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Mensagens

Vidas e mortes de uma narrativa biográfica - Abel Chivukuvuku e José Eduardo Agualusa

(aviso: texto em construção) Uma bela capa, mas não só. As biografias sempre suscitam com maior acuidade o problema dos limites entre ficção e história 'real'. É também já demasiado marcada a polémica em torno da realidade, que vem desde que o homem percebe e pensa, pois é pela dúvida sobre o que percebemos que tornamos a olhar e a pensar. Agora comecemos por uma obra: a biografia de Abel Chivukuvuku. Em primeiro lugar, aspetos estéticos, pois estamos perante uma obra literária e esta é uma página de crítica e teoria. De ritmo bem marcado, que se mantém ao longo do livro constante, ajudando a 'agarrar' a leitura, evitando excursos, alongamentos, distrações, dúvidas, frases longas, emboscadas, o discurso é direto e claro como numa reportagem, a longa reportagem de uma vida ainda sem conclusão. O "sem conclusão" fecha-se no fim, em que o autor acaba deixando no ar a provável hipótese de um renascimento mais da personagem que, por suas mortes e suas vidas, se apr...

Aproximações ao pensamento poético de António Telmo - notas iniciáticas

‘‘language was not a mere string of words. It had a suggestive power well beyond the immediate and lexical meaning. Our appreciation of the suggestive magical power of language was reinforced by the games we played with words through riddles, proverbs, transpositions of syllables, or through nonsensical but musically arranged words...” (Ngugi wa Thiong’o, Decolonizing the mind , 1986) Nota pessoal António Telmo viveu em Moçâmedes (Namibe), cerca de cinco anos, na primeira infância. Nesses casos é comum que o sol do deserto sul africano fique para sempre dentro da cabeça das crianças.  Conheci-o pessoalmente em Portugal e nunca falámos disso. O casal Pedro Martins - Risoleta Conceição Pinto Pedro é que me alertou para isso, no âmbito da construção que vêm fazendo da biografia de António Telmo. Também nunca falámos disso porque eu próprio quase nada falei com ele sobre África ou sobre Angola. O que na sua obra me interessou, sempre, foi a definição de pensamento poético e a cons...

Cendrars e a descolonização da Europa

  A descolonização da Europa: um refluxo globalizante Francisco Soares CITCEM-FLUP-UP Resumo : O artigo persegue uma hipótese clara: a de que a história literária europeia, particularmente o advento dos modernismos, pode ser compreendida, em grande parte, pela articulação dos respetivos países com o processo de globalização dos mercados. Exploro, com mais pormenor, o caso do escritor Blaise Cendrars antes do seu desembarque no Brasil. (i) 1 O processo de globalização dos mercados, para muitos autores, iniciou-se nos séculos XV e XVI, coincidindo com o princípio da expansão marítima e colonial europeia. A partir dessa altura, escritores das colónias, ou de reinos com uma intensa relação com países europeus colonizadores (como era o caso do reino do Kongo), tornavam-se literatos dentro de um sistema de ensino formal (o dos jesuítas, principalmente), inspirado no sistema das universidades europeias e na respetiva divisão dos saberes ( trivium , quadrivium ). Inteligiam das tradições o...

Literatura e marxismo em Angola - apontamento sobre Eugénio Ferreira

  O título «Literatura e marxismo» pode levar as pessoas a pensar que vou refletir sobre a visão que os marxistas possuem da literatura, mas não é isso que vou fazer. Há muitos anos e durante muitos anos, o Dr. Eugénio Ferreira o fez aqui em Angola e esse é o motivo próximo, chegado, pelo qual falo de literatura e marxismo – em Angola. Com maior ou menor conhecimento das obras do próprio Karl Marx, de uma forma geral os nossos autores nacionalistas, em qualquer das gerações anteriores à independência, foram marxistas ou reclamaram-se ou se identificaram publicamente como tal. O marxismo constituiu, portanto, um dos cânones dessa época e a sua vulgata , o que publicamente se divulgava como marxismo, corria na boca de quase todos os candidatos a intelectuais e poetas por aqui.  Podia ter sido um modismo, mas um modismo não dura tanto e, sobretudo, não marca tão estruturalmente uma literatura. Nos países ditos ‘socialistas’, sobretudo naqueles sob influência da URSS, a ligação en...

A função das etiquetas em literatura

  Em estudo recente (“ Preparing for the unknown: How working memory provides a link between perception and anticipated action ”) publicado na revista NeuroImage por Marlene Rösner e outros, aborda-se como funciona e que funções desempenha a chamada ‘memória de trabalho’, equiparada à memória a curto prazo. Firma-se, entre outras conclusões, que O que armazenamos na memória de trabalho não é apenas a representação mental de impressões sensoriais do passado. Também inclui informação sobre qual o objetivo atual que perseguimos ou qual a ação futura ou operação mental que queremos realizar. O conteúdo da memória de trabalho pode portanto ser visto não só como cópias de informação sensorial, mas também como um planeador mental que seleciona a melhor opção para a situação em questão entre todas as opções. É para este “planeador mental” (ou planejador mental) que se dirigem as etiquetas dos livros, como por exemplo “romance”, “ensaio”, “poesia”, etc. Elas ativam na memória de trabalho u...