Há muitos anos já, envolvi-me em polémicas com autores neonativistas. Fi-lo, tanto por causa das suas teses, critérios e princípios, quanto por causa de afirmações infundadas e de insinuações malévolas. A minha perspetiva era e é a de que a formação de Angola enquanto nação, bem como a da nossa literatura enquanto sistema literário e corpus respetivo, se deram por e em uma continuada e dinâmica relação entre culturas, a qual criava um novo homem (angolano) e uma nova literatura (angolana).
A partir do estudo da obra lírica de M. António, que perfilava um sujeito assumindo-se e representando-se como crioulo fruto dessa relação (no caso desigual) entre culturas, abstraí os traços estruturantes de uma personalidade crioula e reparei que havia inúmeros fenómenos de crioulização no mundo de hoje, como tinha havido nos de ontem, coloniais, pré-coloniais e para-coloniais. Desde então procurei alargar as minhas referências bibliográficas e teóricas, conhecer em diversas latitudes as críticas negativas e os contributos aproveitáveis para as questões mais polémicas.
Após a leitura de uma parte, que julgo significativa, da imensa bibliografia existente e sempre a renovar-se, retorno à base (ou seja: ao meio em que mantive essa discussão) e encontro o quê? Praticamente o mesmo.
Num texto recente, creio que escrito para uma conferência, a historiadora Rosa Cruz e Silva repete a mesma estafada e reduzida bibliografia, que podemos resumir a dois amigos, nem sempre concordantes mas bons amigos, que souberam respeitar-se na diferença: Mário António e Mário Pinto de Andrade.
No seu texto a historiadora passa mesmo de passagem por Fernando Mourão (1 vez e sem que isso contribua para o que pretende provar), cita Luís Kandjimbo (1 vez também) e… chega! Quer dizer que, para rebater as teses de Mário António, nada mais de interesse foi pensado e escrito. Toda a bibliografia entretanto surgida, toda a bibliografia que vem sendo produzida sobre o mesmo assunto (hibridismo, crioulização, sínteses e misturas culturais e religiosas, etc.), é completamente ignorada – incluindo bibliografia sobre Angola no século XIX e na primeira metade do século XX.
Uma discussão reduzida à repetição das mesmas hipóteses e das mesmas referências bibliográficas é o que se chama, numa serralharia, serrar serradura. Nada mais a dizer. Exceto notar que os defeitos também se repetem tal qual.
Por exemplo frases como esta, sem nenhuma citação comprovativa e claramente abusivas em relação aos escritos e ao pensamento de Mário António:
Na versão do autor [M. António], o processo de integração dos autóctones na nova ambiência cultural, decorria como um acto pacífico, no qual os africanos participaram como meros actores passivos. Como se o processo de assimilação decorresse, sem que os seus sujeitos pronunciassem qualquer espécie de protesto. (Silva, 2013)
Eu conheço a obra ensaística de M. António. Não me parece que a visão dele coincida com o que diz a historiadora. Conheço textos em que ele chama a atenção para o facto de a comunidade crioula de Luanda ter usado a imprensa para se reunir, para defender os seus interesses, para proclamar a sua identidade, para reagir ao racismo. Nessa linha faz a leitura de vários ensaios de Cordeiro da Matta em que ele tenta construir uma patrologia angolana. Também nessa linha comenta os textos do princípio do século XX nos quais a comunidade crioula se reviu e enfrentou o racismo do colonizador. Integrou a Luz & crença na mesma perspetiva de leitura. E só falo do que me vem, neste momento, à memória.
Mas Rosa Cruz e Silva atém-se a Luanda, ilha crioula:
Em Luanda, Ilha Crioula, o autor não consegue vislumbrar a acção política dos jornalistas.
- não é verdade. M. António fala nisso como já disse. Mas a historiadora não fala em mais nenhuma obra dele, ignorando por exemplo a súmula dos seus escritos, que foi a tese de doutoramento na Univ. Nova de Lisboa: A formação da literatura angolana. Como pode referir-se a um autor destes resumindo a sua bibliografia a um livro?
O seu texto nos dá conta ainda de um paralogismo comum na argumentação neonativista angolana:
Ainda na esteira de Mário António, a coabitação dos dois referenciais das culturas: o africano e o europeu, naquele período concreto, porque supostamente pacifica, tendeu para o moldar de uma sociedade culturalmente compósita, produto de uma acção de quase perfeita fagocitose.- “porque supostamente pacífica”, então “compósita” – este é o pressuposto sem fundamento. Houve crioulizações, hibridações, enfim, culturas compósitas integrando elementos de comunidades, etnias, grupos e nações opostas. E, mais do que isso, assimilação da cultura de um povo conquistado: basta lembrar a adoção da cultura grega pelo Império Romano. Mas a reflexão da historiadora fecha-se nas duas ou três referências que está habituada a citar e isso chega-lhe. Chega-lhe porque, se alarga o leque, fica desmentida.
*
Um segundo texto saído por estes dias publicou-se no quinzenário Cultura, das edições Novembro, e pode servir de contraponto (Kandjimbo, 2013). O seu autor, Luís Kandjimbo, faz um resumo de considerações biográficas, críticas e históricas sobre duas grandes figuras do repositório angolense do século XIX: José de Fontes Pereira e Joaquim Dias Cordeiro da Matta.
Do texto ressalta uma breve panorâmica da sequência histórica na qual a comunidade urbana protonacionalista se afirmou e foi depois esmagada pelo avanço do colonialismo mais eficaz e nocivo, o colonialismo positivista do século XX.
O seu é um trabalho construtivo e pode servir de contraponto saudável até a textos seus anteriores. Incluindo no que diz respeito às extensas citações, indisponíveis para o leitor comum nas fontes originais. Incluindo, ainda, num ponto fundamental: a ausência de agressividade (incomum nos seus textos mais antigos).
O texto parece, aliás, fazer parte de um projeto sensato: o de se ir acompanhando, através da escrita artística e intelectual, o surgimento e a progressão da ideia de independência. Penso que tal projeto deve avançar a par de um outro, o do estudo do surgimento e da progressão da própria ideia de Angola no mesmo período.
Num aspeto, apenas, o texto de Kandjimbo tem algo em comum com o de Rosa Cruz e Silva: é que junta essas informações todas sem nos indicar uma bibliografia precisa. Baseou-se em quê? Quais os autores em que podemos também basear-nos? Sabemos que a bibliografia sobre o nosso século XIX aumentou e aumentou dentro e fora do país, incluindo nos EUA. É uma pena que não esteja aqui referida. Será falha do jornal?
No final, porém, é de ressaltar uma feliz mudança de tom que, embora não enriqueça bibliograficamente o debate nem o atualize, faz um ponto de situação sobre o que sabíamos acerca destes autores e o que se pode pensar, positivamente, sobre eles, sobre a sua participação na criação de uma angolanidade, ou seja, numa ideia de Angola enquanto entidade cultural e política distinta, própria - independente.
Num aspeto, apenas, o texto de Kandjimbo tem algo em comum com o de Rosa Cruz e Silva: é que junta essas informações todas sem nos indicar uma bibliografia precisa. Baseou-se em quê? Quais os autores em que podemos também basear-nos? Sabemos que a bibliografia sobre o nosso século XIX aumentou e aumentou dentro e fora do país, incluindo nos EUA. É uma pena que não esteja aqui referida. Será falha do jornal?
No final, porém, é de ressaltar uma feliz mudança de tom que, embora não enriqueça bibliograficamente o debate nem o atualize, faz um ponto de situação sobre o que sabíamos acerca destes autores e o que se pode pensar, positivamente, sobre eles, sobre a sua participação na criação de uma angolanidade, ou seja, numa ideia de Angola enquanto entidade cultural e política distinta, própria - independente.
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