O título «Literatura e marxismo» pode levar as pessoas a
pensar que vou refletir sobre a visão que os marxistas possuem da literatura,
mas não é isso que vou fazer. Há muitos anos e durante muitos anos, o Dr.
Eugénio Ferreira o fez aqui em Angola e esse é o motivo próximo, chegado, pelo
qual falo de literatura e marxismo – em Angola.
Com maior ou menor conhecimento das obras do próprio Karl
Marx, de uma forma geral os nossos autores nacionalistas, em qualquer das
gerações anteriores à independência, foram marxistas ou reclamaram-se ou se
identificaram publicamente como tal. O marxismo constituiu, portanto, um dos
cânones dessa época e a sua vulgata,
o que publicamente se divulgava como marxismo, corria na boca de quase todos os
candidatos a intelectuais e poetas por aqui.
Podia ter sido um modismo, mas um modismo não dura tanto e,
sobretudo, não marca tão estruturalmente uma literatura.
Nos países ditos ‘socialistas’, sobretudo naqueles sob
influência da URSS, a ligação entre marxismo e literatura chamava-se realismo socialista. Não deu grandes
frutos, como podemos ver nos nossos dias, em que se consagrou precisamente a
plêiade de autores e autoras perseguidos durante o longo regime do PCUS. Nos
países tidos como ‘capitalistas’ e em particular nos países lusófonos, a
ligação entre marxismo e literatura incidiu, maioritariamente, no chamado neorrealismo.
O neorrealismo, no que diz respeito propriamente à arte
literária, não é fácil de definir. Enquanto movimento de motivação ideológica,
mesmo partidária, a sua maior preocupação estava na transmissão de um apelo e
de uma denúncia veementes. Todos os recursos estéticos, desde que eficazes no
meio, podiam ser usados. Daí que vemos poetas neorrealistas como Arnaldo França
em Cabo Verde, ou António Cardoso em Angola, recorrendo a distribuições
rimáticas e estruturas estróficas regulares tanto quanto às irregulares. O
mesmo se diga para a métrica e o ritmo.
Assumo que esta minha perspetiva não é neorrealista nem
marxista. Para os neorrealistas, como lembrou Eugénio Ferreira, “na esteira do
pensamento de Lefèbvre, o conteúdo determina a própria forma”
Entretanto, seja por imitação seja por consciência estética
e política, o neorrealismo acabou nos dando alguns cronótopos formais comuns e
que podemos resumir: o recurso muito frequente a figuras de repetição, como na Bíblia e nas pregações dos padres; a
tendencial irregularidade quanto a estrofes, versos e rimas (herança dos
modernismos); uso de uma linguagem clara, simples, com analogias de curto
alcance e por vezes imediatamente descodificadas no próprio texto; o predomínio
da sinédoque, da alegoria e da metonímia; o recurso a tópicos cristãos
reconvertidos ideologicamente (por exemplo a conotação da noite com a opressão
política e a da manhã luminosa com o advento da redenção revolucionária, muito
presente em Agostinho Neto). Isto no que diz respeito à lírica em verso. Quanto
à narrativa, em que sem dúvida foi mais forte o neorrealismo de outras
paragens, predominava o mesmo tipo de linguagem, com as mesmas características
estilísticas. Elas serviam uma tendência para a composição de um herói-modelo e
de uma promessa de vitória centrada em tudo o que ele simbolizava. Mas a
narrativa exigia, além disso, que o ficcionista partisse de uma realidade
concreta, que a articulasse dialeticamente com a sua época e mostrasse como,
inevitavelmente, o processo histórico nos conduziria às gloriosas manhãs do
homem novo. Esta exigência subia a parada e mantinha um mínimo de exigência
estética a funcionar, graças às articulações simbólicas necessárias para
convencer alguém das articulações dialéticas deduzidas.
Foi o neorrealismo a corrente literária mais influente nos
países africanos lusófonos até às independências e desde 1944, ano em que a
revista Certeza, em Cabo Verde, publicou
a sua primeira geração. Entre nós, o neorrealismo começou o comprido mandato em
1949, justamente pela mão de Eugénio Ferreira, quando fez sair o primeiro
número (de 1947) da revista Cultura sob sua direção.
Ao longo de muitos anos ele manteve a doutrinação, através
de livros hoje quase esquecidos mas claros e esclarecedores como A crítica neorrealista
Sem dúvida que essa permanência tornou o nome de Eugénio
Ferreira inseparável, quer da literatura angolana, quer do nosso neorrealismo,
que foi parte dela. Mas não só: o momento em que surgiu, a circunstância em que
se inicia a sua intervenção, foram decisivos também.
Quando Eugénio Ferreira e mais alguns camaradas seus tomaram
conta da revista Cultura, o nosso
panorama literário era bem pobre e, sobretudo, dividido em dois. Por um lado a
lírica de Bessa Victor, ainda novo, com dois títulos apenas de poesia e só um
deles moderno, o contemporâneo, modernista e negrista Ao som das marimbas. Geraldo Bessa Victor representava a juventude
da Liga Nacional Africana, ao mesmo tempo a continuação da elite luandense do fim do século XIX e começo do seguinte e a sua rutura
em direção ao negrismo norte-americano, adaptado à imposição imperial de um
papel para ‘os negros’ desde que ajudassem na ‘civilização’ daquela parcela e,
eventualmente, de outras, do ‘Portugal Ultramarino’. Bessa Victor falava como
negro e da condição do negro na Angola colonial, escrevia como um modernista
moderado (em Ao som das marimbas),
mas não é nem nacionalista nem neorrealista – parece-me, de resto, que a opção
marxista dos nacionalistas o afastou definitivamente do MPLA, ou de círculos
afins que haviam de nele desembocar.
Do outro lado líamos o modernismo saudosista, moderado e
africanizado de Tomás Vieira da Cruz, uma espécie de assimilado na direção
contrária, a da ‘cafrealização’. O bloco da literatura colonial entrava também
numa certa revista Cultura e publicava
aí poemas insípidos e incipientes ou, de quando em quando, elogiosos para a
situação, como talvez os primeiros poemas do hoje esquecido Humberto da Silva,
ou Humberto da Sylvan, que foi durante muito tempo um nacionalista fervoroso,
íntegro (até se desiludir). Pegando nessa revista, Eugénio Ferreira conseguiu
reunir um bom sector da sociedade colonial dedicada às ‘letras’, instruindo
uns, aproveitando outros, conforme o grau de consciencialização e de força de
vontade que possuíam. Mas não se contentou com reunir os colonos progressistas
trazendo-os para o lado da independência e da revolução; juntou-lhes, o que é
mais importante ainda, jovens angolanos que foi doutrinando, a quem foi falando
em marxismo, apoiando no conhecimento e compreensão do que isso fosse. De
maneira que, em Janeiro de 1949 é dada a ‘chamada’ para a literatura de
combate, nacionalista e neorrealista, à qual se juntaria mais tarde a
componente negritudinista. Ao fazê-lo reuniu uma futura nação, contribuiu para
que ela encontrasse um rumo e deu o tiro de partida. Entre os jovens de que
falo estavam Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário Alcântara Monteiro, António
Jacinto, Maurício de Almeida Gomes e outros que ‘responderam à chamada’, como
escreve Mário Alcântara Monteiro, se não me engano no primeiro número dessa fase
nova da revista Cultura. Ao fazê-lo dava também começo à intensa
relação da nossa literatura com a filosofia e a ideologia marxistas.
A segunda geração nacionalista angolana (de autores nascidos
entre 1931 e 1940) acentuou precisamente essa ligação ao marxismo. Para o vermos
imediatamente, basta recordar A vida
verdadeira de Domingos Xavier, a Poesia
com armas de Costa Andrade (que se refrescou numa ténue sombra de
concretismo em São Paulo) e a de António Cardoso, ou o prefácio de Henrique
Guerra a O segredo da morta, ou o seu
conto «Josefo Camalata», que é também uma análise económica e antropológica da
expansão ovimbundu. A atuação de Eugénio Ferreira na fervilhante mas pequena
comunidade literária luandense também se fazia sentir sobre esta segunda
geração e da mesma forma que sobre a primeira.
Mais que não fosse, só por isto o nome de Eugénio Ferreira
se tornaria incontornável em qualquer História
da literatura angolana, como também em qualquer História da crítica literária em Angola – ambas por fazer.
Francisco Soares,
Luanda, 7-6-2016.

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