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Domingos Borges de Barros e José da Silva Maia Ferreira



Domingos Borges de Barros é hoje nome relativamente mal conhecido pelos estudiosos, inteiramente desconhecido para o público lusófono em geral. José da Silva Maia Ferreira é relativamente conhecido pelos estudiosos da literatura angolana e por inteiro desconhecido para o público lusófono em geral. De gerações diferentes eles viveram, no entanto, coincidências biográficas, sobretudo no que diz respeito à ideia de Pátria e ao pioneirismo literário.

Domingos Borges de Barros nasce 38 anos antes de Maia Ferreira, é um neoclássico, amigo de Filinto Elíseo, mas a sua poesia já traz traços românticos e o seu amor ao Brasil começa por uma espécie de protonacionalismo, que depois se desenvolverá para o serviço absoluto e indiscutível ao novo país. Maia Ferreira é o primeiro romântico angolano, escrevendo como outros primeiros românticos ainda sob alguma sombra do neoclassicismo (inversões sintácticas sobretudo); ele tem família defendendo a independência de Angola sob proteção do Império brasileiro e antecedeu o protonacionalismo angolano afirmando-se sempre “africano” e muitas vezes “português” em acumulação. 

Ambos dedicaram poemas às senhoras da sua terra, explicitando-o, mas a caracterização dessas senhoras e dessa terra, muitas vezes, foi traçada por visões amplas, vagas, mal definidas ou definidas por traços psíquicos também vagos, não se frisando o específico e o físico de tais personagens e ambientes. Desse modo os seus poemas podiam funcionar com igual facilidade no Brasil, em Angola, em Portugal, nos EUA, eventualmente na Europa – onde houvesse comunidades luso-falantes. Ambos tiveram também uma passagem pelos EUA, como Sousândrade mais tarde mas completamente diferente da deste inovador e inquieto poeta, mais próximo de Emily Dickinson (no Guesa errante, sobretudo no «Inferno de Wall Street») do que de qualquer dos seus contemporâneos brasileiros.

Entre ambos podemos, portanto, postular algumas afinidades poéticas e antropológicas, contribuindo assim para ampliar e solidificar as redes textuais e estéticas que alimentavam as escassas obras poéticas da época na circulação intensa do comércio Angola-Brasil entre 1800 e 1850. Ao mesmo tempo, a proximidade poética entre ambos – que se prende com imagens visuais e focalizações e não com ritmos sonoros – permitirá, mais tarde, investigar em que medida a mesma colocação antropológica produz a mesma configuração poética da colocação do enunciador face à sua terra-pátria e às senhoras dela.


Domingos Borges de Barros
O único Visconde da Pedra Branca nasceu na Bahia, numa família afortunada. Eram seus pais o Capitão-mor Francisco Borges de Barros e D.ª Luiza Clara de Santa Rita Borges, senhores do Engenho de São Pedro, na Freguesia do Rio Fundo, Comarca de Santo Amaro da Purificação. Veio ao mundo em 7-12-1779, ano em que Silva Alvarenga publica A gruta americana e La Harpe escreve, sob anonimato, o Éloge de Voltaire.

Recordemos o ambiente da época na qual nasce este poeta e patriota. Em 1777 o Marquês de Pombal é definitivamente afastado do poder e a Marquesa de Alorna pôde, enfim, respirar de alívio pelo fim da clausura no convento de Chelas – isso ajudará a divulgar a sua obra e será decisivo para que ela organize as famosas tertúlias poéticas, frequentadas também por luso-brasileiros. Silva Alvarenga publica nesse ano (1777) O templo de Neptuno e, no seguinte, uma peça mais importante: Às Artes. Em 1778, ainda, as ilhas de Ano Bom e Fernando Pó (hoje na Guiné Equatorial) passam para a coroa espanhola a troco de territórios americanos de Espanha (Tratado de El Pardo), mostrando assim, mais uma vez, a íntima ligação, para as potências coloniais europeias, entre os dois continentes (África e América). Começa o reinado de Tchingi II (Tchiliva Banbangulu) no Bailundo, reino da futura Angola onde vivem grandes comerciantes, viajantes e guerreiros que vinham até Benguela negociar com o comércio internacional. Mais importante para um intelectual e poeta globalizado, morrem Voltaire e Jean-Jacques Rousseau neste ano, véspera do nascimento de Borges de Barros.

Pouco depois de 1779, mais precisamente em 1781, Frei José de Santa Rita Durão vê sair o Caramuru. Cerca deste ano também (1781) Beckford (William) terá escrito Vathek (A história do capitão Vathek), romance de motivação oriental escrito originalmente em francês e marcante na cultura lusófona das décadas seguintes (na primeira metade do século XX, o maestro português Luís de Freitas Branco ainda compôs uma densa peça musical com este título). Começam a ser publicadas (ainda em 1781) As confissões de Rousseau, que iriam alastrar ao longo do primeiro romantismo lusófono. No ano seguinte nasceriam Lamennais e John Field, dois marcos fundamentais para o romantismo, o primeiro deles muito lido e glosado no triângulo luso-atlântico. A Suíça decreta, só nesse ano, o fim da queima das bruxas e em 1783 Kant publica os Prolegómenos a toda a metafísica futura, enquanto o Tratado de Versailles permite à França recuperar Tobago, nas Antilhas, e o Senegal em África. Recorde-se, ainda, que é só nesse ano que os EUA terminam a guerra pela independência, que teve especial impacto em França e nos grupos maçónicos brasileiros.

Já um bocadinho mais crescido, Domingos Borges de Barros ter-se-á apercebido gradualmente do significado destes e de outros acontecimentos, conforme se foi formando. Ele fez os estudos secundários (ensino médio) no Colégio dos Nobres, uma instituição lisboeta criada para educar a elite portuguesa, na qual (instituição e elite) entrou em 1792, ano também significativo neste contexto: nasce o futuramente nosso Arcénio Pompílio Pompeu de Carpo, como também a Tontine Cofee House, a primeira sede da bolsa de Nova Iorque e sai a Marília de Dirceu, de Tomás António Gonzaga. Ainda nesse ano, a Dinamarca decreta a abolição do tráfico negreiro…

Borges de Barros matriculou-se na Universidade de Coimbra a 3-10-1800, no curso de Filosofia – onde se incluíam as Ciências Naturais – e formou-se Bacharel, licenciando-se a 6 de Julho de 1804. Recorde-se que morrera, em 1800, Domingos Caldas Barbosa, poeta luso-brasileiro de Corte e Academia, frequentador dos jardins literários da Marquesa de Alorna, autor de modinhas populares ridicularizado pelo impiedoso Bocage. É também nesse ano que Madame de Stäel publica De la littérature considérée dans ses rapports avec les institutions sociales, uma obra em que discute a situação social do escritor e defende a importância dos afetos para o intelecto, face aos que sempre a acusaram de misturar emoções e ideias.

Um ano antes de Borges de Barros acabar o seu curso em Coimbra, lá termina a sua licenciatura o pai de Eusébio de Queiroz, que foi depois Juiz em Luanda e Benguela antes de partir para o Brasil: Euzebio de Queiroz Coutinho da Silva, natural de Luanda, que termina, em Coimbra, o curso de Leis em 1803, ano que morre La Harpe. Em 1804, ano da formatura do poeta brasileiro, Frei Bernardo Maria de Canneccatim publica Dicionário da língua bunda ou angolense em Lisboa. No Haiti é proclamada a primeira república negra sob o comando de Toussaint Louverture. Em França Napoleão é coroado Imperador. Humboldt acaba a sua viagem pelas Américas Central e do Sul. Kant adormece para sempre em Königsberg, tal como o filósofo Pe Teodoro de Almeida em Lisboa (autor da famosa Recreação filosófica, bem como de O Homem feliz e independente do mundo e da fortuna, mais conhecido como O feliz independente, muito popular ainda na primeira metade do século XIX nos mercados do Rio de Janeiro, Recife, Luanda e Benguela – para além dos portugueses; pessoa típica da sua época, viveu também em França, tentou conciliar religião, ciência, filosofia e amor, foi um divulgador da Filosofia Natural).

Em Lisboa, depois da formatura, Domingos Borges de Barros conviveu com Filinto Elísio, Bocage e José Agostinho de Macedo – ou seja, com três poetas que, marcos ainda do neoclassicismo português, apresentavam já características românticas. Com o primeiro se terá reencontrado mais tarde em Paris, onde foi retido (1806) e preso quando se deu a invasão da Península Ibérica (1808) e de onde fugiu para New-York. A sua situação foi partilhada com o próprio Filinto, com o famoso Marquês de Marialva, os cientistas Corrêa da Serra e João António Monteiro – pela parte portuguesa. Quanto a brasileiros, entre outros estariam por lá o baiano Caetano Lopes de Moura, bem como José António Soares de Souza, que era estudante na Faculdade de Medicina de Paris. 


Domingos Borges de Barros, ao retornar à Baía, foi novamente preso (suspeito de jacobinismo e de fazer espionagem para os franceses) e só depois de ir ao Rio, no âmbito do processo, ficou livre, começando a publicar.

Borges de Barros, tal como Lopes de Moura e Filinto, fez inúmeras traduções. No seu caso do Grego, do Latim, do Francês, do Italiano... de Safo, Virgílio, Delille, Parny, Voltaire, La Fontaine e Metastásio. Das traduções que elaborou são de ressaltar as que se inscrevem no esforço para a igualdade entre os géneros, merecendo o aplauso da Marquesa de Alorna. Elaborou também um Dicionário de Port.-Francês e vice-versa, para sobreviver. Assinou artigos (como “B.”) em O patriota, do Rio de Janeiro – a esmagadora maioria sobre Agronomia e Química.

Foi Deputado às Cortes constituintes portuguesas, pelo que deve ter conhecido o nosso representante lá, Manuel Patrício Correia de Castro. Ao contrário dele, porém, abandonou as Cortes por não querer votar a Constituição – à qual apresentara propostas no sentido da emancipação feminina e do fim da escravatura. Terá acabado por assinar a Constituição em Setembro de 1822, ainda sem saber da independência brasileira. Logo em seguida é enviado para Paris pelo novo poder brasileiro, para lutar pelo reconhecimento da independência por parte da França. É nessa altura (do reconhecimento, 1825) que publica na cidade-luz as Poesias oferecidas às Senhoras Brazileiras – o título que recorda o subtítulo das Espontaneidades de Maia Ferreira: às senhoras africanas e que se anunciava no Diário de Pernambuco ainda em 1840. Após o desenrolar de uma vida assaz interessante, participativa e de sucessos, republica Os túmulos (Liv.ª Pogetti, 1850), no Brasil.

Um filho homónimo morreu em França, com 10 anos de idade, havendo nisso também semelhança com a morte do filho de Maia Ferreira num bairro industrial então subúrbio de Nova Iorque. O poema «Os túmulos», que dará origem e nome ao último livro, é escrito nessa altura e por ele considera Afrânio Peixoto que Borges de Barros é um precursor do romantismo brasileiro. Não me parece desajustada a informação, nem terá parecido a Maia Ferreira caso este nosso poeta tenha lido a poesia do baiano. Note-se que o poema, “filosófico” segundo o próprio autor, recebera já publicação em 1926, em Paris, pelo que Maia Ferreira pode tê-lo lido também, a par das Poesias.


Antes ainda de passar a José da Silva Maia Ferreira, em particular às suas Espontaneidades, recordo alguns dos aspectos da vida e obras de um dos companheiros brasileiros de Borges de Barros em Paris.


Caetano Lopes de Moura foi uma figura singular e significativa no Brasil da época (e não só). Nasceu em Salvador no mesmo ano de Domingos Borges de Barros e era negro, filho de escravos, segundo a lenda. O seu biógrafo mais prudente, porém, diz que ele era “mulato” e lhe escureceram a epiderme num artigo (de 1941) no Correio da manhã. Outro biógrafo aponta para data de nascimento 1780 (7 de Agosto), garantindo-nos que seu pai, Maximiano Lopes de Moura, era mestre carpinteiro, homem de côr, “sisudo e de sãos cos­tumes” (o autor da curta biografia parece basear-se na edição da autobiografia da Academia Brasileira de Letras). O Dicionário de tradutores da UFSC aponta a mesma data (1780).

Lê-se em algumas notícias biográficas que talvez se tivesse ligado, na Bahia, à maçónica e emancipalista conspiração dos búzios, ou dos alfaiates, ou conjuração baiana ou, ainda, Inconfidência baiana (1798-1799) – na qual participaram pessoas de todas as ‘raças’ e níveis sociais, incluindo Pedro Leão de Aguilar Pantoja, que foi degredado por 10 anos para o presídio de Benguela, e o escravo Cosme Damião Pereira Bastos, condenado a 5 anos em Angola. Há quem diga, no entanto, que não se pode garantir que ele tenha participado nesta conjura. O facto é que aparece em Portugal (para estudar Medicina) e, mais tarde, em França.

A sorte de Caetano Lopes de Moura em França é, no mínimo, ambígua: segundo alguns, ele terá acompanhado as tropas de Napoleão na qualidade de cirurgião; segundo outros foi cirurgião no exército português e só depois foi para França, onde mais tarde se tornou médico de Napoleão; segundo outros terá estado retido e preso com Borges de Barros, Filinto Elíseo, etc., em Paris, na altura da Invasão. Um seu biógrafo com preocupações de objetividade afirma que ele integrou o contingente da Legião Portuguesa que veio até França para entrar no exército napoleónico na invasão da Península Ibérica. Nessa Legião foi cirurgião-mor, conforme diz na sua autobiografia. Parece-me o mais provável.

A primeira tradução famosa de Lopes de Moura foi a do Talismã de Walter Scott. Walter Scott teve, para nós, importância semelhante à que teve no Brasil e em Portugal. Uma importância que muitos hoje ignoram, mesmo porque não se consegue lembrar tudo. A tradução de Lopes de Moura era procurada no mercado bibliográfico do Recife, onde passaram e moraram ilustres filhos e filhas de Angola, como Eusébio de Queirós Coutinho Matoso da Câmara (autor da ‘lei da princesa Isabel’), o seu irmão Francisco de Queirós Matoso da Câmara, D.ª Ana Joaquina dos Santos (que muda aí de nome, acrescentando-lhe “e Silva” para se distinguir de uma senhora do Recife), bem como o comerciante e poeta Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo – este nascido em Portugal, mas cuja biografia está indissoluvelmente ligada a Angola.

Além do Talismã, Caetano de Moura traduziu, de Walter Scott, Os puritanos da Escócia, Quintino Durward, O misantropo, Waverley, A prisão de Edimburgo. Traduziu Chateaubriand e Filimone Cooper. Ainda um romance indianista de Marmontel (Os incas) e outros títulos não mencionados pelo biógrafo mas constantes das nossas fontes.



José da Silva Maia Ferreira, Espontaneidades e a poesia de Borges de Barros
Quanto a José da Silva Maia Ferreira, desnecessário se torna resumir-lhe aqui a biografia. Alguns dos textos postos neste blogue abordam aspetos menos conhecidos da biografia e referem outros, com as respectivas indicações e hiperligações. O primeiro volume de Kicôla, também disponível em linha (por exemplo no academia.edu) aborda mais alguns aspectos.

O que me interessa aqui é, para além das coincidências biográficas, a coincidência entre temas, motivos, figuração das “senhoras” e mesmo algumas expressões. É bom lembrar que Maia Ferreira escreve já depois de conhecer a poesia de Gonçalves Dias, portanto a sua linguagem poética irá diferir necessariamente da linguagem de Domingos Borges de Barros.

No entanto é curioso notar que, por exemplo, ambos andam em torno de temas e motivos como o mar, a solidão, os amores longínquos e os reais, a noite.

Borges de Barros tem títulos como:
-        «À saudade» (Barros, 1825, p. 15), exatamente o mesmo título nas Espontaneidades (Ferreira, 1850, p. 53);
-        «À noite» (Barros, 1825, p. 12), afim de «Amo o silêncio da noite!» (Ferreira, 1850, p. 37);
-        «Ao chegar a Bahia indo de New-York» (Barros, 1825, p. 25), afim de «À minha terra! (ao avistá-la depois de uma viagem)» (Ferreira, 1850, p. 118).
-        «A uma menina» (Barros, 1825, p. 119), exatamente o mesmo em Maia Ferreira (Ferreira, 1850, pp. 61-62).
Pode-se dizer que são títulos comuns na época, e são. O que sucede é que, num livro como no outro, o perfil semântico de cada uma daquelas palavras (e de outras acima citadas) coincide em boa parte. Pode ser que os dois poetas apenas tenham bebido o mesmo discurso que andava no ar, mas pode haver mais do que isso.

Ao nível dos procedimentos poéticos, ambos praticam acrósticos com nomes de mulheres (Barros, 1825, p. 120; Ferreira, 1850, pp. 91, 96), ambos localizam expressamente, recorrendo aos para-textos, muitos dos seus poemas (o que era comum às duas épocas). Ambos também recorrem a lexemas como “mimoso” (ou “mimosa”), “mavioso” (“maviosa”) – lexema geralmente associado à poesia, ao canto, ou metáforas afins. Ambos se fixam em motivos centrados nos “olhos” e nos “lábios”, que ora mentem, ora não, mas que são sempre definidos pela relação deles com o poeta (ou vice-versa) mais do que pela sua realidade própria (isso é particularmente perceptível no poema «Os teus olhos!», de Maia Ferreira, em que a caracterização dos olhos pela cor é explicitamente abandonada pela caracterização psicológica, porque “não há no mundo expressão / que designe o seu condão” – isto apesar de o nosso poeta, de quando em quando, atribuir traços psicológicos às cores dos olhos, nesse aspeto concretizando mais a figuração do que Borges de Barros). Outro motivo muito repetido nos dois poetas consubstancia-se na palavra “lira” para designar a arte verbal, associada quase que absolutamente ao sujeito da enunciação. Um lexema ainda significativo é o do “bafejo” ou “bafo” – palavra que hoje soaria disfémica, mas que ali pode designar uma brisa com odor agradável, ou o hálito fresco da amada.

Borges de Barros usa expressões como “Lira, tu não tens sons com que descantes / d’alma enlevos tão belos” (Barros, 1825, p. 8). Uma expressão comum para um amigo de Filinto Elíseo, dirão. Sim, mas também para Maia Ferreira, 25 anos mais tarde e apesar da contemporaneidade da sua linguagem se comparada com a de Gonçalves Dias, por exemplo. Ainda em ambos a lira própria é dada como sem arte, sem brilho, mesquinha, pobre – ou seja, a partir de uma posição de extrema humildade (aparente, pelo menos). É, mais uma vez, um tópico muito comum, não só naqueles anos mas, o que interessa agora, um tópico partilhado pelos dois.

Podemos, portanto, concluir que os dois poetas partilharam ainda, em grande medida, palavras, expressões, tópicos, motivos e temas. Isto é importante, uma vez que também se colocaram numa posição idêntica no processo conducente aos respetivos nacionalismos e nações.

Domingos Borges de Barros começa a sua deriva quando o Brasil ainda não era independente; foi apanhado pela independência como Deputado às Cortes constituintes … portuguesas, ou seja: foi apanhado entre dois fogos, estando colocado num dos lados e, no entanto, desejando estar no outro; apesar do seu amor à terra ainda é, em Poesias, um cosmopolita e um poeta de referências e paradigmas europeus, filiado na tradição literária europeia; é, também, filho de uma elite que descendia diretamente de antigos colonos e donos de escravos. Maia Ferreira é apanhado por uma tentativa de independência sob protetorado brasileiro, bem como (mais tarde) pela luta contra a escravidão, ambas claras opções de familiares seus, mas é filho de um absolutista e esclavagista, descendente de colonos (como os outros familiares seus) e filia-se numa tradição poética euro-americana, euro-brasileira para sermos mais precisos.


A minha Terra
Um dos momentos em que a posição de Maia Ferreira sobre Angola se define realiza-se logo no poema «A minha Terra», praticamente a peça de abertura das Espontaneidades. Digo “praticamente” para simplificar, claro, pois o anterior é dedicado a (e feito de propósito para) um governador português – ou seja, é um poema de ocasião, posto ali para favorecer o poeta numa altura potencialmente complicada, em que o referido governador ia tomar posse.

O poema em causa («A minha Terra / no álbum do meu amigo João d’Aboim») tem sido muito comentado e geralmente mal interpretado (Ferreira, Espontaneidades da minha alma, 2002, pp. 26-32). Chamo de errónea qualquer interpretação que, experimentada nas releituras do texto, soa forçadamente. Soa forçadamente porque se percebe que ignora e adultera passagens com significação muito precisa, ou mesmo a coerência do texto, com todas as suas oscilações. O forçado da leitura impõe-nos uma variável que, na época e no texto, não tem lugar e isso qualquer leitor avisado nota. Para quem acha que tudo é muito relativo, claro, nada mais há a dizer seja da parte de quem for – e, portanto, deve-se tirar a única ilação possível dessa asserção. No entanto sabemos que o relativismo tem sido usado para fazer terra queimada das teses alheias impondo-se depois outras sem qualquer discussão. Chamo-vos, aqui, para um exercício diferente. Comparem comigo, ajuízem do que escrevo. O resto, sim, é relativo… absolutamente relativo.

Há mais poemas a ter em conta nas Espontaneidades de Maia Ferreira, citei já vários em vários textos anteriores, como por exemplo «À minha Terra! /(no momento de avistá-la depois de uma viagem)», equiparável a outros com quadros enunciativos idênticos nas Poesias do vate baiano (Ferreira, Espontaneidades da minha alma, 2002, pp. 118-119). Como também há mais poemas a ter em conta na obra de Borges de Barros, além daquele sobre que me vou centrar: «Ao Senhor Francisco Manoel do Nascemento / (Filinto Elysio)», firmado em “Paris, em 1810” (Barros, 1825, pp. 61-64). Logo a «Epistola» seguinte, “escrita da Fazenda do Pinum ao Sr M. R. Gameiro então na Bahia, 1812” (Barros, 1825, pp. 65-70); ou «Ao chegar a Bahia indo de New-York / 1811» (Barros, 1825, pp. 25-26). Não posso aqui citar os textos todos mas mantê-los-ei sob escuta.

Um dos aspectos a ter em conta nesta comparação deve ser visto à sombra (ou à luz) dos respetivos quadros enunciativos: Borges de Barros escreve do exílio, cerca de 12 anos antes da independência; Maia Ferreira escreve no Rio de Janeiro, vários anos depois de começar a regressar à terra-mãe e pouco antes de para ela seguir abandonando o Brasil por muitos anos; ainda escreve muitas décadas antes de se falar abertamente na independência em Angola. Entretanto há qualquer coisa de similar: ambos reportam como sua pátria uma terra que ainda não é livre e ambos se dirigem a um poeta português, ou seja, do país colonizador. Algo mais ainda: em ambos os casos o diálogo se estabelece com um poeta que foi decisivo para a carreira literária dos autores, pois João d’Aboim terá proporcionado a Maia Ferreira conhecer Gonçalves Dias e, sobretudo, abriu-lhe as portas da publicação; Filinto Elíseo, como o próprio confessa, abriu “o poético stadiu” a Borges de Barros.

Eles aproveitam o diálogo para confessarem o seu amor pelo respectivo país ao amigo reverenciado. Entre Borges de Barros e Filinto Elíseo há propriamente um diálogo; entre Maia Ferreira e João d’Aboim vemos mais é um triálogo, melhor: um diálogo a três, pois alguém ausente da conversação está presente na conversa: o famoso Gonçalves Dias, não por acaso nacionalista brasileiro e com fortes ligações a Portugal, como ambos os poetas que estou agora a comparar.

Na epístola de Borges de Barros a Filinto o que mais interessa para o caso está no começo e no fim. É no começo que o vate baiano declara qual a sua pátria, a que ele ama como sua, onde nasceu e cresceu – e no fim reafirma a junção dos semas infância-pátria (“Quando verei os bosques onde infante, / dei os tenrinhos passos mal seguros?”). Essa junção fica mais extensa, visível e colorida no poema seguinte, sobretudo na p. 66 – e a descrição realizada aí devemos compará-la, cumulativamente, com a do nosso poeta.

Também no poema de Maia Ferreira, logo de início ele começa por falar na “minha terra” e por pelo menos mais duas vezes retoma o tópico explicitamente. Maia Ferreira, como sabemos, associa a terra à mãe, à infância, ao nascimento (Ferreira, Espontaneidades da minha alma, 2002, p. 30), “ufanoso” com maior intensidade que Borges de Barros.

Borges de Barros parte, em seguida, para a descrição da sua terra, descrição ritmada por um elemento de comparação e radicada na História portuguesa. O elemento de comparação é “aqui”, a genealogia é a de Cabral, o ‘descobridor’ do Brasil: “nas plagas de Cabral, meu pátrio ninho” (Barros, 1825, p. 61). Também Maia Ferreira afirmará como “bem portuguesa” a sua “terra natal” e confessa que, se ela tivesse tido um grande cantor, começaria por cantar os feitos dos portugueses em África. A seguir a essa passagem, porém, como está em ausência a dialogar com Gonçalves Dias, ele confessa que “também invejo o Brasil”, ou seja, o que o leva a elogiar ambos os países é o facto de eles serem por algum motivo mais importantes, ou atraentes, ou cultos – não o de serem portugueses.

Em seguida Borges de Barros inicia a descrição da sua terra-pátria, verdejante, exuberante, saborosa, pródiga. Maia Ferreira, desde o início, faz a descrição comparativa da sua terra-pátria mas apresentando-a como menos interessante que as outras duas invejadas. Afirmei já várias vezes que é preciso, ao lermos isso, repararmos no seguinte: a descrição comparativa e diminutiva é, neste caso e ao mesmo tempo, um artifício retórico – para assim realçar o seu amor à terra – e uma demonstração de realismo, pois a sua Angola, a colónia portuguesa de então, era junto ao litoral (onde viveu) uma terra geralmente árida e sem grandes urbes, sem grande “civilização”. Sabemos que, na época, “civilização” correspondia à civilização fortemente urbanizada, tecnologicamente avançada, de convívio subtil e requintado, permeado de luxos, geralmente de origem europeia, tudo alimentado por um forte potencial financeiro. A terra de Maia Ferreira não tinha nada disso e ele vai buscar, algumas estrofes adiante, o mais parecido:

Não os tem [os atributos de Portugal e Brasil]; porque em terra africana
Não há Cisne em gentil Guanabara,
Mais mimosa, mais bela e mais rica
Do que o oiro do meu Uangara.

Esta passagem é muito mais importante do que a atenção que lhe votaram os críticos. “Uangara” é um termo polissémico interessante para nós porque designa uma região africana, um povo africano e uma actividade económica mundial: uma região próximo do Níger, nas margens do rio Bani, que na zona corre em paralelo ao Níger; uma população muçulmana de origem soninké, portanto de língua mandinga; a actividade de comércio do ouro a longas distâncias – comércio que terá levado os portugueses a contornar, por via marítima, o deserto do Sahara.

Ao referir o “meu Uangara” Maia Ferreira mostra, não só conhecimento do continente africano ao sul do Sahara, também a consciência de pertencer a tal continente – e tanto ele quanto a sua terra-pátria.

Apesar da descrição diminutiva, o poeta angolense encontra motivos para elogiar a mulher (ela principalmente), o “africano guerreiro e famoso”, o “Leão”, como também para pintar quadros típicos: o soba repousando sob a copa da palmeira no descanso da caravana; as matas de espinheiros no meio das quais se podia esconder uma fera (“covis de espinhais entr’abertos”); o caçador, exímio na zagaia, exibindo-se com a fera prostrada a seus pés. Quadros que, de resto, surgiram em livros de exploradores e divulgadores, sobretudo mais tarde.


Sem dúvida, mais comparações profícuas estes dois universos textuais suscitam. Por exemplo esta, de oposição: Maia Ferreira nunca fala no pai e fala na mãe com ternura extrema; Borges de Barros fala constantemente no pai e não cede à mãe o mesmo espaço que Maia Ferreira. Para dar ainda outro exemplo, o da francofilia literária (termo de Salvato Trigo), Maia Ferreira inicia o poema comentado aqui pela citação de um poema seu em francês:
…………………………………………………………………………
Recevez donc mon hymne, ô mon pays natal,
Et offrez-le de bon coeur à qui sut bien chanter
La riante nature du beau Portugal

Talvez com a entrega do seu espólio ao Arquivo Nacional – Torre do Tombo, em Lisboa, possamos agora descobrir o resto do poema. Ele parece-me, sem dúvida, importante para a leitura de «A minha terra». Fica a francofilia, para já, que era partilhada com Domingos Borges de Barros, como com muitos outros poetas da época.

Mas o texto (o meu) vai longo, mais ainda para a disponibilidade de leitores em linha. Aqui pretendi, uma vez ainda, lançar pistas de pesquisa sobre a nossa literatura e sobre as condições em que se produz uma poesia proto-nacionalista, ou regionalista, no atlântico lusófono e, eventualmente, em outras áreas (por exemplo nas Antilhas, ou em Madagáscar).


Jardins do Éden,

28-10-2013

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