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Crioulidades rítmicas

Levitin, no livro já citado A música no seu cérebro , fala com toda a propriedade do caso de Joni Mitchell. O que mais lhe (e nos) interessa é a composição de acordes ambíguos. Transcrevo com a extensão necessária: Como Joni não estudara teoria musical nem sabia ler música, não tinha como informar-lhes [aos bateristas que tocavam com ela] qual era a tónica, e precisava dizer quais notas estava tocando na guitarra, uma a uma, para que fossem descobrindo por si mesmos, laboriosamente, cada um dos acordes. Mas é aqui que a psicoacústica e a teoria musical colidem numa explosiva conflagração: os acordes habitualmente usados pela maioria dos compositores – dó maior, mi bemol menor e assim por diante – são inequívocos. Nenhum músico competente precisaria perguntar qual a tónica de um acorde como esses; é óbvio, havendo apenas uma possibilidade. A genialidade de Joni está em criar acordes ambíguos, que poderiam ter duas ou mais tónicas. Quando não há um baixo sendo tocado junto com sua g...

Tom Chatfield

Tom Chatfield é um homem de vários ofícios: designer (desenhador?) e consultor para jogos de vídeo, ensaísta e crítico particularmente atento à teorização dos jogos de vídeo (v. Fun Inc. UK ; USA: Virgin ; Pegasus), conferencista (principais temas: tecnologia, mídia e jogos), editor da secção de «Artes e livros» da revista Prospect (com edição em suporte papel e digital). Foi também professor universitário, doutorado e especializado em literatura inglesa contemporânea. Na revista que edita publicou um artigo que, não trazendo propriamente nada de novo no que diz respeito às relações entre novas tecnologias e literatura, mostra como (sobretudo) a narrativa se transforma em todos os aspetos na sua relação com o mundo digital em rede e avança dados interessantes. Por exemplo que na Amazon, em Julho deste ano, a venda de livros eletrónicos superou, pela primeira vez, a venda de livros em suporte papel – ao fenómeno não terá sido estranho o desenvolvimento de programas de leitura cada ve...

Neuromúsica evolutiva

Apesar do excesso de tiques próprios das receitas para escrita ensaística, o livro A música no seu cérebro , de Daniel J. Levitin, lê-se com agrado e, sobretudo, ensina-nos muito sobre as relações entre arte, neurobiologia, Gestalt, psicologia evolutiva e ciências cognitivas. Juntando essas disciplinas o autor dá-nos uma panorâmica segura e completa sobre como funciona a música no nosso cérebro, desfazendo falsas ideias feitas e muito divulgadas até hoje. O que ele diz acerca da música também serve para a literatura em muitos casos. Claro que há aspetos meramente musicais referidos, como outros literários não referidos, mas todo o interessado em literatura lucra com esta leitura.  As investigações e asserções de Levitin permitem-nos fundamentar com precisão tópicos da teoria literária demonizados pelos relativismos niilistas, que fizeram do campo raso e queimado o símbolo da reflexão… inútil. A partir dessa obra (como de outras, por exemplo as de António Damásio e Denis Dutton) c...

Ferrão antigo

           AO RIO QUANZA (No Album de Eduardo Neves) Serpente immensa de prata coleando em campo verde, Cauda que ao longe se perde nos inhospitos sertões, cabeça posta no oceano torcendo o corpo em mil voltas, e co'as escamas revoltas rasgando o solo em golphões! Tal és quando a tempestade do céo rompe as cataratas e das immensas cascatas rolam liquidas montanhas! Trazendo no bojo enorme que ruge como as crateras cabanas, colonos, feras arvores, troncos e penhas! Mas logo que o sol ardente as aguas bebe do espaço, brilhas qual polido aço mal se vê teu deslisar! Queria stateficar-te e sobre o dorço em torpor vagões aos mil de vapor velozes fazer rolar. E da tua foz ao teu berço mandar-te em milhares d'expressos força, justiça, e progresso, tres centelhas redemptoras da tua aurora futura, que espantará os milhafres, e fará das hordas cafres legiões trabalhadoras. Mas enquanto es...

Procura-se

  No século XIX havia um interesse generalizado por livros e leitura. Criou-se um amplo mercado livreiro, internacional, o que permitiu superar a fase dos mecenatos e sem descolorir as produções nacionais, tão procuradas quanto as estrangeiras – portanto também sem se reduzir a produções locais. Uma prova disso mesmo eram os anúncios de jornais. A procura de livros era tão intensa que, não só os livreiros, ou comerciantes genéricos, anunciavam os títulos disponíveis, também os leitores publicavam anúncios procurando obras específicas – e esses leitores não eram apenas estudantes nem apenas homens. Havia um público diversificado e generalizado. Um exemplo desses anúncios podia ser assim: Procura-se História Oficial da Literatura Brasileira, podendo também ser da portuguesa, caboverdeana, moçambicana ou de qualquer outro país. Resposta a este jornal ao n.º X. Infelizmente, em países de longa tradição fradesca e autoritária, os especialistas no ramo passaram da bajulação do Mecenas à ba...