(aviso: texto em construção)
Uma bela capa, mas não só.
As biografias sempre suscitam com maior acuidade o problema dos limites entre ficção e história 'real'. É também já demasiado marcada a polémica em torno da realidade, que vem desde que o homem percebe e pensa, pois é pela dúvida sobre o que percebemos que tornamos a olhar e a pensar. Agora comecemos por uma obra: a biografia de Abel Chivukuvuku.
Em primeiro lugar, aspetos estéticos, pois estamos perante uma obra literária e esta é uma página de crítica e teoria. De ritmo bem marcado, que se mantém ao longo do livro constante, ajudando a 'agarrar' a leitura, evitando excursos, alongamentos, distrações, dúvidas, frases longas, emboscadas, o discurso é direto e claro como numa reportagem, a longa reportagem de uma vida ainda sem conclusão. O "sem conclusão" fecha-se no fim, em que o autor acaba deixando no ar a provável hipótese de um renascimento mais da personagem que, por suas mortes e suas vidas, se aproxima de mitos do planalto central angolano. Por exemplo dos fins e recomeços de O Feitiço da Rama de Abóbora e seu protagonista. Mas isto é um excurso.
A linguagem bem ritmada articula-se com a perseguição da transparência, da aparente isenção perante a aparente realidade 'dos factos', a que nos habituaram a reportagem, a notícia, até mesmo a crónica jornalística em boa parte. O resultado, sem deixar de ser pessoal (a marca do autor continua lá), é uma impressão de filme: vemos passar o filme de uma vida, quase como no cinema, e ficamos na expetativa do passo seguinte, ou de saber como aconteceu tal episódio, que julgávamos conhecer, mas em outras versões. A sequência dos episódios é linear em parte: começo pelo decisivo, talvez, o mais dramático, talvez, para todos os angolanos, o do recomeço da guerra civil, em 1992, após as eleições fraudulentas (o autor não nos assegura que o fossem) e as provocações constantes aos 'alvos' humanos da UNITA. Em seguida a narrativa se torna linear (princípio-meio-fim), acompanhando o percurso do protagonista no calendário dos acontecimentos públicos e privados. Apenas alguns saltos bruscos no cenário e de um episódio para outro, de vez em quando, sacodem a sucessão linear, acordando os que sobre ela adormeciam.
A sugestão fílmica também ganha com a procura de isenção. O estilo é amplamente denotativo, não se deixando agarrar por uma analogia diretora, mesmo no que diz respeito ao eixo temático fundamental: a personagem que várias vezes esteve para morrer e várias vezes para triunfar, a oscilação entre morte e vida, vitória e derrota.
O fio condutor é, claro, a biografia do herói - herói como só pode ser hoje alguém, pessoa de carne e osso, erro e sentimento, perspicácia e... verticalidade. Sem dúvida, um herói humano, melhor, o representante humano de um mito universal e archaico (é de propósito "archaico"): o das mortes e vidas, o do que morre e renasce, perde e ressurge para vencer.
A construção da personagem não deixa de nos conduzir aos traços positivos do herói: sincero, franco, de uma extraordinária inventiva perante as dificuldades, íntegro, de uma rara capacidade organizativa e mobilizadora, bom orador (aspeto que talvez pudesse ainda ser mais destacado). Fica-nos a impressão de que Abel Chivukuvuku seria, se morresse hoje, mais uma das oportunidades perdidas, mais uma das esperanças desconseguidas da curta e trágica História de Angola.
Por outro lado, complementar sem dúvida, protagonista e autor se fundem numa origem comum, a da vivência do planalto (em esferas, sociabilidades e contextualizações diversas, mas agregadas pelo sentimento comum do planalto, se me permitem falar assim, da História umbundo e do Bailundo, daquelas terras e cores e águas correntes, daquelas conversas que no quotidiano formam um só rio com os tais nomes e verbos que nos deixam os que partiram e que transformam quantos ficaram). Com isso, o que temos é, também, mais um contributo do planalto central para a construção da História e da Literatura angolanas.
Quanto à 'verdade histórica', ou 'dos factos', a gente faz aproximações, ela não decorre como nos filmes, em que há necessariamente uma sequência, numa só tela. Mas é por aí, pelas abordagens, contrastes de fontes e de informações ou versões, que podemos apontar alguma falha, melhor, ausência, lacunas que talvez, preenchidas, enriquecessem mais ainda a narrativa.
As últimas duas décadas (genericamente, depois da paz, forçada pela derrota de um dos lados) viram surgir vários testemunhos de vários protagonistas do 'outro lado' da 'angolanidade', do 'outro lado' da guerra e da verdade. Anoto nomes, além do primeiro a vir a público, Sousa Jamba com seus Patriotas: Alcides Sakala, Samuel Chiwale, Jardo Muekalia, Jorge Valentim, mais os que de momento não me vieram à lembrança. Os seus contributos são fundamentais para construirmos uma perceção global das duas grandes guerras angolanas: a da independência e a fratricida, que nada teve de civil e poucas vezes foi civilizada (o livro dá exemplos positivos também). Não me recordo de ver citado no livro o relato autobiográfico de Alcides Sakala (Memórias de um guerrilheiro), importante para períodos decisivos, incluindo o da morte de Jonas Savimbi, seus últimos dias, em derrota e fuga após os erros estratégicos clamorosos que ditaram seu fim (sobretudo a falta de cálculo com que mandou matar amigos e camaradas, inseguro e desconfiado como qualquer ditador). Mesmo o testemunho de Chiwale é muito pouco aproveitado, aliás, em particular o livro (Cruzei-me com a História, recenseado aqui) e o de Jorge Valentim muito menos. Assim não temos, no fim, a polifonia que a realidade humana da UNITA e do seu combate impunha, embora nos seja transmitida a tensão que várias vezes atravessou a vida de Chivukuvuku, causada pelas tentações totalitárias internas.
O paradigma da isenção, perseguido por Agualusa (e suponho que por Abel Chivukuvuku) no livro, traz-nos um contributo fundamental. Os testemunhos de que falo também são muito menos partidários do que os anteriores, a que nos habituou o partido único.
Há também nomes que prestaram testemunhos orais, por exemplo Vitorino Hossi. Nesse campo, claro, podiam sempre ser muitos mais os escutados. Mas há um nome que se destacou e ficou silenciado, pelo que me lembro só uma vez é referido, 'en passant' como dizem os franceses. Eu me lembrei dele porque revelou um sentido de estratégia militar invulgar e porque protagonizou parte significativa da retirada da UNITA de Luanda em 1992: Abíli Camalata Numa. Não é esta a única obra ligada a protagonistas do 'outro lado', dos 'outros', da UNITA, que parece evitar o nome de Kamalata Numa, que de resto publicou em 2015 Angola: prólogo ao projecto do Mwangay : democracia e construtivismo. Porquê esta reserva? Será que um dia se resolve o mistério? Como os incidentes de Luanda e a retirada de muitos militares e militantes podem ser episódios narrados sem se referir a ação de Kamalata Numa? E sem se escutar o seu testemunho?
Mas isto são inquietações de quem se preocupa com a 'verdade histórica' e acha que ela podia contribuir mais para a biografia de Abel Chivukuvuku, torná-la mais tensa ou mais reveladora da procura da verdade que também assiste a qualquer biografia. Terá sido, porém, o preço a pagar por um relato incisivo e decidido, em que pouco lugar fica para dúvidas ou digressões investigativas, para que não se perca o ritmo nem se afete a nitidez da narração.
Mas temos, em resumo, uma obra literária indispensável e incontornável na carrreira e na bibliografia de José Eduardo Agualusa, como também uma obra decisiva na recomposição de uma visão abrangente, holística, integradora da História de Angola desde o arranque da luta armada até à morte do controverso e carismático Jonas Malheiro Savimbi.
A Literatura e a História angolanas ficaram, sem dúvida, a ganhar.

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