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Cendrars e a descolonização da Europa



 

A descolonização da Europa: um refluxo globalizante

Francisco Soares

CITCEM-FLUP-UP



Resumo:

O artigo persegue uma hipótese clara: a de que a história literária europeia, particularmente o advento dos modernismos, pode ser compreendida, em grande parte, pela articulação dos respetivos países com o processo de globalização dos mercados.

Exploro, com mais pormenor, o caso do escritor Blaise Cendrars antes do seu desembarque no Brasil.

(i)


1

O processo de globalização dos mercados, para muitos autores, iniciou-se nos séculos XV e XVI, coincidindo com o princípio da expansão marítima e colonial europeia. A partir dessa altura, escritores das colónias, ou de reinos com uma intensa relação com países europeus colonizadores (como era o caso do reino do Kongo), tornavam-se literatos dentro de um sistema de ensino formal (o dos jesuítas, principalmente), inspirado no sistema das universidades europeias e na respetiva divisão dos saberes (trivium, quadrivium). Inteligiam das tradições orais e das escritas, como das locais e das globalizadas, ou em fase disso.

O sistema universitário europeu foi crescendo naturalmente (isto é: sem grande programação governamental) durante a Idade Média. Por isso, uma criança formada nas oraturas (como sucedia no reino do Kongo e na maioria dos reinos europeus), entre contos e estórias de encantar, proveito e exemplo, poemas-romances, lendas, etc., se entrasse no sistema formal de ensino, teria um choque menor do que um jovem colonizado, pois ambos os sistemas coabitaram durante séculos e coabitam mesmo hoje. Porém, no caso também, essa criança europeia reconheceria uma fronteira abissal entre, por exemplo, a Escolástica e o mundo mítico posterior às ‘invasões bárbaras’, que serviu de pasto a grande parte do romantismo europeu, o qual se expandiu para o resto do mundo pelas mesmas vias usadas pelos cristãos dos séculos XVII, XVIII e mesmo XIX, ou XX. No entanto o filho colonizado de uma elite africana, ou o filho ocidentalizado de um reino independente africano (como o do Kongo), vira chegar de repente estrangeiros, o seu país mudar-se estruturalmente (com desequilíbrios evidentes mas criativos) e, para ele, o ensino formal não resultava de uma evolução histórica, natural, ou seja, do desenvolvimento de dinâmicas locais. Entretanto, era vantajoso, logo um bem cultural a possuir, adquirir, incorporar, apessoar.

Por isso podemos dizer que, desde o início, o choque trazido pela implantação de um ensino formal foi muito mais sentido, com profunda cisão, pelos nascidos em territórios colonizados, ou cristianizados com ensino formal. Mesmo filhos de colonos, nascidos ou criados em pequenos aglomerados urbanos em mistura com os filhos da terra, criavam-se em uma oralidade e realidade de que o ensino colegial não derivava e com a qual mantinha relações tensas. Houve, nesse tempo (séc’s XVI e XVII), intelectuais, escritores, padres, filhos da terra e filhos do reino vindo novos para o que hoje é Angola, ou indo novos para Portugal. Os meninos cujos pais tinham poder ou posses (desde que não fossem judeus) entravam na rigidez formal da ratio studiorum (a regra de ensino dos jesuítas) e saíam dali, no mínimo, conscientes de que havia planeta maior, outras culturas, uma das quais eles conheciam já bem, a par da sua. Mas saíam também de uma cisão, de um corte radical com a infância, semelhante ao das crianças europeias mas com o ensino formal representando um ‘outro’ que não ‘da terra’, aquele ‘outro’ que estava a ocupar o território pelas armas e trazia consigo escolas, a cruz de Cristo, espadas, balas de canhão, livros, oratórias barrocas e um longo etcetera, com seu quê de maquiavélico, de equívoco e de germinante. Por isso é que as descobertas feitas pelos outros foram sentidas, no mínimo por via do ensino formal (e sublinho isto porque falo de literatura), como um momento de rutura e, simultaneamente, de consciencialização dolorosa da globalidade.

Para os europeus, o ‘choque’ provocado pelo que eles próprios intitularam descobertas e pelas colonizações foi sentido mais lentamente, em diferido, com maior suavidade portanto. A cultura dos outros não lhes entrou da mesma forma pelas portas adentro, eram pessoas a ‘converter’, ‘civilizar’ … e usar. Por isso, numa fase inicial, as mudanças culturais consequentes não foram tão violentas nem tão criativas quanto as de um súbdito congolês ou as de um habitante da ilha de Luanda, ou as de um mundombe das salinas de Ombaka. Talvez essa diferença ainda hoje cause distorções e atrasos na consideração, pelos europeus, do que é o mundo e do que implica, em termos culturais e literários, a globalização. O que explica, em parte pelo menos, a tendência para ver como natural a hibridação nos países colonizados, enquanto muitas vezes ela ainda não seja percebida entre os colonizadores por eles próprios e no seu próprio mundo.

O que faço aqui é uma exploração no reverso das caravelas. A minha hipótese é clara: a história literária dos países europeus pode ser faseada em função dos momentos de aceleração nas comunicações e nos negócios internacionais e transcontinentais, momentos que balizam cada passagem do processo de globalização a uma fase nova. O escritor ou crítico dos países do chamado Terceiro Mundo, apurada como tem a sua sensibilidade à globalização, pode fornecer aos europeus uma leitura que os leve a compreenderem-se melhor a si próprios. E que ajude aqueles que, na Europa, em número cada vez maior, se vão apercebendo da sua própria e histórica hibridação, na qual influíram também os países ‘bárbaros’, as culturas ‘selvagens’ e ‘primitivas’ do chamado Terceiro Mundo.

2

Olhando-a sob esta nova perspetiva, a eclosão de revoluções literárias a partir da Idade Média europeia fica, pelo menos parcialmente, explicada pela intensificação do processo globalizador. No fim do período das Descobertas, que no sentido mais lato se pode iniciar com a divulgação das viagens de Marco Polo (ii), surge o chamado Renascimento. Que foi, também, uma libertação face ao espartilho escolástico imposto pela Igreja Católica Romana à cultura europeia (Marco Polo chega à capital do império mongol no ano em que morre S. Tomás de Aquino). Foi, ainda, a redescoberta da Grécia antiga (reduzida que estava a um Aristóteles domesticado), cuja história vivera igualmente uma internacionalização de mercados, a do antigo Mediterrâneo ([o oceano no] meio da terra, etimologicamente). Foi, por extensão, uma redescoberta do Egito, da Mesopotâmia, da Índia, da Etiópia, de uma série de regiões das quais os europeus foram afastados pelas guerras religiosas, por uma cortina de ferro e sangue tanto cristão quanto islâmico. Significativamente, a maçonaria e outras ordens secretas surgem (ou ressurgem, conforme as versões) no século XVII, reclamando-se de uma sabedoria que tinha origem nos construtores das pirâmides e não só das catedrais. O retorno dos viajantes (e militares, comerciantes, padres, escritores, governantes), assim como a vinda de escravos e padres do ‘ultramar’, sacudiu literalmente a sabedoria europeia medieval e tinha que levar a uma revolução cultural. Ora os gregos sabiam mais do mundo que os ‘bárbaros’ germânicos e eslavos… e, mesmo assim, Camões pôde comparar a realidade da epopeia portuguesa à ficcionalidade da epopeia clássica latina e grega, no seu tempo reduzida a uma existência de papel. A realidade factual, inclusivamente, se preencheu com a recolha e divulgação, pela primeira vez na Europa, de “objetos vindos de África” (pressupõe-se que objetos artísticos vindos da África negra) (iii), “drogas da Índia”, muitos outros produtos, incluindo alguns culturais. E não por acaso o Renascimento pôs a circular por toda a Europa esta máxima exemplar: “a experiência é madre (mãe) das coisas”. E fez Leonardo da Vinci afirmar que “a sabedoria é filha da experiência” (iv). Ora, a experiência estava naquele instante a desmentir a sabedoria anterior. O que levaria necessariamente à revisão, quando não subversão, dos cânones literários – do que por exemplo dá conta o historial do conceito de lírica no Renascimento, cerca de um século depois ao género híbrido da tragicomédia, que faria o pensativo Aristóteles revolver-se na sepultura, não sabemos se rindo ou chorando.

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Ao longo dos dois séculos seguintes (XVII e XVIII) a aceleração do comércio mundial, de que a mundialização do negócio da escravatura foi a face mais hedionda, acentuou apesar de tudo o conhecimento que íamos tendo uns dos outros, até mesmo pelo facto de muitos começarem a viver no país dos outros, ai deixando larga descendência. No fim do século XVIII, na sua segunda metade, as grandes potências europeias estavam muito envolvidas no comércio e na colonização ‘além-mar’, guerreando e pirateando-se, importando escravos, convivendo com eles, trazendo e levando mercadorias entre continentes e portos distantes antes. Mesmo dentro da Europa, filósofos como Kant, que passou a vida em Köenigsberg, encontravam-se posicionados em centros de trocas comerciais de cada vez maior alcance (entre ocidente e oriente, norte e sul); não por acaso a sua filosofia deslocava o epicentro da reflexão europeia da erudição para o criticismo através de uma perspetiva que nos preparava para compreender o ecletismo desde os seus fundamentos. É desejável, penso, estudarmos a relação possível

entre o Idealismo e o choque provocado pela diversidade cultural que se mostrava ali mesmo onde ele vivia, sustentada por redes comerciais bem diferentes, por exemplo, das lusófonas. O próprio Iluminismo desenvolveu, sendo fiel ao mito da razão única e universal, uma pesquisa cada vez mais ampla sobre flores, animais, minérios, povos, crenças e costumes não europeus. As tradições locais foram subvalorizadas tanto quanto as próprias oralidades europeias, vistas como consequência de mentalidades pré-científicas, irracionais, ao mesmo tempo em que foram pesquisadas, passadas a livros com circulação tendencialmente global. O processo irá dando frutos cada vez mais surpreendentes, até sustentar em grande parte o evolucionismo de Darwin, sensivelmente a meio do século XIX. Literariamente, o alargamento das investigações a todo o mundo vai ter consequências, por exemplo, no Candide de Voltaire, que de outra maneira não seria possível.

A par da progressão filosófica e científica, o aparecimento do barco a vapor (nos primeiros anos do século XIX e com soluções variadas) potenciava a aceleração e mundialização do comércio que trazia, por tabela, cada vez mais intensas notícias dos ‘novos’ mundos, através dos avanços da imprensa e das tipografias, imprimindo livros em cada vez maior número por edição, para circularem cada vez por mais portos em todo o mundo. A chamada revolução industrial tornou-se possível (e sustentável), em grande parte, graças à mundialização da economia (a outra grande parte é a do avanço científico e da criatividade tecnológica). Por fim, a sucessão de vitórias de Toussaint Louverture (v) na ilha de Santo Domingo (colónia que representava, nas vésperas da Revolução, dois terços da produção colonial francesa) apanha de surpresa, assusta, choca os europeus e sua mítica infalibilidade perante povos ‘inferiores’. Pela primeira vez são superados por escravos e descendentes de reis africanos negros derrotados e escravizados por europeus. Ainda por cima, depois de preso o chefe carismático, os restantes rebelados conseguem declarar e defender definitivamente a independência. Portanto, quando ‘o primeiro dos negros’ escreve ao ‘primeiro dos brancos’ (vi), abre uma rutura que é também epistemológica e não só política. Essa rutura vai atuar dentro das culturas europeias criando seus próprios abalos sísmicos.

Simultaneamente mas não aleatoriamente, espalha-se por uma Europa inflamada o Romantismo, reclamando o império das emoções (e dos equívocos), dos sentimentos, numa explosão de afetividade que até ali era associada a bárbaros e selvagens (ainda Senghor traçaria a linha de separação, entre europeus e africanos, pela fronteira imaginária entre o predomínio da razão e o predomínio da emoção). O racionalismo falhara em diversos campos e o mundo que insistentemente regressava com os navios continuava a desmenti-lo, ou pelo menos a obrigá-lo a repensar o que tinha escrito. Não foi só a literatura fantástica a dar-nos sinal disso. Enquanto o Racionalismo fazia os melhores esforços por abarcar, com a razão universal, as mais diferentes realidades, enquanto as ciências avançavam, quer as matemáticas, quer as experimentais, sustentando as inovações tecnológicas globalizáveis, o Romantismo imaginava as florestas exóticas com o seu gosto pelo irracional ou misterioso, pelo inexplicável ou pelo estranho, com o incentivo das impressões pessoais e das lendas de povos distantes, absorvendo por essa via a diversidade que se vinha interiorizando e alargando ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, de resto, o movimento romântico espalhava-se, mais do que qualquer outra corrente literária anterior, por todo o mundo, globalizava-se já, embora a um ritmo muito mais lento do que posteriormente o modernismo. A sua dedicação às tradições populares e antigas facilitou, sem dúvida, a absorção e apropriação do movimento em países como o Brasil, que lhe agrega o indianismo. No retorno, o indianismo, e outros regionalismos-nacionalismos, tornam-se conhecidos e procurados na Europa, que por essa via também via reforçado o regresso ao seu próprio passado medieval, às tradições orais antigas, populares, não racionalizadas. A migração global do romantismo prova que, a antecedê-lo, havia todo um processo de aceleração das comunicações e de interligação dos mercados e dos continentes. A par disso, o Romantismo tornava-se via para importações culturais dos exportadores de cultura dominantes.

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A partir daí foi o que foi: uma sucessão cada vez mais rápida de ‘escolas’, ideologias e vanguardas literárias, principalmente centrada em Paris, uma Paris absorvente, na qual se reunia cada vez maior número de massa cinzenta (e não só) vinda dos mais diversos lugares do mundo. O número e a rapidez com que tais ‘escolas’ e ‘movimentos’ emergiram e desapareceram é um testemunho eloquente da crise da razão europeia no século XIX. E ela vai crescendo até chegarmos ao que genericamente chamamos ‘modernismo’, ou modernismos. A profundeza das ruturas então alcançadas estabeleceu um ponto de não regresso. A acompanhá-la vinham fotografias do mundo inteiro, reportagens, noticiários cada vez mais próximos da notícia, livros de viagens, exotismos, pinturas e esculturas ‘primitivas’ ou baseadas nas dos povos ‘primitivos’. Os próprios escritores, artistas, intelectuais, começam a viajar e não só a receber colegas de todas as partes do mundo. Começaram também, muitos escritores europeus, a nascer, criar-se ou deixar-se marcar definitivamente por países e culturas exteriores à Europa.

Veja-se, por exemplo, o Modernismo português. Ele concentra-se numa tríade fundamental, composta pelos nomes de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário Sá-Carneiro. Sá-Carneiro, considerado o menos modernista, cujo pai e cujo avô migraram para Moçambique (vii), foi viver para Paris, onde se suicidou, mas antes acedeu à diversidade estonteante desses anos nos boulevards. O menos radical na escrita, no entanto o primeiro a trazer a visualidade pelo desenho dos versos, e foi radical o suficiente para integrar e marcar o modernismo português. Fernando Pessoa, a figura mais saliente e complexa dos três, criou-se e formou-se, em parte significativa, na África do Sul, onde se interessou por rituais africanos e, muito em especial, do antigo Egito, embora acolhesse teses racistas inglesas. Almada Negreiros foi, como se sabe, neto ou bisneto de uma avó benguelense, mestiço, filho de proprietários de roças santomenses e de um alto funcionário público colonial (viii). O jovem José foi iniciado na pintura por um seu tio, morador em Cascais, são-tomense, como ele mestiço cultural e biológico.

Figuras fundamentais do Modernismo na Europa apresentam biografias semelhantes. Uma das mais marcantes foi a de Saint-John Perse (1887-1975), filho das colónias (nascido em Point-à-Pitre), admirador da cultura chinesa (viveu na China entre 1916 e 1921, tendo escrito nesse país um dos mais famosos livros: Anabase), residente nos EUA (1940-1957), enfim, cidadão do mundo. Veja-se também o caso italiano: Marinetti (1876-1944), o fundador do Futurismo, nasceu na cidade de Alexandria, filho de pais a viver em união de facto; estudou no Egito, como depois Ed. Said (mas em escola mais pobre e em situação de maior pobreza do que o grego Kavafis), na França (escreveu em Francês até 1912), Itália e Suíça, formando-se em Leis na Lombardia (Pavia). Giuseppe Ungaretti, figura fundamental da poesia italiana da primeira metade do século XX, nasceu também na mesma Alexandria egípcia, no subúrbio Moharrem Bey, filho de emigrantes da Toscânia (Lucca), de ascendência judaica; estudou na Ecole Suisse Jacot, uma das mais prestigiadas de Alexandria, graças ao proventos de um forno de pão gerido pela mãe; conviveu diariamente com uma mulher sudanesa e outra croata nos anos do Egito; um amigo egípcio introduziu-o à poesia de Baudelaire, ao mesmo tempo que se iniciava nas literaturas francesa e italiana; ainda no Egito trabalhou como correspondente comercial, integrando simultaneamente círculos anarquistas e socialistas; depois partiu para o Cairo e, em 1912, instalou-se em Paris para prosseguir os estudos.

Muitos outros podíamos nomear. A par deles, nomearíamos também, se espaço e tempo houvesse agora, as exposições de arte ‘primitiva’, ‘negra’, ou, simplesmente, dos ‘selvagens’ de várias partes do mundo; a precursora autobiografia de Paul Gauguin e seus antecedentes; a proliferação e o prestígio do jazz na Europa, particularmente em Paris; a criação e o recheio de museus etnográficos; o desenvolvimento de estudos antropológicos sobre as mais diversas etnias, religiões, culturas, ainda mesmo com visões deturpadas por complexos de superioridade. Tudo num feixe só, num fluxo contínuo, a par do aparecimento de um número cada vez maior (embora reduzido ainda) de negros e mestiços a estudar nas escolas e universidades do Norte do planeta, a trabalhar na marinha mercante, etc.. A literatura europeia não podia mais ser a mesma, tal como suas culturas e populações não voltarão a ser as mesmas depois das últimas e massivas vagas migratórias.

Simultaneamente, a revolução nas comunicações então iniciada, nos transportes, na interdependência dos mercados, na circulação de livros e bens culturais, na invenção tecnológica, acelerou-se a tal ponto que os próprios instrumentos usados pelos artistas iam-se tornando outros, completamente novos, ou pelo menos estavam disponíveis, ao mesmo tempo em que os seus públicos eram cada vez mais diversos e queriam literatura na rádio, se possível, poesia no telégrafo, painéis publicitários onde se colavam mensagens e sugestões e referências culturais por vezes bem diversas... Daí revoluções artísticas vindas logo a seguir aos modernismos, como a da poesia sonora, a da poesia visual, a da poesia concreta e experimental – até às atuais poéticas interativas, digitais, informacionais. O passado era já, para os europeus, um país estranho, exótico, e o mundo abria-se para mais imprevistos do que os pré-existentes.

5

No caso concreto deste artigo pretendo experimentar a minha tese passando uma vista de olhos pela biografia de um alpino que marcou o modernismo a nível global (e o modernismo foi a primeira revolução literária totalmente global, apesar de surgida primeiro na Europa). Trata-se de Blaise Cendrars, de seu nome artístico ou pseudónimo (ix). Nada faria pensar que um homem nascido nos Alpes se tornasse tão depressa e por tão diversas vias um cidadão do mundo marcado profundamente por esse mundo. No entanto, nós em Angola conhecêramos outro suíço (Heli Chatelain), trabalhando para uma igreja protestante, que justamente fez parte desse movimento de recolhas linguísticas e etnográficas característico da progressão científica europeia desde o século XVIII. Mas havia ainda, na mente de muitos, uma imagem da Suíça mais fechada – e, no entanto, ela era multilinguística desde a nascença.

Retiro da sua biografia apenas aspetos que mais diretamente se relacionam com a minha hipótese, complementar de uma outra exarada no número anterior desta mesma revista.

Como disse, Blaise Cendrars é um pseudónimo. Pseudónimo de Frédéric-Louis Sauser, nascido em 1887 em La Chaux-de-Fonds, 27 rue de la Paix, Neuchâtel, Suíça. A julgar pelo que ele próprio mais tarde divulgou e alguns biógrafos confirmam, a mãe seria de origem escocesa, sendo apenas o pai suíço ‘de gema’, ou ‘genuíno’.

Entre 1894 e 1896 a família viveu em Nápoles, no sul de Itália, onde o jovem Frédéric frequentou a Scuola Internazionale.

Nos anos de 1905 a 1907 viveu em São Petersburgo, Rússia, tendo-se empregado na casa de M. Leuba, relojoeiro suíço.

Os anos de 1910 e 1911 são férteis em viagens: estadas em Paris, São Petersburgo, Nova Iorque, onde ele reencontra uma antiga paixão: Féla Poznanska.

Em 1912, em New York, sai Hic Haec Hoc, primeiro texto assinado Blaise Cendrart (aí aparece mesmo o ‘t’ em vez do ‘s’).

Voltando a Paris, funda com Emil Szittya a revista Les hommes nouveaux (Os novos homens – repare-se no título) e publica o primeiro grande poema, Les Pâques (Les Pâques à New York). Aí reencontra Guillaume Apollinaire e a vanguarda parisiense.

A sua poesia lírica reflete, logo nos títulos e desde o início, esta sensibilidade a espaços e sociedades diferentes. Dos nove livros que a totalizam, quatro (Les Pâques à New York, 1912; Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France, 1913; Le Panama ou les aventures de mes sept oncles, 1918; Feuilles de route. 1. Le Formose, 1924) mostram logo na capa uma tal sensibilidade.

Fazia parte dessa sensibilidade uma atração forte pelo continente americano e pelos negros e negras. Como se pode ver nitidamente em Feuilles de route. 1. Le Formose, Cendrars, que detestava a literatice, os literatos, a retórica balofa, procurava reduzir a expressão ao mínimo indispensável mas elucidativo, para aumentar assim o poder de comunicação, não só na sua língua, mas em qualquer uma. Vejamos dois exemplos:

1)

O navio em que segue é retratado, na sua componente humana, de maneira a servir de metonímia à própria Europa multicultural que ele conhecia bem. Fá-lo por sinédoques: seguem nele judeus (“em minoria como em sua casa na Polónia”), russos (“a jogar às cartas à luz de um farol veneziano”), espanhóis (“que tocam a bandurria, cantam e bailam a jota”), portugueses (“no castelo da proa fazem uma roda camponesa um negro toca duas grandes castanholas de osso e os pares rompem a roda evoluem giram batem os calcanhares enquanto se levanta uma voz guinchante de mulher (x)”), alemães (“emigrantes alemães muito limpos e cuidadosamente penteados cantam com suas mulheres e seus filhos cânticos duros e canções sentimentais”), “Bordeleses” (de Bordéus; “jogam às cartas” na “despensa”) e geralmente povos do Leste da Europa (“na coberta da popa há fortes discussões e rixas em todas as línguas do Este da Europa”).

2)

Um dos postais de Dakar é este: “o povoado negro é menos feio e menos sujo que a zona de Saint-Ouen. / As aves de rapina que o sobrevoam às vezes baixam e o limpam”.

Note-se como a linguagem é denotativa, a referência direta. É a partir da imagem crua que uma tal denotação nos dá, por isso mesmo condenada a ser um símbolo em si (xi), que vamos conotá-la poeticamente (por exemplo pensando na ironia feroz que descreve o “povoado negro”). Esse é o tom geral do livro, do estilo de Cendrars aliás. Uma espécie de ascese pelo verbo, que leva o poeta a despir-se o mais possível de si próprio e das figuras de papel para ser ele próprio imagem, fragmento, espelho. Mesmo quando refere os seus desejos e os ascos, fá-lo numa linguagem direta, crua, como se estivesse a falar de outra pessoa, ou com a simplicidade com que uma criança fala de si própria. A comunicação poética reduz-se, assim, como que ao nível de um crioulo ou pidgin literário que potencia a comunicação com falantes de várias línguas e de várias enciclopédias poéticas.

No entanto, vejamos como escreve as mulheres negras. Fá-lo num texto intitulado «As bubús» (referindo-se às túnicas). Começa por uma descrição denotativa (em que a exclamação inicial parece desajustada): 

Oh essas negras que se encontram nos arredores do povoado negro em casa dos traficantes que tomam por anacronismo o algodão do tráfico.
[...] nenhuma mulher do mundo possui essa distinção essa nobreza esse andar esse ar esse porte essa elegância essa indolência esse refinamento essa limpeza essa higiene essa saúde esse otimismo essa inconsciência essa juventude esse gosto. 

E segue por aí numa extensa lista de comparações com europeias (inglesas, parisienses, espanholas, russas, húngaras, arménias), chinesas, norte-americanas, para depois fazer uma nova descrição, denotativa e longa.

A fascinação pela negra é confessional, autêntica, emergindo inesperadamente (parece-nos que espontaneamente) no meio da ascese poética centrada em descrições denotativas. A diversidade que tais denotações retratam, junto com o deslumbre por uma figura não europeia, mostram-nos uma das vias pelas quais os poetas modernistas procuraram perceber o outro, alcançá-lo, atingi-lo ou sabê-lo. A nudez da expressão mostra-nos também uma das consequências que teve a relativização dos saberes e das habilidades técnicas após o retorno do mundo à Europa.

É desse mesmo mundo e do mesmo mundo negro que sai uma das antologias mais conhecidas de Cendrars: Petits contes nègres por les enfants des Blancs (1928: Pequenos contos negros para os filhos dos Brancos). Dois anos depois da antologia, faz publicar outro título sintomático da relação profunda entre a evolução das literaturas europeias e o processo de globalização: Comment les Blancs sont d'anciens Noirs (1930: Como os Brancos são antigos Negros).

Não admira, portanto, que a reunião da sua poesia completa, publicada ainda em vida do autor, viesse a intitular-se Do mundo inteiro ao coração do mundo. Um percurso que pode resumir a descolonização cultural da própria Europa a partir da sua expansão.


Benguela, Abril-Maio de 2009. Relido e ajustado em agosto de 2023 em Évora.



Notas

i O presente ensaio foi primeiro publicado no n.º 4 da Revista angolana de sociologia, saído em Luanda no final de 2009.

ii Terminadas nos anos 90 do século XIII, a divulgação das viagens começa no princípio do século XIV e no final do século XV (1485) foram finalmente impressas.

iii Veronique Prat – «L’austére beauté de l’art des Dogon». Le figaro magazine. – 08/04/2011. Em linha: http://www.lefigaro.fr/culture/2011/04/08/03004-20110408ARTFIG00468-l-austere-beaute-de-l-art-des-dogons.php captado a 09/04/2011.

iv Onésimo Teotónio de Almeida estudou a circulação da frase pela Europa. V. «Sobre a revolução da experiência no Portugal do século XVI: na pista do conceito de "Experiência a Madre das Cousas"», http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e34.html, captado a 28/04/2009.

v Culminando na promulgação de uma constituição para toda a ilha (de S.to Domingo) e da auto-proclamação do próprio como governador vitalício (em 1801), tudo à revelia de Napoleão, que acabará por mandar um exército derrotá-lo, prendê-lo (à traição) e trazê-lo para França (1802), de cujas prisões nunca mais saiu. A rebelião começara na noite de 22 para 23 de Agosto de 1791, feita por escravos e recorrendo a práticas vodoo. Ela conduzirá, já depois da prisão de Louverture, à proclamação da independência e renomeação da ilha (Haiti) em 29-11-1803. Entre outras páginas, consulte-se http://pt.abolitions.org/index.php?IdPage=1182260433, captada em 01/05/2009.

vi Referência ao início da célebre carta que Toussaint Louverture escreveu a Napoleão. Na sequência, Chateaubriand chamou a Louverture "o Napoleão negro".

vii Carlos Augusto de Sá-Carneiro, o pai, resolveu parcialmente por aí as suas dificuldades financeiras; era tenente de engenheira e deixou várias obras técnicas notáveis (por exemplo veja-se aqui). O avô era já diretor dos caminhos de ferro de Moçambique.

viii António Lobo de Almada Negreiros, além disso poeta, jornalista e ensaísta político.

ix Veja-se, pelo menos, a página http://www.cebc-cendrars.ch/ (consultada a última vez a 28-04-2009).

x O barco ia para o Brasil, via Dakar, e o retrato é feito logo antes de aportarem a Dakar. Parecem-vos mesmo portugueses que iam emigrar para o Brasil?

xi Pois ao lermos uma peça literária tomamos a realidade por símbolo. Mas mesmo sem lermos nada, olhamos o mundo, frequentemente, por analogias e como analogia. Por isso, não se vislumbrando metáforas, a própria descrição funciona como mola analógica.


Bibliografia

ALMEIDA, Onésimo Teotónio de

SD: «Sobre a revolução da experiência no Portugal do século XVI: na pista do conceito de "Experiência a Madre das Cousas"», http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e34.html (captada a 28-04-09).

CENDRARS, Blaise

2009: Hojas de ruta 1. el Formose, Madrid: Fundación Juan March.

AAVV

SD: http://pt.abolitions.org/index.php?IdPage=1182260433 (captada em 1-5-2009).

AAVV

SD: http://www.cebc-cendrars.ch/ (consultada a última vez a 28-04-2009).

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