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Mensagens

Tomás Ribeiro em Angola ... e as nymphas de Loanda

Penso que ia para a Índia, onde foi secretário-geral do governo colonial. Sei que passou por Luanda o poeta ultrarromântico Tomás Ribeiro, ali num dos meses de 1890, talvez em Junho ou Julho (nascera a 1 de Julho, por coincidência). Tomás Ribeiro foi, como se sabe, o autor do D. Jayme . António Feliciano de Castilho fez-lhe um prefácio escandaloso ao livro. O velho malabarista, no seu papel de padrinho eterno do ultrarromantismo lusitano, comparou D. Jayme  aos Lusíadas  e concluiu que... o livro de Tomás Ribeiro era muito melhor! Antero de Quental e seus amigos acharam então que era altura de dar a machadada final na troupe , fortemente ligada aos interesses coloniais de Lisboa, recheada com ministros, altos funcionários, altos quadros do Exército e da Marinha, incluindo o próprio Tomás Ribeiro. Político ativo do Partido Regenerador, ele foi, para além de poeta e jornalista, Ministro da Marinha e das Obras Públicas. Dirigiu a Secção de Letras da Academia das Ciências. Era ...

e-books, kobos e retrocessos

Num artigo recente publicado no Washington post se discute, mais uma vez, a relação entre poesia, livros eletrónicos e livros em papel. Uma vez mais se repete uma série de jargões e pressupostos que passam, numa rápida conversa de café, por verdadeiras evidências. A atualidade do tema leva a isso, infelizmente… Há dois tipos de lugares-comuns nos ensaios e artigos sobre as relações entre poesia e informática. São vulgarizações de duas linhas de pesquisa acerca do assunto. Uma estuda as relações entre a forma poética na escrita em papel e a transcrição para os aparelhos e programas mais recentes de leitura de livros eletrónicos (kindle, kobo); outra centra a sua pesquisa nas relações entre programação informática e programação poética. O artigo que tenho em mente inclui-se na vulgarização ubicada na primeira linha. Os jornalistas adoram clichés e é compreensível isso, porque o cliché permite estabelecer uma rápida ponte entre leitor e jornalista. O surgimento dos programas e a...

Serrar serradura em Angola

Há muitos anos já, envolvi-me em polémicas com autores neonativistas. Fi-lo, tanto por causa das suas teses, critérios e princípios, quanto por causa de afirmações infundadas e de insinuações malévolas. A minha perspetiva era e é a de que a formação de Angola enquanto nação, bem como a da nossa literatura enquanto sistema literário e corpus respetivo, se deram por e em uma continuada e dinâmica relação entre culturas, a qual criava um novo homem (angolano) e uma nova literatura (angolana).  A partir do estudo da obra lírica de M. António, que perfilava um sujeito assumindo-se e representando-se como crioulo fruto dessa relação (no caso desigual) entre culturas, abstraí os traços estruturantes de uma personalidade crioula e reparei que havia inúmeros fenómenos de crioulização no mundo de hoje, como tinha havido nos de ontem, coloniais, pré-coloniais e para-coloniais. Desde então procurei alargar as minhas referências bibliográficas e teóricas, conhecer em diversas latitudes as crít...

poética da pedrada

A partir da Nova Zelândia (onde nasceu em 1940), Rachel McAlpine (nome pouco artístico) espalhou pela rede mundial de computadores uma série de pequenas obras muito significativas. Em 2013 decidiu colocar 4 livros de “poesia curta” em linha, gratuitos: Lover poems , Senior poems , Mind poems e Phone poems . A autora, segundo ela própria informa (em Mind poems mas creio que também nos outros livros), já tinha escrito mais de 30 obras, entre líricas, narrativas, “plays” e “não-ficção”.  Nos títulos incluem-se, pelo que se pode ver no seu blogue, alguns já tematicamente centrados na existência da Internet. O público-alvo e a formatação dos poemas, a que chama smashwords , estão ligados intimamente a partir da intenção artística: propor beleza e pensamento em formato consumível em rede, numa espera, num consultório, num autocarro, etc., sem quebra de densidade semiótica e afetiva – antes pelo contrário. Ou seja: os poemas resultam da consciência que a autora adquiriu sobre o ...

pega e leva - se

Um poema já antigo, de José da Silva Maia Ferreira, que por sua vez alude a outro do seu amigo João d'Aboim (do que falei variamente e sobretudo na Notícia da literatura angolana ), tem uma estrutura que foi muito popular nos álbuns de moças do século XIX: ao longo de todo o poema se vão descrevendo condições, em geral começando-se pela partícula se , ou qualquer outro recurso gramatical indicando que se vai referir uma condição. No final o poema diz o que faria o amante se aquelas condições estivessem preenchidas.  Mais de 100 anos depois, num poema de claro propósito contraditório e político, M. António troca o se pelo até e manifesta: Até se revoltarem os escravos. Até se rebentarem as comportas. Até sismos divinos, roncos cavos Da terra inquieta sob as pedras mortas  Sacudirem a nossa quietação. Até que luas doidas sobre o mar Sejam sinal da Alucinação. Até se extinguir a gentileza Que mais nos liberta, nos corrompe. Até sermos c...