eles doze ou menos ou mais) deita por baixo toda a argumentação relativista dos últimos anos. De resto ela funda-se geralmente sobre extensas bibliografias e subtilezas tão finas e tão abstratas que me recordam um famoso retrato irónico de Joan Brossa, um dos 'pais' da poesia visual: está sentado no seu escritório, rodeado de papéis (livros, jornais, eventualmente manuscritos, dactiloscritos, etc.), a tal ponto que nem conseguimos ver o chão, para onde quer que se mexa pisará papéis e fará, sem querer, novos poemas visuais. As 'verdades' relativistas só existem mesmo no meio dessa papelada toda. Quando abrimos a janela e respiramos o vento fá-las desaparecer.

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