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O que ficou para trás, ou atrasado - nós todos também


1. Universais privados

A morte é o que mais cria repulsa em nós. É compreensível. O nosso ego, a nossa personalidade, a nossa identidade pessoal e social, resultam da criação de uma consciência do nosso corpo como entidade própria em relação com outras, idênticas ou não. O cérebro tem, entre outras, a missão de recolher as informações facultadas pelo corpo que integra e, em função delas, tomar decisões. Todas as decisões e essa própria função do cérebro nos remetem para o que, metaforicamente, chamaríamos instinto de sobrevivência. Resumindo: criámos e desenvolvemos um cérebro para melhor assegurarmos a sobrevivência do nosso organismo como um todo, num esforço adaptativo natural mesmo quando e se assistido por algo ou alguém sobrenatural.

Para cumprir a função, o cérebro tomou consciência de si e do corpo em que está, aliás uma consciência indissociável. Por isso, quando o organismo se sente ameaçado, o cérebro declara estado de sítio. Ora a morte é o desaparecimento desse organismo. Só nos podia meter medo, sendo, portanto, compreensível que a morte nos aterrorize. Desse terror vivem as religiões e os poderes instituídos. Elas e eles organizam de tal forma o nosso medo que a sobrevivência fica 'assegurada' por subserviência face ao signo superior da autoridade (do ícone autoritário) e seus imediatos derivados – criando um sistema de crenças e de preconceitos, manipulando e condicionando a necessária e natural tendência para prevermos e anteciparmos situações e decisões. Assim nasce um Deus que não é Deus e um poder que se pretende inquestionável – em nome desse Deus, que pode por sua vez tomar outro nome qualquer, secularizando, por exemplo o de Ciência, o de Liberalismo ou o de Socialismo Científico. Pela maneira como está organizada a morte (a reação compensatória ao pânico perante a morte), assim fica organizada a vida. E ganhamos uma compensação: mesmo que o nosso corpo desapareça, algo por ele continua - seja a alma, um projeto político, uma ‘meta’, uma família, etc. Vamos assim sublimando a morte para diminuirmos o seu efeito assustador.

Implica isto uma profunda ligação entre a conceção da morte, o poder político e, por consequência, uma época ou fase dos sistemas político-sociais em que se enquadraram as comunidades sedentárias, aquelas em que todo este processo se tornou mais forte, melhor dito, fatal e decisivo. A uma certa conceção da morte – melhor seria dizer: a um certo sistema de morte – correspondem vários sistemas políticos, embora não todos. Assim há, por exemplo, uma relação identitária (pelo menos) entre a monarquia, a teocracia dirigida por um sumo sacerdote e as conceções monoteístas (e não nos esqueçamos de que, no lugar supremo, pode estar a Ciência, elevada à categoria de um Deus, ou qualquer uma Verdade superior a todas as outras). 

O monoteísmo raramente é absoluto (quero dizer: raras vezes existe sem concorrência), como foi a partir de Moisés e como tentou Akhenaton que fosse. A relação entre monoteísmo, politeísmo, animismo e formas semelhantes de sistemas religiosos (assentes sobre estruturações de conceitos de morte) pode ser coetânea. Na maioria dos casos, há lugar para um Deus único, superior, e dele derivam diversas entidades espirituais, intermediários entre nós e Deus (no sistema católico: Nossa Senhora, os Anjos e Arcanjos, os Santos). Elas têm sua correspondência política na burocracia do Estado ou da Corte, nos diversos oficialatos, nos graus superiores das hierarquias institucionais. A convivência desse Deus com seus segundos e terceiros é gerida, na maioria dos casos também, delegando ele nas entidades a função de controlarem a vida, por determinações que podem ser consideradas divinas ou intermediárias ou racionais e encontram paralelos nas descentralizações administrativas e políticas, delegando-se nos ministros, estes nos secretários de Estado, estes nos diretores-gerais, etc..

Então arranja-se um lugar para a morte: o inferno, o céu, principalmente um desses dois. Em geral era o inferno, não no sentido que teve a partir do cristianismo, mas etimologicamente concebido: o espaço que está sob a terra, sob a superfície, sob a pele sobre a qual nos movemos. Há por certo aí, tanto quanto no inferno cristão, uma intuição do núcleo vulcânico, ígneo, abrasador do planeta, que vomita fogo. Isso não me interessa, por agora.

Interessa-me que, nesse inferno etimológico, se constrói a mansão dos mortos, em geral governada por um comandante e seus apaniguados. Esse tipo de ‘sistema de morte’ foi muito comum até à modernidade. 

É habitual, ao olharmos para trás, imaginarmos que fomos progredindo e que, por isso, as etapas mais recentes exprimem a nossa evolução. As mais recuadas são como bárbaras, selvagens, nómadas, brutas, primitivas, incultas ou menos cultas, menos próximas do conhecimento da verdade, ou seja, dos avanços científicos, etc.. Por isso, quando um povo encontra outro que pratica um sistema político e religioso aparentado com algum semelhante inscrito no passado do primeiro povo (por exemplo: descrito em livros antigos ou sobre a antiguidade), chama ao povo que encontrou ‘atrasado’, porque ficou ‘lá atrás’. Assim também, quando algum de nós muda de ideias e conceções de vida, ao reencontrar um amigo ‘daqueles tempos’, ao ver que ele se manteve coerente, lhe retruca: ‘ainda estás aí?’

É das mais eficazes armas retóricas para levarmos os outros a aproximarem-se das nossas posições. É que ninguém quer ficar atrasado, lá atrás, não por vício de correr mas porque a evolução, determinada pela atualização de conhecimentos, garante a sobrevivência.

Por este motivo também – e para retirar qualquer veleidade aos colonizados – os colonizadores europeus, ao chegarem a certos países, imediatamente os cunhavam de atrasados. Era necessário, por consequência, convertê-los ou civilizá-los, trazê-los à modernidade, ao avanço, à consciência cristã ou racional ou positiva, salvá-los do 'atraso', do 'obscurantismo', do 'ópio do povo'. 


Mas tudo o que disse até aqui não é notícia. Aglomerei numa série só algumas afirmações comuns e que tenho por verdadeiras. O que talvez seja notícia para alguns de nós, presos à preocupação de reduzir ao umbigo da mãe toda a verdade da vida, é o reverso desta medalha: é que tudo o que julgamos diferente e próprio, nosso, que nos distingue, tem ou teve semelhantes em qualquer outro espaço-tempo. Como escreveu Mário António: 


Arcos de massa, sem o açúcar
dos micondos, sabendo a ginguba.
Em pequenos montes,
Quiabos, os hobiscos esculentos de Lineu,
Deixam ver que parte importante
Do que me liga à terra onde nasci
— Os gostos da infância —
Pertence também aos turcos.

O caso que vou relatar é um dos exemplos, apenas, para o que venho de referir.


2. Particularidades universais

Óscar Ribas, em Ilundu, resume-nos o ‘sistema de morte’ das suas zonas habituais de pesquisa (principalmente Luanda e hinterland). Um Deus criador, que “não rege diretamente os destinos do Universo”. Isto mesmo encontramos no Cuanhama também, nas mais variadas paisagens étnicas do país (estou a usar, como se nota, a grafia portuguesa e católica, mas pode-se escrever Kwanyama, seguindo a grafia protestante, que se tornou oficialmente africana). Este grande chefe supremo, distante, ausente, só “intervém quando necessário”. Para a maior parte da vida, regem os seus macotas (ou makotas), os anciãos (ou anciães, ou anciões: os antianus, os de antes). Entre eles se destaca o primeiro-ministro quase presidente: Kalungangombe (ou Calumgangombe). Ele suprime a vida (como as Parcas gregas), julga e pune os mortos (como o Deus cristão).


Ora, Kalungangombe mora “nas profundezas do globo – o Além-Túmulo dos aborígenes” (Ribas, 1989 p. 31). “A alma, após a morte, acompanha o corpo, e com ele se fixa no seio da terra. Entretanto, dá fé do que fazemos e, quando lhe apetece, vem à superfície, preferentemente de noite” (Ribas, 1989 p. 33). Em Portugal, por exemplo, ouve-se falar nas almas penadas. É também de noite que preferem vaguear e, mesmo, interagir com os vivos. Havemos de pensar um rasto universal por baixo disto…

A alma “não abandona o lugar em que o corpo foi sepultado”. Acompanha-o tanto que, “tal como na vida terrena, as almas mantêm seus antigos sentimentos e hábitos, ainda gostando de comer, beber, fumar, copular, divertir-se.” (Ribas, 1989 p. 32) É, por isso, muitas vezes necessário dar-lhes um festim…

Agora partamos para outras latitudes e longitudes, nesse mapa por onde espalhámos a nossa tão aparentemente paradoxal humanidade. Vamos com Óscar Ribas ainda: “a alma não reencarna” (Ribas, 1989 p. 32). Passemos por Antas, que eram as casas dos grandes reis e sacerdotes falecidos, enterrados com víveres, pertences e tudo o necessário para a continuação da vida no sistema de morte, para a sua longa viagem no inferno, "nas profundidades do globo". Também debaixo das Antas eles iam "ataviados" para "comer, beber, copular, divertir-se". 

Atravessamos até Civita Vecchia e vemos a cidade dos mortos, muito bem organizada, como suas casas arredondadas, abobadadas, onde se albergava toda a família já morta, com suas ruas bonitas, bem demarcadas, seu desenho geométrico planeado ao milímetro para o convívio dos falecidos, para que a vida continuasse depois da morte. O Egito não fica longe, com sua cidade dos mortos também, com moradias para as famílias árabes dos primeiros tempos da invasão (até quase a meio do séc. VII) acompanharem seus falecidos nos primeiros quarenta dias após a passagem para a visceral outra margem. Mas vamos de visita à “cidade antiga” de um historiador indo-europeu. Fustel deCoulanges publicou um livro incontornável ainda hoje, dedicado aos romanos, gregos e latinos (Coulanges, 1961). Basta-me fazer alguma citações para que se perceba onde quero chegar (Coulanges, 1961 p. 13):
De acordo com as mais antigas crenças dos itálicos e dos gregos a alma não passava sua segunda existência em um mundo diferente do em que vivemos; continuava junto dos homens 
Tal como em muitas partes de Angola, ocupadas por populações de línguas bantos, essas almas ficavam inicialmente na sepultura (Coulanges, 1961 p. 13):
[…] a alma continuava unida ao corpo. Nascendo junto a ele, a alma não se separava, mas fechava-se com ele na sepultura.

Não é que tivesse de ficar ali retida, pelo contrário, “continuava junto dos homens, vivendo sobre a terra” (Coulanges, 1961 p. 13). E nós continuamos a visita a Roma e à Grécia com Óscar Ribas, mais preciso nesse ponto (Ribas, 1989 p. 33):

E, quando anda [a alma], seus pés não pisam o chão: caminham no ar, a uns cinquenta centímetros de altura 
- pelo que sempre, entre indo-europeus, bantos e mestiços culturais se elogiava nas belas damas a "planta mui breve", o "pé leve", que quase não toca no chão. Nos espíritos respetivos continuavam suas vidas as pessoas que morriam. Conta-nos Fustel de Coulanges (Coulanges, 1961 p. 14) que 

era costume, no fim da cerimónia fúnebre, chamar três vezes a alma do morto pelo nome do falecido, desejando-lhe vida feliz sobre a terra. Diziam-lhe três vezes: passe bem. – E acrescentavam: que a terra lhe seja leve – tanta era a certeza de que a criatura continuava a viver sobre a terra, conservando a sensação de bem-estar ou de sofrimento. 
Consequentemente, ao morto-vivo “derramava-se vinho sobre o túmulo, para matar-lhe a sede; levavam-lhe alimentos, para saciar-lhe a fome” (Coulanges, 1961 p. 14). “Em determinados dias do ano, levava-se uma refeição a cada túmulo.” (Coulanges, 1961 p. 17), como em certas ocasiões (e principalmente com pedidos), no Brasil, se leva uma refeição a Iemanjá...
B
aseado em Ovídio e Virgílio, o austero historiador positivo nos resume (Coulanges, 1961 p. 17):
[…] afeitavam-se os túmulos com grandes grinaldas de folhas e flores, ofereciam-se doces, frutas, sal, fazendo sobre a terra libações de leite e vinho, ou mesmo regando-a com o sangue de alguma vítima.
Pude contemplar ainda, sobre algumas pedras no meio da água, em Niterói (Brasil, frente ao Rio de Janeiro), ofertas rituais idênticas – agora mais ricas aliás, mais consumistas, incluindo bolos caros e bem recheados, frutas importadas, champanhes e vinhos de preços elevados - agora para Iemanjá, que já não era apenas espírito, mas Entidade. Ali também (Coulanges, 1961 p. 17),

enganar-se-ia muito quem pensasse que essa refeição fúnebre não era senão uma espécie de comemoração. Os alimentos que a família levava eram realmente para o morto, exclusivamente para ele.

Também me avisaram disso em Niterói, bem como de todos os males consequentes à violação das refeições dos mortos – afinal ainda vivos. “Considerava-se grande impiedade o fato de alguém tocar nessa pequena provisão, destina às necessidades do morto.” (Coulanges, 1961 p. 17) Coulanges atrai, para seu apoio, a Ifigénia de Eurípides (Coulanges, 1961 p. 17):

Derramo sobre a terra do túmulo […] leite, mel e vinho, pois só assim podemos contentar os mortos

E havia, logicamente, fórmulas pelas quais “chamavam os mortos, convidando-os a que tomassem suas refeições” (Coulanges, 1961 p. 18). Como em Angola e no Brasil. Ainda estou, também, a ver as cidades antigas de Coulanges sob a lupa insistente de Óscar Ribas, ele que sabia descobrir Angola no Brasil (Ribas, 1989 p. 37):
Em vista disso, o solo, quando tomado como lugar sagrado [onde se alojam mortos-corpos e almas-vidas, nas “profundezas do globo”] inspira profunda veneração. Deste modo, para que muitos rituais surtam efeito, o celebrante homenageia os ditos seres, vertendo no chão uma porçãozinha de bebida ou uma mistura delas. Mas este testemunho de reverência não se estende apenas aos ocultistas: outras criaturas, em ação de graças de um notável acontecimento, procedem identicamente […]
Não se fazem tão somente “festins aos guias tutelares” (Ribas, 1989 pp. 135-136). Declamavam-se fórmulas de retorno e diálogo, pelas quais institucionalizamos e legitimamos os intercursos com os sistemas de morte. Havia mais (Coulanges, 1961 p. 15):

os antigos possuíam outras que produziam efeitos contrários, capazes de evocar as almas, fazendo-as sair momentaneamente de seus sepulcros.

Também os quimbandas (ou kimbandas) conhecem “o levantamento da alma”, sobretudo para lhe fazerem perguntas (Ribas, 1989 p. 33). É um procedimento universal - este nosso tão particular.

Coulanges, em certo momento, fala na “raça indo-europeia”, à qual seriam comuns estas crenças e costumes. E vai, mesmo, até à Índia: “esse culto [dos mortos, das suas almas, através de ofertas de dádivas], era idêntico tanto na Índia quanto na Grécia e na Itália. O hindu devia oferecer aos manes a refeição chamada sraddha:
Que o chefe da casa faça o sraddha com arroz, leite, raízes, frutos, a fim de atrair sobre si a proteção dos manes.
O hindu acreditava que, no momento em que oferecia esse banquete fúnebre, os manes dos antepassados vinham sentar-se a seu lado e recebiam os alimentos que lhes eram oferecidos. Acreditava também que o banquete proporcionasse grande alegria aos mortos” (Coulanges, 1961 p. 20).

Por nossa vez, as crenças e costumes bantos de Angola são geralmente associados a um substrato próprio, identitário, exclusivo – tanto quanto o respeito pelos mais velhos, por exemplo (que entretanto registamos em todas as antigas sociedades, principalmente nas comunidades pequenas e rurais). Óscar Ribas, homem prudente sem dúvida, soube fazer associações (aliás, aliado a Érlon Dutra (Ribas, 1989 p. 38)) até com a Palestina, onde Cristo curou misturando saliva com terra e pondo nos olhos do paciente. No nosso caso (angolano), como também no romano e grego, isso faria todo o sentido, porque a terra é que abriga a mansão dos mortos…

O que, tudo, me faz recordar, outra vez e etimologicamente recordar, Mário António:

Longa rua, rodeada de barracas,
Com cestos pelo chão.
Como no Xamavo, principalmente
Panos e alimentos.
 Arcos de massa, sem o açúcar
dos micondos, sabendo a ginguba.
Em pequenos montes,
Quiabos, os hobiscos esculentos de Lineu,
Deixam ver que parte importante
Do que me liga à terra onde nasci
— Os gostos da infância —
Pertence também aos turcos.

 






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