Num artigo recente publicado no Washington
post se discute, mais uma vez, a relação entre poesia, livros eletrónicos e
livros em papel. Uma vez mais se repete uma série de jargões e pressupostos que
passam, numa rápida conversa de café, por verdadeiras evidências. A atualidade
do tema leva a isso, infelizmente…
Há dois tipos de lugares-comuns nos ensaios e artigos sobre as relações
entre poesia e informática. São vulgarizações de duas linhas de pesquisa acerca
do assunto. Uma estuda as relações entre a forma poética na escrita em papel e
a transcrição para os aparelhos e programas mais recentes de leitura de livros
eletrónicos (kindle, kobo); outra centra a sua pesquisa nas relações entre
programação informática e programação poética. O artigo que tenho em mente
inclui-se na vulgarização ubicada na primeira linha.
Os jornalistas adoram clichés e é
compreensível isso, porque o cliché permite
estabelecer uma rápida ponte entre leitor e jornalista. O surgimento dos
programas e aparelhos como kindle e kobo veio facilitar-lhes a vida quando
falam de poesia, porque eles se tornaram populares, falar deles tornou-se um
lugar-comum. Como se limitam a reproduzir numa pequena tela o texto em papel, procurando
aproximar-nos o mais possível do modelo-livro, há também muito pouco para dizer.
Tudo é muito comestível.
No artigo a que me refiro, Eugene
Ethelbert Miller (n. 1950, NY), ativista e poeta com um leque de interesses
bem diversificado, lembra-nos que os novos e-books,
desformatando o verso, tornam apoéticos os textos. É um exagero, sem dúvida,
porque o ritmo está lá, qualquer leitor apurando o ‘ouvido interno’ de que fala
Gadamer, mesmo ao ler, percebe qual é o ritmo. O problema é só gráfico, o
grafismo confunde o leitor e, não havendo ritmo gráfico, o poema fica meio
depenado.
O que se passava na relação da poesia com a informática, antes do kobo e do kindle (este, sobretudo, não desformata necessariamente o ritmo
gráfico – também é exagero afirmá-lo), é que podíamos ampliar, quer a noção de
ritmo, quer a sua prática. Mais do que isso: controlar a passagem ou
comunicação do ritmo ao leitor passo a passo.
A quebra de linha e o espaço vazio entre estrofes são recursos típicos da
impressão em papel para traduzir pausas na oralidade. Momentos de suspensão. Os
novos meios eletrónicos permitem marcar essas pausas com muito maior precisão e
controlo sobre a leitura a partir do hipertexto. Basta que, para tal, o poeta
desça do seu pedestal e o informático pare um pouco de pensar em dinheiro
rápido. Juntos criam uma nova realidade, um poema cibernético, onde a potência
expressiva e o conceito de linguagem ganham uma amplidão propriamente poética.
Talvez aparelhos como os kobo e os kindle ainda não possam reproduzir esses
poemas – até porque o seu objetivo é o de reproduzir a literatura a que o
leitor está habituado. O seu objetivo é substituir um formato por outro com o mínimo de implicações e novidades, ou seja,
o máximo de ‘comodidade’ para o leitor. Isso é que traz dinheiro rápido.
Não critico a decisão de fazer dinheiro rápido. É normal e mesmo para avançarmos até à
compreensão geral das novas possibilidades expressivas precisamos de fundos de maneio,
melhor dito: é preciso que o empresário tenha dinheiro para gastar com lucros
menos rápidos. Pelas declarações de empreendedores transcritas no artigo, é de
pensar que, no mínimo, os e-books
reproduzam o ritmo gráfico da impressão em papel no futuro próximo. Seria de esperar
que pudessem reproduzir o ritmo de apresentação e a movimentação dos versos na
tela tal como fizeram já os mais variados ciberpoetas. Todos ganharíamos com
isso e, intuitivamente, não me parece difícil.
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