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O perdão e a falta



No cenário de máscaras em que gira a política angolana o PGR veio dizer que foram recuperados 90% dos dinheiros desviados e transferidos do BNA, que provocaram a penúltima 'crise dos dólares' (com a moeda dos USA altíssima quando no resto do mundo nada disso; a penúltima porque também agora não conseguimos comprá-los e voltaram a subir na rua). Em rodapé o serviço noticioso de uma das cadeias televisivas angolanas indicava que tinha sido recuperada metade da quantia. Não percebi: foi metade ou 90%? Bom, fosse qual fosse a quantia ficámos felizes e lembrámo-nos, claro, do anúncio do PR relativamente ao combate à corrupção. No entanto, estranhamente, os nomes dos culpados não se mencionaram na peça; mais adiante o PGR diz que há um pedido para se arquivar o processo, uma vez que o réu (ou réus) se confessou e repôs a quantia. A afirmação é contraditória, porque antes se dizia que a quantia tinha sido recuperada apenas em parte; e supõe-se que por informações dos que a desviaram, mas em contacto com instituições financeiras estrangeiras, que identificaram as verbas e as devolveram. Portanto, não foi bem o réu que fez isso, terá colaborado, quando muito. Vai daí, põe-se a hipótese de o(s) recuperar após o arrependimento, ao réu, não ao dinheiro. Mas, como disse o comentador, foi cometido um crime, um crime grave e, portanto, há que julgá-lo. Conforme o que no julgamento se prove, há que condená-lo. Como ouvia dizer quando era miúdo: desculpa não cura ferida. O arrependimento fica-lhe bem mas – até porque pode ser falso – o castigo torna-se necessário para ele e para os gestores e empresários em geral. E para que o povo saiba que, enfim, esse tipo de criminoso também será combatido.
Pensamos que o arrependimento funciona numa esfera estritamente pessoal, em que a pessoa faz a si própria um julgamento e reconhece ter errado, sentindo-se mal por isso. O julgamento é um processo de ordem social em que, perante o que determinam as leis e aquilo que se prova, o réu vai ser condenado ou absolvido, quer se arrependa, quer não, pelos representantes que a sociedade preparou para o fazerem. Ao arrependimento responde o padre; ao crime responde a justiça. Se a justiça absolve o faltoso demos um passo muito curto, pois continuamos a lavar a imagem dos que deliberadamente nos lesaram. A sociedade sai defraudada. Mas aguardamos pelo final da novela...

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