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Arte, sobrevivência e reprodução

 

Foi publicado em Portugal, pelo Círculo de leitores, na coleção «Temas & debates», o polémico livro de Denis Dutton Arte e instinto – cuja edição original é de 2009.

O livro merece várias considerações mas, de forma geral, podemos começar por dizer que traz uma lufada de ar fresco à teoria literária atual, saturada e arrasada por vagas de relativismos e localismos inconsequentes. Enquanto as vagas relativistas abriram portas a discursos redutores, que substituem o condicionamento a uma filosofia euro-americana de pretensão universal por uma espécie de uma teoria para cada caso, Denis Dutton mostra uma das raízes e causas da universalidade, não só da arte, mas dos julgamentos em arte: a sua inevitável articulação com dois instintos básicos, o de sobrevivência e o de reprodução.

Parece-me que passa com alguma superficialidade, com leituras redutoras, sobre a antiga filosofia europeia, particularmente quando fala sobre Platão e Aristóteles (trata da obra de Platão sem atentar à complexidade e às contradições devidas à evolução do seu pensamento). Um dos aspetos que lhe prende a atenção em Aristóteles é, porém, significativo, pois é um facto que a Poética tem sempre em conta os limites e as caraterísticas universais da perceção humana – de onde lhe vem, em parte, a própria universalidade. Dutton repara ainda nos temas da Tragédia grega, dramas familiares que se prendem com morte, reprodução, sobrevivência – postas em causa pelo rompimento de "relações familiares e amorosas normais" (p. 62). Com razão acrescenta que "os guiões de dramas, ficções sensacionalistas e novelas por todo o mundo" reforçam (ele diz que validam) a candência universal e perene do tema (p. 63). Além disso, essas leituras são perfeitamente dispensáveis na obra enquanto que, por outro lado, algumas passagens de filósofos ausentes (Hegel e Kant mereciam mais atenção, por exemplo) deviam ser confrontadas com a sua teoria evolucionista das artes e da literatura.

Também algumas das caraterísticas universais que ele aponta à arte são discutíveis – embora poucas delas, que mais tarde comentarei. Alguma da sua argumentação me parece, por vezes, fraca ou superficial ou de abuso de autoridade. Por vezes também escolhe autores para criticar cuja fundamentação teórica é manifestamente fraca e, portanto, não valia a pena perder tempo com eles. No geral, porém, percebemos que estamos perante uma retórica inteligente, que sabe antecipar as críticas e tratar delas através de uma sábia orquestração prévia da exposição das hipóteses e das discussões. E as teses fundamentais do livro não são postas em causa pelos pontos fracos que lhe apontei.

Uma a uma ele vai desmontando as convicções pré-conceituadas dos últimos anos, os relativismos encapotadamente eurocêntricos, os pruridos com o respeito pela cultura dos outros escondendo uma visão dessa cultura que não é deles. Fazia falta varrer esse pó, devolver ao campo literário alguma nitidez e, mesmo, lucidez.

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