Nota pessoal
António Telmo viveu em Moçâmedes (Namibe), cerca de cinco anos, na primeira infância. Nesses casos é comum que o sol do deserto sul africano fique para sempre dentro da cabeça das crianças.
Conheci-o pessoalmente em Portugal e nunca falámos disso. O casal Pedro Martins - Risoleta Conceição Pinto Pedro é que me alertou para isso, no âmbito da construção que vêm fazendo da biografia de António Telmo. Também nunca falámos disso porque eu próprio quase nada falei com ele sobre África ou sobre Angola. O que na sua obra me interessou, sempre, foi a definição de pensamento poético e a consequente Arte Poética - mítica, heterodoxa, cabalística e intimista (numa aceção muito particular). Ele praticou a arte poética ao escrever os seus contos e teorizou desde bem antes Andando com ela, experimento um caminho diferente do que os meus leitores habitualmente percorrem nestes ensaios.
Não me interessei nunca por
filósofos e poetas que não conheceram nem experimentaram a vida, a surpresa, o
desafio de peito aberto ao perigo. Acho tais personagens demasiado plácidas para falarem da verdade. Em geral, falsificam a vida, logo a
verdade. São filósofos de chinelas e poetas de pantufas. Em Portugal as avós diziam: raios te partissem! Não sei rogar pragas e não quero. Sei que há pessoas para quem sentir até mesmo a temperatura ambiente é um incómodo. Apenas rezo para que duram tranquilos o sono extenso da perenidade. E me despeço do
sátiro, que nunca devia ter sido, porém borbulha no sangue de vez em quando. Agora usarei palavras sérias. Um dia, quem sabe, escreverei palavras séniores.
Abro parêntesis para uma nota confessional. Entre os pensadores mais elevados do movimento da Filosofia Portuguesa, identifico-me bastante mais com José Marinho, procuro seguir “a via iniciática de olhos bem abertos”. Está na base do anarquismo místico e da monarquia poliglótica esta postura. São duas emanações de que o nosso evocado e invocado me parecia dar nota subtil: anarquismo místico e monarquia poliglótica. Torno minhas as palavras do arqueólogo Manuel Calado: “se tivesse de definir as posições políticas do António Telmo, eu diria que ele foi, sem o assumir, um libertário”. Percebo, talvez mal, que Telmo nunca tenha explicitado isso: era demasiado restritivo para um verdadeiro libertário do pensamento.
Fecho parêntesis para uma última nota: o texto a seguir é uma continuidade do que fui lendo. Uma prossecução criativa, por um processo de que também falaremos adiante.
Arte poética
Também na caça e nas cartas houve
silêncios, intuições e mestres (irmãos mais antigos). Aos pés do Mestre as duas colunas do Trono,
sendo Leonardo o Trono, Marinho e Álvaro as colunas (porque um se nomeia pelo
apelido e outro pelo nome próprio? Não consigo intuir). Álvaro Ribeiro, o aristotélico, e José Marinho, o neoplatónico.
“Os dois defendiam, porém, o
valor da imaginação e da intuição, e ensinavam que o princípio da filosofia é a
ideia de Deus.” Experimentada? “A ideia é vivência da qual nenhuma imagem pode
ser a alegoria” – diz Telmo que segundo Leonardo Coimbra.
A teoria poética (de criação,
pensamento e leitura) de António Telmo vai, portanto, alicerçar-se na
imaginação e na intuição, tendo sempre como sombra tutelar e alimento “a ideia
de Deus”, ou seja, “o princípio”, a cabeça, a Arka (de Noé, a Noia). E trazendo-nos sempre o
marulhar obscuro e estruturante dos ritmos, das vibrações sonoras, marimbas e
flautas.
Sendo a sua uma poética libertária
do conhecimento e o conhecimento sendo poético, pelo peso de ouro que liberta
as visões e os escravos, “a analogia é o método ocultista de conhecimento, ao
pretender pensar o invisível pelo visível, encontrar a espécie e o género”. É o
que faz a arte poética através da palavra.
O que é a palavra? Palavra como
captação, palavra enquanto energia e trânsito.
Cito o nosso recordado e
relembrado António Telmo: “as palavras, como forças de incorporação e de
subtilização, atuam no plano mental, substantivando e verbalizando as energias.”
Como lavrar a palavra?
Essas palavras poéticas existem por ritmos, como tudo na vida, desde o imensurável ínfimo à relação inédita com o superior imensurável que é a transcendência. Por esse “tudo na vida”, ritmado, a poesia serve a lembrança, a saudade, a recordação. Do mais ínfimo acidente ou pormenor, elas nos levam para algo extraordinário: a presentificação.
O uso doutrinado dos ritmos ativa
as imagens do pensamento e do movimento, organizadas por uma gestalt holística.
“Dupla é, pois, a função do ritmo: – de invocação e de sugestão” (Arte
poética, p. 40). As oscilações rítmicas articulam a poesia, a
palavra-verbo, com as energias subtis e fundamentais cujas variações, mínimas,
estruturam a vida no universo-multiverso e, portanto, no nosso corpo-memória,
que é a sinédoque do mundo animado.
Essa articulação é uma
concordância dinâmica, simultânea à nobreza da perceção da música dos mundos. A
simpatia de que fala Telmo, penso que se sustenta no acordo rítmico, na
oscilante e contínua vibração que perpassa por nós todos, aqui, por exemplo.
Há que pensar ainda o ritmo
sonoro, das alternâncias entre sons e pausas, e o da luz, ou das alternâncias,
aparentemente contrastivas, do luminoso e do obscuro. Ou seja, levar em conta o
ritmo das imagens a par e de cordo com o dos sons, ambos articulados pela
verbalização, no alentado sentido ‘télmico’ da palavra. A verbalização,
simultaneamente, apaixona e ativa.
Matéria e memória, a poesia
deriva “daquela preexistência visionária” que é a verdadeira origem da única
Poesia. “A oposição adâmica de um nome a um ser torna-o exterior a nós, mas
designá-lo pelo verbo equivale a captar por dentro a energia interior que nele
se manifesta, a vê-lo interiormente, como se fosse uma emanação do nosso
próprio ser.” (Arte poética, p. 35) Neste apurado sentido ascético e
sensível, o poeta é um possesso e um visionário, inspirado e fantasmático,
ativando potências e potenciando o que parecia acidental por reconhecimento, ou
nobreza na via da máscara, da pessoa. O nobre poeta, o único poeta verdadeiro,
aquele que não é de papel, conhece, por relação, o que se esconde e o que se
mostra, seu ouvido interno captando o marulhar das águas primordiais ao mesmo
tempo em que alumbra.
A palavra-verbo incorpora, por
tanto, a imagem. A imagem pode ser a pedra filosofal: o poeta lhe dará música.
“As imagens são dispositivos de captação de energias subtis”. (Arte poética,
p. 44) Alquímicas palavras.
A analogia é também um complexo
de imagens, ou, se preferirmos, uma imagem composta e complexa. Importa,
portanto, considerar, a relação entre a palavra-verbo e a imagem – na esteira
do que ele próprio fez ao longo da vida.
Entretanto, “superior à analogia
é, para Bergson, a visão direta, ou a consciência direta”.
O que pode ser a consciência
direta? A morte viva. A morte vivida em nós ao mesmo tempo que a vida.
“Não significa isso que queiramos
propor uma poesia filosófica, mas temos de dizer uma filosofia poética.” – ou
seja: ativa e meditativa, secreta e patente no mesmo passo. Criatividade
inesperada, atenção dinâmica. Ir por aí. Verso, inverso e converso.
“Todas as manhãs” acordava antes
de nascer o sol, procurava um lugar isolado para meditar: “harmonizar a luz
refletida do sol com a minha essência.” Repito uma pergunta antiga: o que
fazer?
A negação do mundo intermediário, da sua realidade, existência e objetividade, pela sua conexão com a fantasia, a mística, a intuição e o irracional, teria como consequência, a tornar-se completamente vitoriosa, a ruína da poesia e da filosofia e a suspensão do movimento essencial da alma que aspira à verdade. Esqueçamo-la, como quem vê uma figura envolta em mantos a sumir-se na poeira do caminho longe. Esqueça esse homem. Mate-o. Harmonize a luz refletida do sol e a sua essência caminhando.
A leitura
Ler é colhêr, com acento
circumFlexo. O ato criativo é, simultaneamente, emergência e imersão, movimento
que supera a nítida perceção do mesmo e do outro, como se a própria vida
compusesse um oxímoro. Suportamos, carreamos, levamos, transportamos, neste
mundo vivo, por intuição e perceção, o outro mundo, que está aqui, no meio de
nós, connosco, reunidos em seu Nome, o que não conseguimos dizer nunca.
“Há uma constante nas sete
bizarras interpretações, o serem todas de desvendamento do que está à vista e
que por estar à vista ninguém vê.” Portanto ninguém nomeia (O livro das
minhas invenções).
Como ler? – ao “realizar em nós
um estado de vivência interna da natureza”, a Obra presente, a partir da qual
sentimos a natureza como o «Todo Um»”, o “Caos-Mundo”, o único multiverso. A
leitura anuncia, denuncia e constitui aquela
Mágica serpente que infinitamente se devora a si própria (Arte poética, p. 70).
A experiência da serpente é
também a experiência da colheita, a leituria. A compreensão da Obra enquanto
manifestação e transmutação da Alma ou pela Alma, sob o sopro do Espírito, de
que só nos apercebemos errante, fugidio, depois de ele passar, quando as folhas
tremem ou vibram e nem sabemos bem porquê, sopro subtil que já se não vê, mas
opera.
Perguntam-me os fantasmas que há
em mim: então mas o ritmo, as imagens? Acho que nos falam da fixação e do
movimento, poesia-relação que, animada, aviva “o sistema ósseo, o sistema
nervoso e o sistema sanguíneo sempre postos em correspondência com determinadas
formas do mundo subtil e psíquico.” (Arte poética, p. 71).
Em Antero de Quental, a imagem
não é vivência ou símbolo, mas alegoria. O exemplo mais alto de filosofia
poética é o de Leonardo Coimbra, aliás o pensador mais odiado por Sérgio e por
Salazar. Nele, a ideia é a flor enorme que abre na floresta esplendorosa da
imaginação; a ideia é vivência da qual nenhuma imagem pode ser a alegoria. E o
ritmo estrutura a prosa por uma prosódia que propaga, aconchega e toca,
obscura, por em, comunicante.
Nessa poética, e gnose, da
leitura, a interpretação nunca perde o sentido do nome e do verbo, da
etimologia e da filologia.
Por exemplo a sua recomposição do
episódio do Adamastor a partir da bizarra etimologia do nome do Titan: Adão
Astral. Intertextualiz0:
As três estrofes finais do Canto
IV de Os Lusíadas, por essas e por outras, contendo as últimas
imprecações do Velho do Restelo, que são a outra face da moeda em que está o
Adamastor. Faz-nos pensar, esta leitura.
O Velho (Ancião?) invoca a sua
Lei, a Lei justa, para condenar o Titanismo, dando como exemplo negativo o de
Prometeu, roubando o fogo do céu para o meter no coração do homem. Fogo de
altos desejos que move o coração onde arde. Faéton, que roubou o carro alto do pai
(Apolo, o Sol) e Ícaro procurando atingir o Céu voando para fora do labirinto
da vida, são segundo e terceiro exemplo do que não se deve fazer, cometimentos
que vêm na esteira do pecado original de Adão, seduzido por Eva, seduzida pela
serpente, a colher o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Altos e nefandos são, segundo o
Velho, tais cometimentos. Paradoxalmente, altos e nefandos.
Todavia, a Nova Lei que veio ou
virá substituir a Velha Lei, é a da Graça e traz em si o movimento para o Amor.
As imprecações do Adamastor coincidem com as do Velho. O Amor é sempre adolescente.
O Velho do Restelo como o Velho
Testamento, em contraposição com os desvendadores do futuro. Uma sabedoria
respeitável e ressequida contraposta à aventura do perigo e da experiência.
O Amor é a invenção por analogias
e osmoses, avivando em nós a vocação de religar, unir, reunir, apaixonarmo-nos.
Aqui se manifesta o que vinha
oculto no meu texto: o Amor, o que religa. Nessa exata medida, pitagórico e
religioso.
Outros dois exemplos ainda para a
ativação da teoria da leitura de António Telmo. O superior: O Bateleur.
Não nos assustemos: o inferior (o que vem de baixo para cima): a interpretação
da fotografia, depois da última lição de Leonardo Coimbra, na introdução
inédita à Filosofia e Cabala. Por arrastamento, no mesmo texto, a interpretação
do fresco de Rafael: A Escola de Atenas.
Fui
Falei do que me interessa. O
caminho que percorri, lacunar e voluntário ao mesmo tempo que inesperado, acaba
aqui, dando sinal de “onde o infinito se recolhe em si”.
(o sítio Voz passiva: António Telmo Vida e Obra foi muito consultado para compor este texto. Além dele, dois livros do autor foram várias vezes lidos: Arte poética e Le Bateleur. Outros também, mas menos vezes - com particular intensidade, entretanto, Filosofia e Kabbalah Seguida de "Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica" e Outros Estudos)

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