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Crioulizações angolanas - I

Crioulizações internas: processos de transculturação entre os Bantu angolanos (et alii)

(Internal creolizations: transculturation process in Angola Bantu)

[1]

 

Resumo

Este texto dá conta das investigações para levantar condições de surgimento de personalidades e comunidades em crioulização, nos espaços do que é hoje Angola e territórios circundantes. Privilegiei os espaços sob controle de autoridades não-europeias e levantei quatro tipos de crioulização, conforme quatro atividades ou processos a ela conducentes: por sinergia; por trânsito comercial; por convívio de culturas no mesmo espaço; pela formação de um exército.

 

Abstract

This paper investigates the conditions of emergence of personalities and communities in a process of creolization, within spaces of what are now Angola and surrounding territories. I gave more attention to areas under the control of non-European authorities and I investigated four types of creolization according to four activities or processes: synergy; commercial traffic; interaction of cultures in the same space; the creation of an army.


(em construção, incompleto ainda) 


Introdução

Serpa Pinto foi, sem dúvida, um explorador prático, intuitivo e preconceituoso. Seus preconceitos relativamente aos "pretos", indígenas, boers e outras designações, são conhecidos e explícitos, particularmente em Como eu atravessei a África (Pinto, 1881). Todavia, não é essa a parte da obra que interessa aqui, mas sim o que, apesar dos preconceitos, ele faz e diz, e veremos as aceções particulares de “faz” e “diz” em seguida.

Como afirma Achille Mbembe, "este relativo fechamento do espírito não significa de todo a extinção da curiosidade enquanto tal." (Mbembe, 2013 p. 34)  Informalmente, Serpa Pinto mantém, no cotidiano, com os "pretos", ou com muitos indígenas, uma relação mais humana do que faria supor o seu manifesto racismo. Ele denota um grande interesse, que parece também mais intuitivo que científico, pela psicologia social, pelos hábitos e costumes, pelas crenças e origens. Manifesta ainda – o que é surpreendente a princípio – sensibilidade estética, parecendo ao mesmo tempo querer escrever um relatório científico e um romance de aventuras africanas ou exóticas.

Apagando momentaneamente as afirmações de racismo e preconceito, aproveitemos o que houver a aproveitar, uma vez que temos entre mãos um relato com novidades específicas. Em particular observo que, talvez por intuição e capacidade de observação, Serpa Pinto nos lega informações importantes sobre as crioulizações – que se deram, sobretudo, em unidades políticas para-coloniais em que ele se ia adentrando e perdendo. Ou, pelo menos, informa sobre condições para que elas acontecessem.

Algumas dessas fusões, dentro e fora de Como eu atravessei a África, anteciparam as nacionalidades atuais, pelo seu carácter transétnico e essencialmente urbano ou viático. Penso, por exemplo, na dos crioulos de Luanda do século XIX e na dos quimbares (kimbares) desde que chegaram os portugueses ao reino do Kongo, onde a função e o termo parecem ter se definido primeiro. Outras crioulizações tornaram étnica e rural a nova personalidade mista, estabilizaram pontos de convergência e de identificação, refuncionalizaram estruturas de parentesco ao nível político e dos valores. Umas terceiras duraram pouco e não deixaram expressão significativa. Aquelas com que deparei no relato de Serpa Pinto pertencem, principalmente, ao segundo tipo.

Ao longo do texto, uso o termo "unidade política" para me referir, muitas vezes, a nações pré e para-coloniais. No entanto, considero-as nações, não no sentido etimológico estrito, porque é difícil encontrar alguma nação que só contenha os que dentro dela nasceram – que exclua, por exemplo, os que nasceram fora dela, filhos de nacionais emigrados. São nações num sentido genérico, muito bem resumido por Almeida Garrett no auge do nacionalismo europeu: "Uma reunião de homens, qualquer que seja o seu número, qualquer que seja a extensão do seu território, que tem leis, que tem forma de governo; eis aqui o que é uma nação." (Garrett, 1821 p. 18). Em algum momento, portanto, aparecerá a palavra "nação" em vez da expressão neutra "unidade política.”

 

Contextualização de um debate

Em tempos, quando comecei a definir a literatura angolana como crioula, geraram-se alguns curtos-circuitos. Houve realmente, entre os anos 1950-1975, um esforço duplo e contraditório: por um lado o poder colonial tentou manipular a seu favor as teses de Gilberto Freyre, que inicialmente combatera; por outro lado os nacionalistas africanos reagiram a essa manipulação para firmarem nas diferenças face ao colonizador a razão da independência. Nessa altura, por mais sentido que fizesse falar em crioulizações, quem falasse era imediatamente conotado com a defesa do colonialismo e banido, ou ‘cancelado’, como aconteceu com Mário António Fernandes de Oliveira – até há poucos anos a simples menção do seu nome só era permitida a quem falasse mal dele. Mas se, em relação ao luso-tropicalismo e a Gilberto Freyre, na medida em que este se deixou usar pelo sistema colonialista, podia-se discutir a justeza da acusação, relativamente às teorias da crioulidade não. Lembremo-nos de como, na Martinica, Aimé Césaire, uma das grandes referências da negritude, acabou aceitando a colonização francesa, enquanto Édouard Glissant, uma das principais referências da teoria da crioulidade, continuou pugnando pelo distanciamento face ao poder colonial.

Entretanto, a passagem à independência, a rápida superação de qualquer veleidade colonial, a afirmação unânime de Angola como nação entre nações, a própria integração política refletindo as e nas regiões de origem de cada ministro, retiraram à conotação entre crioulidade e colonialismo todo o sentido para quem fala sobre ela hoje. Por outro lado (o do conhecimento) a conceituação do que sejam processos de crioulização, simultaneamente ajustou-se e alargou-se, abandonando a restrição tácita de aplicar o termo crioulos a colonizados que misturam cultura do colonizador com cultura ancestral. Por um terceiro viés ainda, a própria História da humanidade é uma história de invasões e de colonizações as quais, em algum momento, viram nascer, no seu miolo ou domínio, processos de crioulização.

É claro que eu não pretendia fazer conotações ideológicas, muito menos retrógradas, ao reparar nos processos cada vez mais intensos de transculturação nas nossas comunidades urbanas e na formação da literatura angolana. Nem, muito menos, seria conveniente reduzir estas minhas considerações a um pequeno grupo humano que, a partir de Luanda, foi espalhando naturalmente – ou seja, sem programa ou intenção prévios – uma crioulidade angolana e urbana surgida nas praias do antigo reino do Ngola e numa ilha-casa-da-moeda do antigo reino do Congo (Kongo). O termo crioulo, aliás, em Luanda, nem sempre indicou tal grupo social, historicamente confinado. Joaquim António de Carvalho e Menezes, na Demonstração geográfica e política, diz que, em Luanda, "na atualidade", há "6 mil [habitantes], e destes, mil brancos europeus e nativos, dois mil pardos, e crioulos, o resto escravos." (Menezes, 1848 p. 27)  "Pardos, e crioulos" – os pardos e os crioulos são dois tipos distintos, distinção marcada pela vírgula. Uma vez que “pardos” designava mestiços e não se mencionam negros livres, que existiam, nem escravos mestiços, que também existiam, os crioulos seriam os negros livres, não-escravos, que, junto com os pardos, ascendiam a dois mil. É sintomático vermos que, em várias regiões do Brasil, o termo crioulo se aplica a um homem de tez escura (‘negro’) nascido já no país. Essa coincidência faz-nos pensar que a definição de crioulo não se reduzia à de uma elite formada, sobretudo, por filhos de colonos com mães angolanas.

Também aqueles que Mário António chamou crioulos nitidamente se constituíram como grupo social e não formaram uma "comunidade societária" (Parsons, 1974 pp. 13-29), mas destacaram-se a partir de um processo de crioulização. Tal processo foi poeticamente encenado por Mário António no poema «Avó negra» e nos subsequentes, o que estudei em A Autobiografia lírica de M. António (Soares, 1996). Esse processo, aliás, prossegue e se diferencia do excesso de assimilação de hábitos exógenos (e não só europeus) que hoje encontramos em Angola, como nos mais variados países, processo por vezes intitulado ‘ocidentalização’. Mas interessou-me no que, historicamente, Mário António chamou de crioulos em Luanda, como também no sentido que muitos brasileiros dão à palavra, interessou-me a definição estrutural e psicológica do crioulo: uma pessoa cuja personalidade se estrutura entre duas ou mais culturas – incluindo no termo a definição de maneiras de viver, sobreviver, organizar o cotidiano, planear o futuro, estratégias empresariais e de argumentação, bibliografia e tradições orais, estruturação urbana –, formando uma síntese nova que não conseguimos reduzir a qualquer das culturas anteriores, ou de esquemas organizativos e conceptuais anteriores. Os quimbares (kimbares), por exemplo, são crioulos.

Sei que esta conceitualização, sobretudo por se centrar em aspetos psicossociais da formação da personalidade, não é fácil de aplicar a processos coletivos como os de que vou tratar. Ela choca, ainda, com as propostas teóricas tão conceituadas de Parsons, Wallerstein, Eisenstadt, Norbert Elias, E. Gellner, e outros. Suspeito que os processos de formação de unidades políticas aqui estudados escapam à representação conceptual desses teóricos. O que faço é estudar processos em que vejo criadas as condições para o aparecimento de tal tipo – crioulo – de personalidade. A esses processos dei o nome de crioulizações. Assim, supero uma falha que não consegui colmatar com leituras, que é a falta de reflexões teóricas que expliquem também a formação das nações pré e para-coloniais, pelo menos em África, mas possíveis em qualquer outro continente.

Esforços comparatistas mostraram que se trata de processos universais e recorrentes. Algumas teorias precisam de passar pelo teste da universalização, justamente através de um esforço comparativo, para se reformularem na medida em que se confrontem com realidades imprevistas por elas. Contribuo com este material para essa discussão. Comparei e testei esta conceitualização em processos idênticos ocorridos nas mais diversas partes do mundo. Isso permitiu aperfeiçoar o conceito e experimentar situações menos habituais, entre as quais a presente. A confiança no resultado aqui exposto baseia-se nesse esforço comparativo anterior.

Observo hoje a História da humanidade, mais ainda a História da Literatura, como uma elipse informal e imprevisível onde os processos de crioulização, transculturação, hibridação, mistura, síntese, são os mais comuns. Ao contrário de outros colegas, não penso que tudo seja crioulidade; isso esvazia o conceito, banalizando-o. Os processos de crioulização partilham, muitas vezes, o mesmo espaço com processos de redução cultural a uma identidade propositadamente imaginada fixa e estanque, prévia, legítima. Tanto quanto a globalização política não se dá sem os nacionalismos, as xenofobias, os nativismos – as resiliências – e tanto quanto a liberalização política nunca se deu sem fundamentalismos em reação. Mas não conheço nenhuma literatura que tenha surgido isoladamente e a maioria dos impérios, por exemplo, desencadeou novos fenômenos transculturais e transétnicos desde sempre (quando não realizou pogroms étnicos e culturais, precisamente para combater as misturas que proporcionava sem querer).

A par dos fundamentalismos, das retrações, quando comecei a aprofundar as leituras sobre os povos que os portugueses foram encontrando no que é hoje Angola e zonas envolventes, deparei-me com registros e relatos, feitos por eles, que me levavam a perceber o mesmo processo de crioulização na história pré e para-colonial. Ou seja: fora do espaço controlado pelas autoridades coloniais. O que me levou a confirmar a intuição de que os processos de hibridação cultural não são característicos apenas das situações coloniais em que os europeus ocupam territórios extraeuropeus. Os espaços pré- e para-coloniais (onde outras invasões promoveram colonizações paralelas e por terra) terão de ser também considerados ao falarmos em processos de crioulização e de resiliência, de novas sínteses e de tentativas de retorno à ‘pureza’ anterior.

Precisamos agora procede a um parágrafo de intervalo, pois uso um termo inusitado: para-colonial. Costuma-se falar em "colonial" e "pré-colonial", apenas. O par parece-me incompleto porque houve, no caso, territórios colonizados por portugueses (que tiveram, portanto, um período pré-colonial seguido por outro colonial) e territórios independentes dessa chefia europeia, todos convivendo e confrontando-se no que é hoje Angola, mas nem todos se formando antes da chegada dos "brancos" e vários deles mantendo-se autônomos depois dessa chegada se fazer sentir a todos os níveis. Daí que fale em pré-colonial (para designar estruturas políticas e culturais anteriores à colonização europeia), colonial e para-colonial (para designar esses poderes e processos paralelos ao espaço governado por europeus).

As identidades, assassinas enquanto se imaginam fixas, vigiadas, repressoras, levaram muitos intelectuais e académicos a conceber os povos de Angola como unidades monolíticas vivendo em quadro multicultural, sem hibridações. Não foi exclusivo nosso e já tinha começado com o próprio poder colonial. Achille Mbembe, no rescaldo de uma longa história bibliográfica, situa no decurso do século XVIII europeu o início da conceção dos povos e culturas "como individualidades fechadas sobre si próprias”. Porém, palavras como ‘bárbaro’ e ‘homens’ para designar os ‘outros’ e ‘nós’ denunciam mais larga antiguidade. “Cada comunidade – mesmo cada povo – é tomado como um corpo coletivo único." (Mbembe, 2013 pp. 33-34). Segundo o estudioso africano, a diferença é que nessa altura se começa a processar a disciplinada redução do outro com a pretensão de robustez e universalidade que tinha o cientificismo da época.

Assim, os povos de Angola eram, por exemplo, os hereros, os quiocos, os quimbundos, os umbundos, ganguelas, etc. Uma simples designação como "os do Leste" passava a possuir a carga ontológica de uma identidade coletiva hermeticamente fechada e culturalmente exclusiva. Muitos nacionalistas e nativistas caíram nisso também. Cada um deles tinha, necessariamente, uma definição própria que não se deixava contaminar pelas características dos outros para não perturbar o quadro e o enquadramento. Era um quadro multicultural porque havia muitas culturas, mas imaginado sem misturas, em compartimentos estanques, como se muros compactos dividissem os povos e as culturas mesmo no seu quotidiano e dentro das mesmas aglomerações populacionais. Em consequência, ainda hoje dizemos, mesmo na brincadeira: "cuidado com esse gajo, os (fulanos) são perigosos, quando dás conta já te enganaram.” Fulanos pode equivaler a uma ‘tribo’, ‘etnia’, genealogia, classe social. No espaço dos “fulanos” cabem todas as denominações citadas atrás e mais algumas – por exemplo de nacionalidades europeias. Estas também, sem margem para dúvidas, porque, por sua vez, as nacionalidades europeias eram concebidas igualmente por muitos como blocos cristalizados. Assim, os portugueses eram um só corpo, uma só nação, um só perfil espiritual e cultural e cada povo que pretendesse, na Europa, a sua independência, devia constituir uma unidade cultural diferenciada e cristalizada, bem definida na sua exclusividade, para que os seus direitos fossem reconhecidos.

No nosso contexto, o que se chamava "portugueses" era geralmente uma amálgama de povos europeus (sobretudo do Sul), de americanos (sobretudo brasileiros), vários tipos de filhos da terra angolana (incluindo assimilados e crioulos, guerra preta e padres, pombeiros e quimbares), em geral cristãos e de cultura mais ou menos globalizada. É de notar que, por exemplo, em As estranhas aventuras de Andrew Battell, o protagonista referia-se muito frequentemente a "portugueses e mulatos." (Battell, 1901) Isso quer dizer que, onde havia portugueses, havia mulatos acompanhando-os e Battell ganhou consciência de que só "portugueses" não chegava para nomear aqueles grupos humanos aparentemente apenas coloniais. Essa grande mistura comportava-se como um povo local, agindo no meio para constituir e defender interesses próprios nas redes comerciais da região, tentando manipular em seu favor a autoridade do "Reino" (Portugal), os casamentos e, portanto, as redes familiares locais, as autoridades tradicionais e, se possível, o clero. Conte-se, por exemplo, o número de vezes em que o argumento decisivo para se levar o exército colonial (uma grande mistura também) a combater foi o do impedimento do comércio, ou o das dificuldades criadas à circulação das caravanas em determinada região…

O poder colonial, esse é que nunca pensou nos portugueses como um povo angolano (os povos angolanos eram os indígenas, os selvagens, etc.) e nunca pensaram, na verdade, que a tal amálgama fosse mesmo portuguesa, pelo contrário depreciavam os brancos nascidos na colónia como ‘brando de segunda’, ou ‘branco-sujo’. Dentro dessa indefinida mistura, além disso, constantes divisões e reclassificações eram renegociadas no quotidiano. É um dado interessante, que se combina com teorias sobre a narrativa nas ciências cognitivas (Turner, 1996) , o da funcionalização de narrativas orais no nosso contexto, como sucede nas que transcreveu Cadornega (Soares, 2008). Quer as narrativas, quer e sobretudo outras conversas, serviam para se dissociarem pequenos grupos uns dos outros e se discriminarem uns aos outros dentro dos tais "portugueses.” É comum isso acontecer, e Arlindo Barbeitos retratou bem todo o processo no que a nós diz respeito (Barbeitos, 2011).

Olhando agora para as unidades políticas então independentes do contexto colonial, é de desconfiar que, pelo menos algumas, formaram-se por cruzamentos, hibridações, e continuaram misturando-se ou fundindo-se culturalmente. Havia, pelo menos, condições para se formarem personalidades, incluindo os dirigentes, por crioulização. Os próprios processos políticos, desencadeados por chefias de rutura, rompendo com a constituição linhageira do seu exército e dos seus povos ao mesmo tempo em que reuniam povos dispersos, avisam-nos de que, também aqui, tal como na Revolução Francesa, houve cortes epistemológicos com aspetos importantes das tradições, cortes que eram o pressuposto da ação política.

O relato de Serpa Pinto, Como eu atravessei a África, vai servir-nos de roteiro para perseguirmos a suspeita nos detalhes[2].

 

Primeiro estudo: Estória do caçador e da princesa

Transcrevo a primeira crioulização relatada por Serpa Pinto:

Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bié eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.

O rio Cuanza, depois da sua confluência com o Cuqueima, divide o país do Andulo do país de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuía uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.

Este sova Bomba vivia na margem esquerda do rio Loando, afluente do Cuanza.

A formosa e negra princesa Cahanda pediu ao pai para ir visitar umas parentes que eram senhoras da povoação de Ungundo, única de alguma importância no Bié de outrora.

Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentes, aconteceu chegar ao país um ousado caçador de elefantes chamado Bié, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatórias até àquelas remotas terras. Um dia o selvagem discípulo de Santo Humberto teve fome e, estando perto da povoação de Ungundo, dirigiu-se ali a pedir de comer. Foi então que viu a formosa Cahanda e, é preciso dizê-lo, que vê-la e amá-la foi obra de um momento. Estas questões de amor em África são muito semelhantes às questões de amor na Europa e, pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bié plantava a estacada da grande povoação que ainda hoje é a capital do país, país a que deu o seu nome, fazendo-se aclamar sova. As dispersas tribos Ganguelas foram por ele submetidas e o pai da primeira soberana do Bié, reconciliando-se com a filha, permitiu uma grande imigração do seu povo para ali. Ao casamento do sova sucederam-se muitos outros entre as mulheres do norte e os caçadores do seu séquito, e esta é a origem do povo Bieno.

Assim os Bienos são Mohumbes, nome que na África Austral de Oeste dão aos descendentes da raça do Humbe, os quais não se encontram só no Bié, mas estão também espalhados em outros pontos, sobretudo frente da costa entre Moçâmedes e Benguela, misturados com os Mundombes, que são a verdadeira raça d'aquele país. Hoje a verdadeira raça Mohumbe no Bié é representada pela nobreza e gente rica do país, os descendentes dos caçadores do primeiro sova e, ainda assim, fora da família reinante, está ela misturada com sangue de raças muito diferentes; porque, sendo o Bié desde o seu começo um grande empório de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo povo provém de uma mistura inexplicável, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido às suas descendências sangue dos países mais remotos da África Austral.

As misturas biológicas não misturam só genes, mas também culturas. Essa é a parte que nos interessa. Para além do encontro inicial, igual ao dos românticos europeus no seu culto do amor fatal, invencível, insuperável, há que supor as estórias, os costumes, as memórias trazidas a lares onde caçadores “Mohumbes” deixavam semente em mulheres locais ou de outras paragens (isso devia ser o mais comum, no contexto, o homem ser o caçador invasor e a mulher a filha do país ou que por ali ficava, graças à escravatura ou qualquer circunstância menos dramática).

Inserido na fase posterior à da formação dos reinos ovimbundo, em que se dá a expansão para terras mais a Sul e Leste ao longo do curso ascendente do Kwanza, encontramos aqui o típico nascimento de uma nação no território angolano de hoje. Trata-se do cruzamento de povos coletores com grupos de caçadores, em geral oriundos do Norte (o que não sucede neste caso). Os povos do Sul, nas outras estórias fundadoras, apresentam-se desmembrados, autárquicos, ao passo que o recém-chegado os unifica, transformando-os numa potência local que, pelo menos parcialmente, absorve a população em redor. O casamento entre a antiga chefia e a nova dá sinal do acordo que sanciona a disciplina nacional em vez da autonomia autárquica. Geralmente, como aqui, a cultura anterior assegura a relação com o sagrado, com os antepassados e, por aí, com a terra. A chefia dos caçadores ou dos ferreiros assegura o poder político e, sobretudo, militar. Os ritos que unem as antigas cerimónias e o novo poder consagram a nação nascente e se misturam, nem todos através de uma hierarquização rígida.

Há semelhanças estruturais interessantes com a formação do Reino do Kongo. Passemos a ela.


A formação do Reino do Kongo

Para falar desta formação, socorro-me de um texto de Lukonde Luansi, porque me parece resumir bem o que sabemos até hoje (Luansi, 2008).

Segundo as tradições orais recolhidas, esse reino, descoberto para os potentados europeus e mediterrânicos por Diogo Cão, em 1482, teria sido fundado entre os séculos XIV e XV por um migrante, Nimi-a-Lukeni. De acordo com Vansina (Vansina, 2010), o fundador do reino do Kongo seria de origem aristocrática, de uma família real de Bungo ou de Isangila, que ele abandonou em companhia dos seus adeptos por razões diversas, para se instalar do outro lado do rio, na região então habitada pelos Ambundu. Os primeiros contatos entre os migrantes e a população autóctone foram sem atritos, dado que entre ambas as partes se criaram laços de amizade e, finalmente, acabaram por contrair laços matrimoniais. Randles afirma que Lukeni acabaria por se casar com a filha do Mani-Kabunga e ordenou aos seus homens para seguirem o exemplo, casando "os nobres com os nobres e os plebeus com os plebeus.” Outra versão (a de Tornton), posta em rede, nos diz que Nimi se chamava Nima-a-Nzima e sua noiva Luqueni Luansanze, filha do chefe do povo Mbata, Nsa-cu-Clau. São divergências a contrastar, mas o que nos interessa de momento é que, a partir de então, chamaram-se todos Muxicongos, ou seja, Bakongo.

Como sublinham os cientistas que se dedicaram a essa matéria, a grande obra inovadora de Nimi-a-Lukeni foi a unificação de inúmeros pequenos reinos num grande Estado centralizado e governado por um monarca residente na capital, Mbanza-Kongo. Essa obra de unificação não foi possível só pelo facto do Ntotila ter sido associado com poderes mágico-religiosos (imperiosa consagração para o nascimento ou transformação de uma sociedade (Gellner, 1997 p. 50)). No caso, tais poderes eram anteriores. O que, porém, mais terá contribuído julgo que seja o tato, a sabedoria do novo poder político, que soube associar as populações autóctones, em matéria de assuntos públicos, funcionalizando a pessoa de Mani-Kabunga (o chefe de Mbata).

O Mani-Kabunga, ou Mani-Vunda, como representante dos anteriores habitantes da terra, defensor e guardião da tradição, dirigia o "Conselho de Estado", cujo papel no funcionamento institucional do reino foi muito importante. Antes da chegada dos portugueses, só com a entronização celebrada por Mani-Vunda o Rei se tornava legítimo. Como leu Lukonde Luansi, “numa curta descrição sobre a evolução das fronteiras de Angola publicada pelo Arquivo Histórico Nacional, a expressão máxima do poder político no Kongo esteve patente na eficácia administrativa que o caracterizou durante os períodos áureos da sua vigência.” (Luansi, 2008, 3 - paginação do texto em linha). Luansi remete em nota, e na bibliografia, para “Arquivo Histórico Nacional, 1997: Exposição – A evolução das fronteiras de Angola, Luanda: Ministério da Cultura.” Não pude consultar a obra.

Repare-se, entretanto, nisto: o "Mani", título do rei do Kongo, tira-se do povo local, os "Ambundo”, ou se lhe atribui, pelo título Mani-Kabunga, Mani-Vunda (o nome – Ambundo – será usado, inicialmente, pelos portugueses para referir os povos de fala kimbundu). Corresponde-lhe o dever de sancionar o novo rei e, segundo alguns relatos, o Mani-Kabunga mantém-se como uma espécie de sacerdote supremo, conferindo ele os poderes mágicos ao novo monarca.

Repare-se, agora, nas coincidências: o novo povo, que tem nome próprio, gera-se pelo casamento e associação entre os que chegam e os que estão. O poder político é reestruturado realizando-se, por um lado, uma unificação, por outro a adjunção da legitimidade local à nova ordem.

A todos os níveis, a mistura de costumes e saberes se foi dando até se criar e robustecer uma nova identidade – Bakongo – resultante da crioulização – como também, neste caso, da mistura genética.


Estórias da Lunda e escravas de casa

Henrique de Carvalho também se baseou nas tradições orais, agora da Lunda, para contar a história da formação dos reinos Luba e Lunda. Elas apontam para que os caçadores que formaram o reino Luba tenham vindo de Nordeste, da zona dos Grandes Lagos, e atravessado o Zaire para o Sul. Ali encontraram povos dispersos, essencialmente pescadores. A julgar pelo relato, "exploraram o terreno em redor e encontraram aqui e acolá pequenos povoados.” Esta unidade recebeu ainda contingentes de outros caçadores vindos também do Nordeste e do Norte, continuando, portanto, a receber incrustações e continuando a formar-se novas unidades políticas na zona, supostamente por processos idênticos (Carvalho, 1890 pp. 58-59). Repare-se que o relato se compõe de tradições locais, transmitidas oralmente e reorganizadas pelo explorador.

Nziem, na História geral da África, resume bem no que deram os processos de constituição destas novas nações, ou impérios, ou Estados, enfim, destas novas unidades políticas: "duas redes políticoculturais, no seio das quais surgiu uma multiplicidade de referências étnicas distintas, [mais] do que fatos étnicos precisos" (Nziem, 2010).

A consecução do novo poder Lunda, após a ascensão de Lweji, confirma-se com este gênero de reforço. Depois de estar segura da posse do reino, ela se junta (casa) com o príncipe-caçador de uma chefia luba (considerado, porém, estrangeiro e a quem estaria vedado esse casamento). Como sabemos o príncipe luba era chamado Ilunga (um pequeno aparte: a raiz *lung está relacionada com esperteza, sabedoria, inteligência. Em umbundo, por exemplo, se diz "amen walunguka", "eu sou esperto". A mesma raiz está presente na palavra Kalunga). Pela gravidez de Lweji, passam para Ilunga o símbolo do poder através da cerimónia típica e ele fica investido, entre outras, com a função de "reunir todos os pequenos Estados em um só sob o domínio do seu futuro filho.”

A história tradicional figura uma aliança entre caçadores-ferreiros vizinhos e uma chefia (a de Lweji), também ela resultante da desagregação do reino Luba, mas emigrada para ali há mais tempo. A cisão de Kinguri, mais tarde de Kiniama (Tchinhama) e outras, em reação ao casamento de Lweji e empossamento de Ilunga, vão dispersando os que serão chamados Cokwe (que significa "vão também" [com Kinguri]). Estes Cokwe (o “C” lê-se “Tch”) vão para a zona de Kassanje (Cassange, onde se veio a fazer a famosa Feira), descendo depois até às fontes do Quanza. Na peregrinação foram formando novas unidades políticas através de alianças e misturas com os povos instalados antes ali, como o próprio Kinguri terá feito com a família de Ngonga, depois de chegar ao Libolo. O mesmo sucedeu com grupos fiéis a Lweji, que o seu marido Ilunga mandava ocuparem e viverem em outros territórios porque, expandindo-se, criavam zonas-tampão e agregavam gente, podendo assim evitar uma vingança e o regresso vitorioso de Kinguri.

A integração dos povos dominados, ou, por eufemismo, reunidos, exemplifica bem alguns dos processos através dos quais as transculturações ocorriam. O caso extremo é o da integração de escravos e escravas, mas é o caso extremo.

Tal como veio a suceder no patriarcalismo brasileiro, havia, entre os escravos, os da casa. Isso ocorria, por exemplo, no reino do Ndongo, embora não saibamos desde quando (Coelho, 2010). Trata-se de escravos de kijiku, ou de quintal, ou do fogo, ou da casa (repare-se na coligação do fogo e do lar, enquanto tal comum aos povos indo-europeus). Como esclarece o antropólogo:

Jìkù, significa justamente o 'lugar da casa onde se acende o fogo', isto é, a 'lareira', o 'fogo' propriamente dito. Nessa qualidade, o termo ganhou o sentido de 'lar' e 'seio da família' [como aconteceu com os romanos], por integração 'família nuclear'. Assim, essas gentes vindas de fora [segundo Cavazzi 'pessoas que são filhos naturais de outros escravos e, como tais, marcados com o sinal dos seus donos'], são acolhidas, ocupam o quintal dos 'senhores' e, pelo contato social diário que aí estabelecem, pelo trabalho cotidiano que desempenham em benefício do seu 'senhor', por trocas simbólicas diversas ganham a sua confiança".

Nesse processo, passam como que a ser da casa e quase da família (Coelho, 2010 pp. 178-179). Ou mesmo, digo, passando a ser da família. Compare-se:

Os filhos das escravas lundas das casas Cokwe (ana a tshihunda) "não reforçavam o clã de sua mãe (isso é o privilégio de um nascimento livre), mas sim aquele de seu pai." (Vellut, 2010 p. 352) O mesmo sucedia no Reino do Kongo (com as bana ba nzo) e entre os pende, onde os descendentes de escravas "chegaram a constituir a maioria dos membros de classes ricas e poderosas", mesmo entre ovimbundu e ovambo (Vellut, 2010 p. 364). Em coincidência com a nossa fonte, Vellut afirma que "as genealogias revelam que o processo de assimilação dos cativos era mais difundido no século XIX." (Vellut, 2010 p. 353) Embora não nos centremos nas miscigenações biológicas ou genéticas, sabemos que estas ligações – ainda quando a linhagem paterna fosse dominante em várias vertentes (incluindo a cultural) – tornavam mais permeável o respetivo escol e também na vertente cultural.

A esse título, das trocas culturais associadas a componentes biológicas, é notável anotar, ainda que de passagem, o que se passou na Lunda sob o domínio de Muteba. Durante o seu relativamente longo reinado (1857-1873) estabeleceu-se na Mussumba (e se mudou, depois, com Muteba, para a nova Mussumba) uma colônia de "viajantes mbundu" (Vellut, 2010 p. 353) originária do Golungo Alto. O seu chefe chamava-se Lourenço Bezerra Correia Pinto e ganhou nome de Lufuma entre os lundas. A colônia por ele instalada ali reunia "portugueses" ou "quimbundos" do Golungo, de Ambaca e de povoações mais ou menos próximas. O conjunto das povoações de origem desses primeiros "colonos", segundo a apresentação que de si próprios fizeram a Henrique de Carvalho, incluía Golungo Alto, Ambaca, Dande, Malanje, Kongo (Carvalho, 1894 pp. 207-208). É possível que esta migração derivasse dos últimos incidentes em Kassanje, que teriam também como consequência a deslocação dos feirantes portugueses para Mucari, depois para Malanje. Essa colónia deve ter reunido os que pretendiam negociar diretamente com a Lunda, fora dos domínios português e do soba local. Eles eram culturalmente mistos e muitos se casaram com pessoas da região, tendo a colônia permanecido aí pelo menos até Henrique de Carvalho a encontrar.

Estes homens, para além de comerciantes e de, como tal, terem dado um contributo importante para a aceleração do comércio no reino lunda, carrearam também para ali a agricultura e a pecuária tal como a praticavam nas terras de origem, portanto com algumas inovações face às práticas habituais na Lunda. Nas terras de origem tinham-se misturado culturas rurais locais com significativos contributos exógenos trazidos em geral pelos portugueses. Os arimos eram, desde os arredores de Luanda, os lugares privilegiados para essa agropecuária mista. O ‘Xá Muteba’ (como lhe chamavam) parece ter acompanhado com dedicação a nova cultura agropecuária, desenvolvida ali pela colônia do Golungo e arredores (que não fiquem ofendidos os arredores). Vellut chama a estes homens mbundu e Henrique de Carvalho (que vai encontrar o grupo já no seu fim) chama-lhes portugueses ("uma colônia portuguesa"). Na verdade, esses quimbundos do Golungo (e arredores) receberam Henrique de Carvalho como portugueses (era o mais apropriado aos seus próprios interesses e tinham combinado isso com o Mwant yav, mas o fato indica o nível de absorção da cultura lusófona já para além dos limites da colônia). Eles vestiram-se à maneira europeia (sobretudo o novo chefe, que sucedeu ao primo Lourenço Bezerra Lufuma) e, no entanto, viveram ali muitos anos misturando-se com as pessoas da terra – apesar de formarem uma colônia (residência) à parte. Estas pessoas, ali nascidas ou que foram para lá muito novas, amadureceram e, portanto, formaram as suas personalidades como os quimbares (ou mbali) e os pombeiros (pumbeiros): entre culturas – sobretudo de trabalho e de comércio – de raiz bantu e outras de origem lusófona, tendo um deles sido escravo do D. Miguel do Kongo, de onde era natural. Alguns dos membros da colônia tinham sido "resgatados [ou seja: ex-escravos] já constituindo casais, que nada diferiam, em linguagem, hábitos e vestuário, dos chefes de família emigrados, e um destes, Arsénio, ligara-se com uma filha de Rocha [o chefe da colônia], falava e escrevia muito melhor português que qualquer dos meus intérpretes" e dominava "diversos dialetos" locais (Carvalho, 1894 p. 208). O grupo inicial foi crescendo: "aos primitivos colonos vieram juntar-se um certo número de indivíduos de Angola, que fizeram parte como carregadores de comitivas de comércio e até das expedições do Dr. Pogge e do Dr. Buchner, que no regresso fugiram [os carregadores]; serventes de Angolenses espalhados pelas terras da Lunda, e também lhes apareceram pedindo hospitalidade, serviçais do casal de Carneiro [nome de povoação] em Quimbundo.” A um deles, que Henrique de Carvalho diz ter tido inicialmente o nome de "Anzaji" [Nzaji?], "os colonos batizaram de Quim", ou seja, com nome português. Claro que Henrique de Carvalho forçou a nota chamando-lhes portugueses, tanto quanto Vellut chamando-lhes mbundu. Mas foi esta mistura que, durante bem mais de vinte anos, conviveu prestigiada junto à corte do Muatiânvua (Mwant yav) e levou para lá a sua cultura própria de trabalho e de comércio. Ou seja, eles não eram já quimbundos, nem os seus filhos eram lundas, nem eles todos eram portugueses, eram simplesmente crioulos, inseridos num novo processo de crioulização, numa cultura muito mais recetiva do que se imagina a partir do desenho colonial da Mussumba e arredores.




[1] Texto inicialmente apresentado ao Congresso sobre Ciência Colonial realizado em Lisboa no fim de Novembro de 2013. Uma segunda versão foi publicada na revista  Almanack, v. 8, p. 84-103, 2014. – em rede: https://periodicos.unifesp.br/index.php/alm/article/view/13276/9312. Revisto em 3.4.2026.

[2] Uma vez que cito uma edição eletrônica do relato, que não reproduz os números de página do impresso, não indico esses números ao fim das citações.

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