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Mensagens

Carlos Ferreira - meaidade

    O texto presente foi escrito para uma edição antológica do poeta Carlos Ferreira, por ele próprio organizada. Ela reúne alguns poemas éditos e inéditos, com duas vertentes que aliás correspondem às duas vertentes da lírica do autor: uma combativa, de crítica ou denúncia social e política directa; outra nostálgica, melancólica e emblemática. De que adiante falarei. Colocação do autor Carlos Ferreira marcou o seu lugar na poesia angolana, a partir dos anos 80, como o poeta das Causas perdidas – título que encima o seu livro anterior   (Ferreira, Causas perdidas, 2011) . A primeira obra intitulava-se, conscientemente, Projecto comum (Ferreira, Projecto comum, 1982) – e as seguintes constituem uma evolução fiel ao choque desse projecto com a realidade social e humana de Angola. Daí surgirem, para falar dele, frases como esta : “o radialista, cronista e poeta Carlos Ferreira, Cassé, é daqueles angolanos (são poucos) que dizem de forma clara, aberta e frontal o...

Caminhos Sombrios – Sandra Brown

O título deste romance está muito bem posto. Não tanto no sentido moral, ou aparentemente moral, que pode comportar nesse romance, mas pela falta de luz no conhecimento e relacionamento que temos uns com os outros. O desfile de máscaras e moralidades, que traz a profusão barroca de peripécias à narrativa policial escrita por Sandra Brown, coloca uma questão que me parece pertinente: a té que ponto o policial é indissociável do jogo de máscaras?  Em que medida o velar e desvelar de máscaras no policial cumpre também uma função social, avisando-nos da constante falsificação das relações pessoais nas nossas sociedades e seus arredores ou margens de risco?  Ainda que timidamente, houve disto em Angola nos anos 30, com Augusto Bastos ( Aventuras policiais do repórter Zimbro ) e Assis Júnior ( O segredo da morta ). Essas narrativas exemplares aclaravam para o leitor os caminhos sombrios, abrindo espaços de denúncia e de solução. Em parte, Pepetela retomou o serviço com o anti-h...

Amélia Dalomba - apresentação

Amélia Dalomba tornou-se uma referência da poesia angolana que se começou a editar nos anos 90 do século passado. Pertence a uma geração que se iniciou ao mundo nos primórdios da independência, da revolução do partido único e, portanto, uma geração da distopia do homem novo. De facto, para estas biografias, a realidade não sofreu nenhum desvio que, uma vez corrigido, nos devolveria o esplendor da felicidade social. Não. A revolução era o próprio desvio. O conhecimento dessa realidade começou, precisamente, com o desvirginar das ilusões ideológicas, com a desmontagem da retórica salvífica do Partido-Estado pela realidade quotidiana. A leitura que há para seguir adiante é a dessa desmontagem, esse é o mundo que temos para palmilhar em busca seja do quê . Cada membro desse grupo heterodoxo e multipolar não se ficou por aí. Crescendo com o falhanço da revolução e das melhores expetativas que a alimentaram, cada um foi se virando para uns e outros lados, reabrindo picadas e caminhos, ...

Estruturalismo, estruturação e música política

Na secção «Cultura» do jornal português Público , de hoje (21-1-2018), Luís Miguel Queirós realiza uma oportuna entrevista com Georg Friedrich Haas , "compositor em residência na Casa da Música em 2018".  A entrevista é oportuna por vários motivos. Um deles, ao qual talvez não se dê qualquer importância (por estarmos em registo jornalístico), prende-se com esta passagem:  [Haas vinha determinado] a defender o seu modo de  compor, mais preocupado em  servir o ouvido humano do que  em fornecer pasto para análises  estruturais das partituras.   Percebo o que ele quer dizer e concordo que essa é a postura própria de um compositor: criar para o ouvido. Humano.  O que me suscita este comentário é a expressão " análises estruturais ". Ela parece ter por referência modelos apoéticos e desinteressantes próprios da vulgarização do estruturalismo francês, ou francófono, dos anos 60 e 70. Esse estruturalismo, vulgarizado, não dissecou, secou...

Ecocrítica e poesia angolana atual: Abreu Paxe

Ensaio publicado em academia.edu : A hipótese que ponho em discussão é esta: a perceção do ambiente, enquanto ato cognitivo, reestrutura a organização do discurso artístico – não sempre, nem só, num determinado sentido. Sem prejuízo disso, o próprio discurso artístico pode ser manipulado de forma a experimentar uma nova perceção do ambiente. Ensaio no academia.edu .

Data do regresso de Maia Ferreira a Luanda

O estudo da formação da literatura angolana é indissociável da consideração sobre a circulação cultural nas redes comerciais entre as quais se posicionava aquela pequena comunidade literária. Isso pede uma leitura ‘para dentro’ (conhecer as rotas de caravanas comerciais no interior, as oralidades em rotação no ‘interior’, que fizeram, por exemplo, chegar a lenda da mayombola a um funcionário colonial português em Luanda no meio do século XIX) e uma leitura ‘para fora’ (a circulação de livros de literatura entre os mais importantes portos do Oceano Atlântico – destacando-se, para o nosso caso, os lusófonos, mas não exclusivamente). Neste contexto, figuras como a de José da Silva Maia Ferreira são cada vez mais importantes. Em primeiro lugar pela sua própria poesia, confluência de várias outras, com destaque para a brasileira, a portuguesa e a francesa; em segundo lugar porque ele circulou por essas rotas atlânticas mais batidas pelo comércio da época. Infelizmente, o estudo da...

O que ficou para trás, ou atrasado - nós todos também

1. Universais privados A morte é o que mais cria repulsa em nós. É compreensível. O nosso ego, a nossa personalidade, a nossa identidade pessoal e social, resultam da criação de uma consciência do nosso corpo como entidade própria em relação com outras, idênticas ou não. O cérebro tem, entre outras, a missão de recolher as informações facultadas pelo corpo que integra e, em função delas, tomar decisões. Todas as decisões e essa própria função do cérebro nos remetem para o que, metaforicamente, chamaríamos instinto de sobrevivência. Resumindo: criámos e desenvolvemos um cérebro para melhor assegurarmos a sobrevivência do nosso organismo como um todo, num esforço adaptativo natural mesmo quando e se assistido por algo ou alguém sobrenatural. Para cumprir a função, o cérebro tomou consciência de si e do corpo em que está, aliás uma consciência indissociável. Por isso, quando o organismo se sente ameaçado, o cérebro declara estado de sítio. Ora a morte é o desaparecimento desse o...