A partir da Nova Zelândia
(onde nasceu em 1940), Rachel McAlpine
(nome pouco artístico) espalhou pela rede mundial de computadores uma série de
pequenas obras muito significativas. Em 2013 decidiu colocar 4 livros de “poesia
curta” em linha, gratuitos: Lover poems,
Senior poems, Mind poems e Phone poems.
A autora, segundo ela própria informa (em Mind
poems mas creio que também nos outros livros), já tinha escrito mais de 30
obras, entre líricas, narrativas, “plays” e “não-ficção”. Nos títulos incluem-se, pelo que se pode ver
no seu blogue, alguns já tematicamente centrados na existência da Internet.
O público-alvo e a
formatação dos poemas, a que chama smashwords,
estão ligados intimamente a partir da intenção artística: propor beleza e
pensamento em formato consumível em rede, numa espera, num consultório, num
autocarro, etc., sem quebra de densidade semiótica e afetiva – antes pelo
contrário. Ou seja: os poemas resultam da consciência que a autora adquiriu
sobre o mundo em que vivemos e de quais as formas poéticas apropriadas a tal
mundo. Não li os quatro livros que ela indica, só os dois últimos (disponíveis
em vários sítios, no meu caso tirei-os com o ‘kobo’ da FNAC, trazido de
Portugal pelo Carlos Ferreira, mas pode-se obter neste endereço com qualquer computador).
Alguns poemas e as breves
notas introdutórias da autora expõem-nos repetidamente as escolhas –
também num formato breve:
Short poems for fun and contemplation.
(Mind poems)
O
leitor pode lembrar-se de alguns aspetos antigos muito ligados à poesia lírica, jogos de palavras por exemplo.
A autora não se esqueceu disso e acrescenta:
Tips, traps, and tall tales for people who think, write, and use computers.
(Mind poems)
O quase-trocadilho (“tips,
traps, and tall tales”) evoca-nos a função lúdica da linguagem comummente rentabilizada pelos
poetas líricos. A referência ao uso dos computadores entre as características
dos destinatários remete-nos para um tipo específico de leitor de líricas (as poesias antigas, ainda as do século XIX, quando reunidas, informavam o promitente comprador com notas deste tipo). Para
o leitor de hoje, Rachel McAlpine percebeu qual era a receita apropriada e a expôs
abertamente:
Small, simple poems to think about while you’re waiting for the doctor or the bus. Includes fortune cookie poems and haiku (sort of).
(Phone poems)
E acrescenta, para
rematar, um modo de ler:
No need to struggle with these poems: just inhale!
(Phone poems)
À partida, alguns de nós
ficarão chocados: a poesia, essa linguagem sagrada e profunda, esse largo sopro
místico, feita de propósito para a espera do dentista ou do autocarro! Pois é,
mas não fiquem chocados. Houve quem se convertesse ao catolicismo quando viu um
pelourinho numa aldeia. Houve quem visse um olhar num aeroporto e se tivesse
desfeito da família por causa disso. Ouve-se uma frase de passagem na rua e
nunca mais se esquece. Poetas há que fazem versos com elas. Deve ser disso que nos fala a autora.
Em geral, são composições
breves, imagens do quotidiano (algumas associadas ao quotidiano feminino) e uma
espécie de efeito semântico de eco – expressão que reconheço defeituosa. Falo de
um curto poema que, depois de lido, ainda retine em nós, não tanto nem só pelos
sons ou pelos ritmos, mas pela densidade do pensamento nele condensado através
da imagem sobre a qual se concentra.
Tenho escrito – a par de variadas
pessoas – em razão disso também. Entre outros motivos, porque há uma ligação
direta entre formas poéticas da oratura e as atuais, por causa mesmo da
velocidade do quotidiano urbano e globalizado.
Também na oratura, ainda que se
transmitissem longos poemas recitados por especialistas, uma série de pequenos
textos entrava na bagagem de qualquer pessoa para se aplicar às mais variadas
situações de vida: aforismos, ditos, provérbios, adivinhas, estórias curtas, anedotas, cantos
elementares (‘elementar’ aqui não pressupõe nenhum juízo de valor, indica
apenas composições centradas em um assunto ou elemento, exposto por uma ou duas frases e
imagens curtas, curtíssimas – às vezes paralelísticas).
Encontramos formas aparentadas em sistemas também escritos, como por exemplo
nos haikai do Japão e em outras
paragens – a lírica medieval da Península Ibérica (incluindo as khardjas árabes e moçárabes de
al-Andalus), a poesia da corte Nahuatl do México pré-colombiano, etc. Leia-se este poema Nahuatl:
Yo perforo esmeraldas,
yo oro estoy fundiendo:
¡Es mi canto!
En hilo ensarto ricas esmeraldas
Tirando as inversões
típicas de uma poética mais elaborada, classicizante e que, na Europa, são
atribuídas à influência do Latim, temos o mesmo tipo de poema de que falo e que
Rachel McAlpine publica em rede.
Estes poemas
concentram-nos em uma ou duas analogias e deixam-nos um rasto de pensamento,
reticências pensativas se quisermos. Pela sua curta extensão e pela exigência
de densidade semiótica, o poeta tem que ser muito preciso, exato, incisivo. Se falhar,
nota-se logo. Rachel McAlpine, de forma geral, não falha (embora alguns dos
primeiros dos Phone poems me pareçam
frouxos).
Quando o The guardian promove a publicação de
narrativas ‘twitter’ com nomes como o de
Adele Parks, comprova-nos a mesma coisa. No caso concreto dessa ‘narrativa’,
aliás, temos bem mais uma espécie de resumo lírico do género que pratica Rachel
McAlpine.
As narrativas ‘twitter’, ou micronarrativas, são pequenos fragmentos
que nos remetem para uma estória. Como nos remetem para uma estória chamam-lhes
narrativas mas, na verdade, isso fez sempre a poesia lírica (insinuar ou sugerir
uma estória por fragmentos frásicos) e o desenlace da estória de Adele Parks é,
precisamente, a designação de um mal-estar. Ou seja, a sua micronarrativa tem
tudo, mesmo, de uma lírica: apresentação fragmentada, evocação de um sentimento
ou de uma emoção, ou de um estado psíquico – em geral invocado no fim. Vários poemas
de McAlpine, como disse, fazem exatamente o mesmo. E, em ambos os casos,
terminando por uma sugestão condensada que funciona como clímax que nos deixa a
pensar…
Estas são algumas das
adaptações e continuidades por que passa a poesia lírica ao migrar para a
literatura em rede e o quotidiano globalizado nos dias de hoje. Infelizmente, a
poesia em língua portuguesa – que em livros cultiva formas próximas
destas – ainda não parece ter acordado bem para a digitalização globalizada, que vamos
consumindo em inglês.
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