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Identidade I – avó Boneca


Morreu Sábado, pela madrugada segundo me disseram, D.ª Adelina de Andrade Ferreira, a 'Boneca' ou 'Boneca Chiquito', como era conhecida. Nascida em 1921, feita do barro de Benguela (como diria Ernesto Lara Filho), descendente de várias famílias antigas agenciadas nos diversos tipos de comércio dos séculos XIX e XX em África, era um dos ícones vivos da cidade. Conhecida pela bondade, alegria e pelos conselhos que dava, o funeral congregou uma população transversal, afetivamente unida na última homenagem à sua concidadã.
O facto, aparentemente episódico e assertivamente triste, não é despiciendo para quem reflete sobre as identidades urbanas. Afinal, num território partilhado por diferentes grupos, que o usam a partir de caraterizações, conceções e funcionalidades diferentes, esta é uma das vias pelas quais se afirma o perfil coletivo. Mesmo pessoas que não conseguiriam reconhecê-la na rua, que desconheciam também o seu endereço, ou que tinham vindo para a cidade recentemente (digamos que nos últimos 20 anos), mesmo entre essas pessoas o nome da 'avó Boneca', ou 'tia Boneca', ou 'Boneca Chiquito', ressoava como feixe agregador de discursos comuns.
Estes feixes de conotações coletivas não se formam por força da propaganda, por imposição política, militar ou policial. Entram quase sem se dar por isso, quotidianamente, numa esfera especial e subtil de referências e vão somando agregações até se tornarem figuras públicas através das quais a própria identidade pessoal (dos falantes) é negociada na cidade.A partir desse ponto podem virar até o contrário do que a sua biografia podia prever (o que não foi o caso da tia Boneca). Maria da Escrequenha ou Geraldo António Victor são, para Luanda, figuras equivalentes. Ou Santo António para Lisboa (teórico ortodoxo e dogmático, nada faria prever que viesse a dar em casamenteiro e namoradeiro).
Penso que esta é uma das vias principais de composição e recomposição das identidades nacionais também. Nesse caso, claro, figuras que transcendem a afirmação regional para a pouco e pouco irem entrando nos imaginários coletivos da nação toda. Nessa medida deixam de ser pertença, pelo menos exclusiva, da sua família, da sua etnia (em se tratando de figuras inicialmente étnicas), da sua descendência genética ou política e da sua 'zona'. Entram na argamassa da nacionalidade e é na medida em que tal argamassa vai sendo refigurada, renegociada, em função de novos interesses e novas interpretações, que ela pode constituir-se num eixo identitário e que estas figuras perduram.

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