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Os bihenos


A formação dos mais diversos povos nas zonas hoje integradas em Angola deu-se cumulativamente por processos de mistura biológica e crioulizações - misturas de costumes de pelo menos dois povos diferentes.

Um dos exemplos vem no livro de Serpa Pinto, Como eu atravessei a África. Trata-se de um autor profunda e convictamente racista, acreditando na superioridade dos "brancos" sobre os "pretos". Entretanto se trata igualmente de uma pessoa curiosa, que tenta compreender e conhecer os povos e a sua formação, transcrevendo o que ouve com respeito pelas pessoas que, depois, no trato, considera selvagens. Graças a este paradoxo, o livro tem várias passagens relatando processos de formação de novas nações por crioulização e mestiçagem. Não sei porquê, tanto quanto pude ler não se repara muito nisso. 

A formação do povo bieno (do Bié, ou Bihe, ou Vihe) é um destes casos. Ela é típica do que, durante séculos, se passou no nosso território: povos de caçadores cruzam-se com populações anteriores, juntando a influência da força ao conúbio. São, portanto, 'conquistas' não destrutivas. São cumulativas. Assim também os costumes, ritos, símbolos e crenças dos dois povos originais se misturam, geralmente, por acréscimo. 

Sem mais delongas (as minhas ideias o leitor já as conhece) transcrevo a história da formação do povo bieno tal como Serpa Pinto a narrou a partir do que ouviu no local:


“Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela. O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
 Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza. A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora. Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno. Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral.”

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