O estudo da formação da literatura angolana é indissociável
da consideração sobre a circulação cultural nas redes comerciais entre as quais
se posicionava aquela pequena comunidade literária. Isso pede uma leitura ‘para
dentro’ (conhecer as rotas de caravanas comerciais no interior, as oralidades em
rotação no ‘interior’, que fizeram, por exemplo, chegar a lenda da mayombola a
um funcionário colonial português em Luanda no meio do século XIX) e uma
leitura ‘para fora’ (a circulação de livros de literatura entre os mais
importantes portos do Oceano Atlântico – destacando-se, para o nosso caso, os
lusófonos, mas não exclusivamente).
Neste contexto, figuras como a de José da Silva Maia
Ferreira são cada vez mais importantes. Em primeiro lugar pela sua própria
poesia, confluência de várias outras, com destaque para a brasileira, a
portuguesa e a francesa; em segundo lugar porque ele circulou por essas rotas
atlânticas mais batidas pelo comércio da época.
Infelizmente, o estudo da sua biografia não tem sido fácil nem continuado. Não é fácil, uma vez que precisamos coletar dados escassos a recolher pacientemente em fontes angolanas, brasileiras, portuguesas, dos EUA e de Cuba. Não tem sido continuado porque o percurso histórico do país continua a apelar com tanta veemência para o empenhamento político-partidário que os estudiosos mais destacados no levantamento da biografia do poeta foram absorvidos por esse empenhamento.
As dificuldades, entretanto, são diferentes hoje. Por um
lado, há muitas fontes disponibilizadas em rede, particularmente por arquivos
dos EUA, do Brasil e de Portugal. Por isso mesmo, o caudal de informações
tornou-se tão largo e tão intenso que precisamos cada vez mais de uma equipa
vasta e financiada para trabalhar exclusivamente nisto, tomando o seu caso como
um caso típico e, portanto, realizando investigações generalizáveis.
Enquanto não dispomos dessas condições, vamos recolhendo o
possível e confrontando, capitalizando sobre a oportunidade de confrontarmos
fontes de origem diversa rapidamente. O que nos obriga, constantemente, a rever
a cronologia de Maia Ferreira proposta por Carlos Pacheco – o mais completo
biógrafo do escritor até hoje. Fiz isso, desta vez, com um momento crucial na
vida do poeta: o seu primeiro retorno a Luanda, em 1845.
Lembremo-nos de que iria sair em Luanda, em 1849, o seu (e
nosso) primeiro livro de poemas e de que o pai, segundo Carlos Pacheco, teria
morrido pouco antes, eventualmente caindo a família na desgraça, ou ficando à beira da
pobreza (o pai, no entanto, faleceu no final de 1843 ou, mais provavel, nos primeiros três meses de 1844). Ele reata os laços com a terra-mãe que tanto canta,
instalando-se numa casa do pai, tentando vida ali (de funcionário público bem
colocado).
Segundo o historiador angolano (Pacheco, 1990
pp. 110, 147) ,
em informação que não se altera nos livros seguintes, Maia Ferreira terá
regressado a Luanda a 24.5.1845. Na nota, de fim de capítulo, em que nos dá os detalhes, afirma que “o nosso Poeta viajou do Rio para Luanda na barca brasileira Constança.” E aconselha-nos a consultar
o códice 3012/35.-9/D-2-14, fl. 10, do Núcleo Geral do CNDIH (hoje AHN), em
Luanda. Reporta-se, aí, a “Entrada de Passageiros” vindos do Rio de Janeiro. Na
Cronologia do seu segundo livro sobre Maia Ferreira (p. 93), confirma-nos o historiador
a informação, indicando a data de 24.5.1845 para o “regresso a Luanda”. Ficamos
sem saber se a data foi a da chegada a Luanda (momento em que o regresso se
efetivou), ou o da partida do Rio (momento em que, de certo modo, o regresso se
iniciou).
Procurei confrontar a fonte angolana com uma fonte brasileira, o Jornal do Comércio, onde se publicavam, na secção “Movimento do Porto”, os nomes dos passageiros que saíam dali para vários destinos. Árduo esforço, sem encontrar nenhuma referência a um familiar próximo (pai, irmão) desde 1.1.1845. Mas as indicações de Pacheco foram muito úteis. Em outras secções do jornal se dava conta dos “despachos” (de mercadorias que seguiam nos navios e de passageiros, com registo do destino em ambos os casos). Os despachos começavam dias antes da partida do navio.
Para o caso, o primeiro
dia a registar era o dia 16 de Maio de 1845. Dele data o despacho, para Angola,
da “barca nacional [portanto: brasileira] Constância”, com “51 pipas de
aguardente”, tendo por consignatário “J. F. Rodrigues da Silva”. Sabendo, por
Carlos Pacheco, o nome do navio em que chegara o poeta a Luanda, comecei a
registar os despachos para Angola desta barca. Neste número não aparece o seu nome (nem o da barca) nos
passageiros despachados a 16, nem nos despachados a 16 referidos no n.º seguinte (p. 2). A 19 surge novo
despacho, da mesma “barca nacional Costança” (escreveram mesmo “Costança”) que
ia para Luanda, mas agora com “61 pipas de aguardente” ao mesmo “J. F.
Rodrigues da Silva”, ou por conta dele. A 20, Miguei Boom despacha “16 barricas
de açúcar” na mesma “barca nacional Costança” [sic]. No dia 21 são “despachados”, na mesma
embarcação, “L. Rodrigues Barbosa 24 sacos arroz, A. J. Pereira de Carvalho 100
caixotes sabão”. No próprio dia 24 há despacho: “F. F. Castro
4,000 libras sabão, Agostinho de Souza 10 pipas de aguardente”. Despachados
ainda no dia 24, mas reportados só no n.º seguinte, “J. F. Cunha 20,000 charutos,
5,000 roscas, 100 arrobas assucar refinado, J. da Silva Pereira 168 garrafas de
licores, 52 chapéus pellucia, J. A. P. Cerqueira 20 garrafões aniz, G. A. M.
Pereira 13,000 charutos, A. F. Ribeiro 1 guarda vestido, 1 caixa e mais outros
objectos”. Há mais despachos de exportação (cada vez mais volumes e nomes) no dia 26, da mesma barca, agora
dando-se como destino Angola e não Luanda. Há mais despachos ainda no dia 27, mas agora a “barca
nacional” é chamada “Constancia Brazileira” e indica-se, de novo, destino
“Loanda”. Houve, ainda, despachos de exportação nessa barca, para Angola, no dia 28. Também a 29 houve “Despachos”,
incluindo o do passageiro para “Angra” José da Silva Maia Ferreira, “Portuguez”,
mas este seguindo para “Angra” sem se indicar em que navio. Fiquei intrigado. Afinal, foi para onde? Ia para um porto do qual partiria mais tarde para Luanda? Seria um disfarce? Ou mero engano de registo? Se foi para Angra, não há registo de regresso entre os passageiros que de lá vieram nos dias seguintes (até 13 de Junho). Mas há despachos, para Angola, na Constança, mais uma vez, no
dia 2, também no dia 5, ainda no dia 7, no dia 10 (incluindo “A. Gomes Neto
dinheiro em ouro”) e no dia 11 (com muita carga de um só
negociante). A novidade chegou só no dia seguinte:
A julgar pelo “movimento do porto” registado no Jornal do Comércio, José da Silva Maia Ferreira e mais dois passageiros seguiram com a muita carga (414 tons, carga total) da “barc. nac. Constança” para “Angola”. O Mestre da barca era Teotónio Flávio da Silveira e os passageiros (portugueses todos, incluindo o nosso), eram Aniceto Duarte Ribeiro e António Dias Ramos. Assim foram os três, entre pipas de aguardente e aniz, charutos, ouro e outros muitos produtos, um deles regressando, emocionado e melancólico, à sua terra natal.
O leitor pode, portanto, emendar essa data na cronologia do poeta: a 12 de Junho de 1845 parte do Rio de Janeiro para Luanda, por Benguela, regressando pela primeira vez depois da saída da família em 1834.
Continuarei dando conta das novidades que descobrir.
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