Em estudo recente (“Preparing for the unknown: How working memory
provides a link between perception and anticipated action”) publicado na revista NeuroImage por
Marlene Rösner e outros, aborda-se como funciona e que funções desempenha a chamada
‘memória de trabalho’, equiparada à memória a curto prazo. Firma-se, entre
outras conclusões, que
O que armazenamos na memória de trabalho não é apenas a representação mental de impressões sensoriais do passado. Também inclui informação sobre qual o objetivo atual que perseguimos ou qual a ação futura ou operação mental que queremos realizar. O conteúdo da memória de trabalho pode portanto ser visto não só como cópias de informação sensorial, mas também como um planeador mental que seleciona a melhor opção para a situação em questão entre todas as opções.
É para este “planeador mental” (ou planejador mental) que se dirigem as etiquetas dos livros, como por exemplo “romance”, “ensaio”, “poesia”, etc. Elas ativam na memória de trabalho uma série de disparos direcionados para a leitura e para uma leitura com regras e expetativas específicas. As etiquetas apontam, por sua vez, para séries de textos englobadas no que chamamos géneros – uns do discurso, outros literários, etc.
O que lemos e sabemos sobre géneros ativa-se nesse momento, preparando-nos para ler (colher). A recolha dos frutos que a leitura possa trazer prepara-se desta forma.
Claro que não se disse tudo. É preciso, por exemplo, elasticidade para confrontar com proveito a expetativa e o texto novo. Uma avaliação ‘crítica’ deriva dessa confrontação. Mas o próprio armazenamento das informações se processa de modo a assegurar a flexibilidade, evitando códigos rígidos e detalhados. O que digo se refere, em termos gerais, ao longo do resumo:
Este estudo, agora publicado em NeuroImage, forneceu as primeiras provas de que a memória de trabalho armazena diferentes tipos de informação em códigos flexíveis, proporcionando assim uma preparação óptima para todos os possíveis cursos de ação.
O que implica, por um lado, que as leituras anteriores serão decisivas para se aproveitar e valorizar um texto novo; por outro lado que a nossa habilidade para articular é fundamental no avanço do conhecimento.
Estas conclusões postulavam-se há muito, na psicologia e na sociologia da leitura por exemplo, mas agora encontram representação funcional no que à neurobiologia diz respeito.
O estudo a que me reporto vem resumido no sítio
https://neurosciencenews.com/working-memory-perception-action-21954/
- e dali se parte, por hiperligação, para a fonte.
PS: é claro que Genette falou disto e muitos no rasto (assumido ou não) do que ele disse. É também claro que os livreiros e editores sabem disto. É claro, ainda, que Genette não falou disto ligando as etiquetas à neurobiologia e que os livreiros e editores têm a perceção - arguta, em princípio - do negociante perspicaz, intuitivo. O que escrevi nesta postagem foi só um apontamento procurando ligar um procedimento neurobiológico universal com o mercado e o sistema literário e académico. O desenvolvimento das relações entre as duas partes envolve um estudo mais desenvolvido e metódico.



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