Penso que ia para a Índia, onde foi secretário-geral do governo colonial. Sei que passou por Luanda o poeta ultrarromântico Tomás Ribeiro, ali num dos meses de 1890, talvez em Junho ou Julho (nascera a 1 de Julho, por coincidência).
Tomás Ribeiro foi, como se sabe, o autor do D. Jayme. António Feliciano de Castilho fez-lhe um prefácio escandaloso ao livro. O velho malabarista, no seu papel de padrinho eterno do ultrarromantismo lusitano, comparou D. Jayme aos Lusíadas e concluiu que... o livro de Tomás Ribeiro era muito melhor! Antero de Quental e seus amigos acharam então que era altura de dar a machadada final na troupe, fortemente ligada aos interesses coloniais de Lisboa, recheada com ministros, altos funcionários, altos quadros do Exército e da Marinha, incluindo o próprio Tomás Ribeiro. Político ativo do Partido Regenerador, ele foi, para além de poeta e jornalista, Ministro da Marinha e das Obras Públicas. Dirigiu a Secção de Letras da Academia das Ciências. Era bem um homem do establishment e, como tal, reconhecido em África: Serpa Pinto recita versos seus ao rei Lobossi, do Barotze, a pedido deste (claro, o rei só lhe pedira para recitar um poeta da sua terra, não especificamente esse).
O ambiente geral na colónia de Angola, porém, degradava-se a olhos vistos e os anseios autonomistas, em certos casos nacionalistas, aumentavam. Tomás Ribeiro encarnava, nesse momento político, tudo o que se pretendia rejeitar. Assim, apesar do seu prestígio literário junto de vários poetas nossos (como J. D. Cordeiro da Matta), não foi propriamente bem recebido.
Literariamente, a melhor receção que teve ficou a dever-se a Alberto Corrêa - pessoa de quem não tenho, neste momento, mais dados biográficos.
Alberto
Corrêa refere negativamente o D. Jaime nas
páginas do Correio de Loanda, a 22 de
Junho de 1890; o mesmo livro é citado ainda em O complemento do Imparcial, a 27 de Maio de 1894 – mas aí sem
conotação negativa.
No Correio
de Loanda o lírico e político foi recebido com uma paródia que é dos melhores pedaços da nossa polémica e tem a originalidade de misturar verso e prosa. Vale a pena transcrevê-la, pela frescura, pelo domínio técnico,
pela crítica política também e pelo conhecimento que revela da poesia
portuguesa da época. Trata-se de versos para receber Tomaz Ribeiro na passagem por Luanda. As várias estrofes vão sendo enquadradas em 'géneros' que retratam práticas e tiques literários do tempo. O “primeiro exemplo” é “Lyrico – troante”:
És tu, meu velho! Meu Thomaz! Meu caro!
Ou sonho ainda que te vejo aqui?!...
Sonho não é, que não me ilude o faro,
O cheiro a essência que me vem de ti!
Etc. etc.
O segundo é “Philosofico-moderno” (tem portanto como alvo o
realismo e Antero de Quental):
D’onde vens? Onde vaes? A força que te guia
-responde – onde te leva? Acaso te supões
Impulsionador de ti mesmo. Enganas-te. Confia
Na força universal – na lei das transições!...
O terceiro exemplo é “camoniano-quinhentista”:- Isto deve estar admirável porque eu mesmo nada entendo do que escrevi! É o systema.
As nymphas de Loanda mais formosas
Em terra te desejam quanto antes!
Querem contigo, em danças voluptuosas,
Batucar uns batuques delirantes!
Querem quadras d’amor das mais formosas
Que tu sabes fazer, tão palpitantes!
Pois assim julgam ellas que a ventura
Sem danças não existe em noite escura!
O quarto e último exemplo parece ter por alvo o naturalismo,
ou a literatura política republicana, pois é “realismo-rubro-sanguíneo”:
Conselheiro phantoche! oh lyrico ministro
D’um governo boçal, estúpido e sinistro!
(É forte mas é do estylo – decididamente eu tenho queda para tudo)
Aqui tens, aqui tens as terras do ultramar
No abandono cruel em que as deixas estar!
Estende, se te apraz, a vista amortecida
Por esse chão sem trigo e esse mar sem vida!
Vê-me esses corpos nus, imundos, estirados,
De pança para o ar, ao sol embriagados!
Repara na miséria enorme disto tudo
E diz-me que tens feito, oh deputado Entrudo!
etc. etc.[1]
depois de largas considerações sobre o assunto, deve acabar a coisa por uns versos assim pouco mais ou menos:
E nesse dia então, oh mísero lebreu!
O povo que não dorme, o povo que sou eu,
Irá convulso e doido e alucinado e crú
Correr a pontapé os jagas como tu!
Se querem, encarreguem-me deles que não lhes levo nada: Alberto Corrêa
E, depois disto, são dispensáveis mais notas eruditas, inclusivamente sobre a inversão dos jagas, que passam agora a figurar o canibalismo oficial.
[1] Repare-se no ritmo
e métrica dos versos, repetitivo, que vai caraterizar o período realista,
parnasiano e simbolista. Na estrofe "philosophico-moderna" o autor introduz também um enjambement ou transporte, que foi uma das diferenças técnicas trazidas (ou recuperadas) pela superação do ultrarromantismo. Alberto Corrêa tinha, portanto, uma cultura literária atenta e tecnicamente bem apetrechada.
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