José Eduardo dos Santos fez um discurso que marcou, para além do que era de esperar, a agenda política do MPLA e de Angola. No super-congresso do bem anafado partido-estado (que o continua a ser) o atual Presidente falou do tribalismo e do racismo que impera dentro do seu partido; falou, juntamente com a direção, das profundas mudanças visando a democratização interna do seu partido; voltou a falar na necessidade de acabar com a pobreza e a corrupção. O discurso será, porém, importante, se tiver consequências práticas. Mas há pontos a reter, naturalmente.
Um deles é o próprio presidente do partido fazer essas críticas internas, porque isso implica ter ele um controlo menor sobre o seu partido do que habitualmente se supõe. Também se deduz que muita coisa feita em nome do presidente não é da sua responsabilidade. E aqui a ironia talvez não seja tanto ou não seja sempre. Em alguns pontos essa falta de controlo é evidente. Por exemplo: o presidente do partido e a sua direção falam em diversidade de opiniões, democracia interna, o que é louvável e vai finalmente colocar o MPLA a par da UNITA, onde a democracia interna já funciona há mais tempo (embora não muito, diga-se); mas os militantes no Congresso estão todos vestidos da mesma maneira, com os mesmos bonés ridículos de origem norte-americana, com as mesmas blusas e as mesmas fitas amarelas e os militantes comentaram o discurso do seu chefe com o mesmo seguidismo de sempre. Como disse Ernesto Mulato, dirigente da UNITA presente ao conclave, é preciso ver se os militantes com responsabilidades estarão à altura de aplicar na prática o sugerido pelo seu dirigente máximo. E não estão.
O Presidente (da República e do partido) lembrou também que é necessário haver, na sociedade igualmente, vozes críticas, crítica, discordância. Portanto devemos deduzir que as atitudes censórias da atual equipa da Cultura, as tentativas de manipulação constantes pressionando os agentes livres da cultura, não recebem o beneplácito do 'Chefe' e não devem portanto ser feitas em seu nome.
Podemos também deduzir que as atitudes criticadas de racismo, tribalismo e despotismo praticadas por dirigentes regionais do MPLA, quer no seu partido quer nos governos provinciais e nas administrações municipais e outros órgãos regionais de governo, são atitudes que esses militantes devem assumir sozinhos, devendo portanto demitir-se dos seus cargos caso não cumpram as diretivas que o partido vai aprovar.
O problema é que todo o sistema montado pelo MPLA ao longo destes anos funciona com estes (e outros) defeitos. É louvável (e mais vale tarde que nunca) fazer-se autocrítica e avançar-se numa direção nova. Mas duvido que isso resulte apenas por consequência de um discurso, ainda que esse seja o do Presidente do partido e da nação.
De qualquer modo, por este e outros motivos, o seu foi sem dúvida um bom discurso.
___________________________________________________________________________
Post-scriptum: passado que foi o Congresso ficam impressões diversas da expetativa criada pelo discurso. A nota positiva foi a passagem ao voto secreto, que pode vir a funcionar em congressos futuros como aliciante para a existência, livre e assumida, de facções ou simples correntes de opinião interna. Por agora, o presidente foi re-eleito, sendo candidado único, numa percentagem de 98,7%. O vice-presidente e o secretário-geral (que pressionou Marcolino Moco de forma desastrosa e arrogante, digna dos tempos de partido único, segundo carta por este escrita e vinda a público) foram também re-eleitos. A renovação foi, de forma geral, cinzenta e controlada. São problemas de quem pertence a esse partido mas não deixamos de ter direito a opinar sobre o que se passa ali e, por agora, parece-me que não se passa nada.
Como disse o reverendo Luís Nguimbi, em declarações à Angop, "esperamos que os delegados ao conclave se convertam em verdadeiros ativistas junto das massas para que as ideias do presidente do partido governante sejam acatadas e assumidas por todos". Declarações, aliás, sintomáticas a, pelo menos, dois níveis: o das expetativas do enunciador e o dos pressupostos que as orientam.
___________________________________________________________________________
Post-scriptum: passado que foi o Congresso ficam impressões diversas da expetativa criada pelo discurso. A nota positiva foi a passagem ao voto secreto, que pode vir a funcionar em congressos futuros como aliciante para a existência, livre e assumida, de facções ou simples correntes de opinião interna. Por agora, o presidente foi re-eleito, sendo candidado único, numa percentagem de 98,7%. O vice-presidente e o secretário-geral (que pressionou Marcolino Moco de forma desastrosa e arrogante, digna dos tempos de partido único, segundo carta por este escrita e vinda a público) foram também re-eleitos. A renovação foi, de forma geral, cinzenta e controlada. São problemas de quem pertence a esse partido mas não deixamos de ter direito a opinar sobre o que se passa ali e, por agora, parece-me que não se passa nada.
Como disse o reverendo Luís Nguimbi, em declarações à Angop, "esperamos que os delegados ao conclave se convertam em verdadeiros ativistas junto das massas para que as ideias do presidente do partido governante sejam acatadas e assumidas por todos". Declarações, aliás, sintomáticas a, pelo menos, dois níveis: o das expetativas do enunciador e o dos pressupostos que as orientam.
Comentários
Enviar um comentário
Comente