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Mensagens

V. Nemésio, M. António e a transplantação criativa

Vitorino Nemésio , em Primeiro corso (1946), escreveu isto: O mais importante nas memórias de homem um pouco peregrino é esse ponto dorido que o coração acusa quando se lembra do transplante. Partir, arrancar de um lugar, é pagar o preço da viagem, que sempre nos sai da pele. Morei em terras estranhas por largos lapsos de tempo e, apesar de as deixar para voltar às nossas, estremecia sempre. Vamo-nos semeando pelo mundo como um punhado de trigo que só numa única leira daria seara que se visse. E estes semeadores salteados, custa-lhes muito a ceifar… […] Mas dizia eu que o arranque do sítio onde vivemos resume o pó da jornada, fá-lo tragado e sufocante como nenhuma outra curva do caminho. […] Alguns anos bastaram para me naturalizar ali. E confesso até que, apesar de ter feito o meu transplante num palmo redondo de ilha, nunca uma aclimação me custou mais do que essa. As raízes então violentadas eram as mais tenazes, as primeiras. Depois, lentamente, a planta humana vai-se acostum...

Crioulizações angolanas - I

Crioulizações internas: processos de transculturação entre os Bantu angolanos ( et alii ) (Internal creolizations: transculturation process in Angola Bantu) [1]   Resumo Este texto dá conta das investigações para levantar condições de surgimento de personalidades e comunidades em crioulização, nos espaços do que é hoje Angola e territórios circundantes. Privilegiei os espaços sob controle de autoridades não-europeias e levantei quatro tipos de crioulização, conforme quatro atividades ou processos a ela conducentes: por sinergia; por trânsito comercial; por convívio de culturas no mesmo espaço; pela formação de um exército.   Abstract This paper investigates the conditions of emergence of personalities and communities in a process of creolization, within spaces of what are now Angola and surrounding territories. I gave more attention to areas under the control of non-European authorities and I investigated four types of creolization according to four activities...

pombeiro - viagem de uma palavra

No seu relato Como eu atravessei a África  Serpa Pinto escreve: É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se  Quissongo , e no Bihé e Bailundo  Pombeiro .   Qualquer das duas palavras é muito viajada. Falo agora da última, com um percurso transcontinental.  Quando os portugueses chegaram ao Reino do Congo (ou Kongo para a grafia de origem protestante) ouviram referências a um grande mercado situado bem dentro de África e pertencente àquela grande unidade política. Esse mercado chamava-se Pumbo  e até ele iam negociar até comerciantes árabes.  Um antigo administrador colonial dá-nos , em resumo, a localização:   Pumbo, região actual do Congo Belga e cujos limites eram, mais ou menos, os seguintes: a oeste o Zaire, a norte o Cassai, a leste o Cuango e ...

Os bihenos

A formação dos mais diversos povos nas zonas hoje integradas em Angola deu-se cumulativamente por processos de mistura biológica e crioulizações - misturas de costumes de pelo menos dois povos diferentes. Um dos exemplos vem no livro de Serpa Pinto, Como eu atravessei a África . Trata-se de um autor profunda e convictamente racista, acreditando na superioridade dos "brancos" sobre os "pretos". Entretanto se trata igualmente de uma pessoa curiosa, que tenta compreender e conhecer os povos e a sua formação, transcrevendo o que ouve com respeito pelas pessoas que, depois, no trato, considera selvagens. Graças a este paradoxo, o livro tem várias passagens relatando processos de formação de novas nações por crioulização e mestiçagem. Não sei porquê, tanto quanto pude ler não se repara muito nisso.  A formação do povo bieno (do Bié, ou Bihe, ou Vihe) é um destes casos. Ela é típica do que, durante séculos, se passou no nosso território: povos de caçadores cruzam-se c...

Domingos Borges de Barros e José da Silva Maia Ferreira

Domingos Borges de Barros é hoje nome relativamente mal conhecido pelos estudiosos, inteiramente desconhecido para o público lusófono em geral. José da Silva Maia Ferreira é relativamente conhecido pelos estudiosos da literatura angolana e por inteiro desconhecido para o público lusófono em geral. De gerações diferentes eles viveram, no entanto, coincidências biográficas, sobretudo no que diz respeito à ideia de Pátria e ao pioneirismo literário. Domingos Borges de Barros nasce 38 anos antes de Maia Ferreira, é um neoclássico, amigo de Filinto Elíseo, mas a sua poesia já traz traços românticos e o seu amor ao Brasil começa por uma espécie de protonacionalismo, que depois se desenvolverá para o serviço absoluto e indiscutível ao novo país. Maia Ferreira é o primeiro romântico angolano, escrevendo como outros primeiros românticos ainda sob alguma sombra do neoclassicismo (inversões sintácticas sobretudo); ele tem família defendendo a independência de Angola sob proteção do Império...