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Mensagens

Ruy Duarte de Carvalho

Morreu – não sabemos ainda como – o escritor e antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho, um dos nossos muitos escritores com formação inicial no estudo da fauna e da flora (assim de repente há nomes que me assaltam a memória: Ernesto Lara Filho, Inácio Rebelo de Andrade, João Maimona. Mas há mais). De feitio difícil, deixou no entanto uma obra marcante em várias disciplinas artísticas e ensaísticas: na lírica, onde contribuiu para a renovação decisiva da poesia angolana nos anos 70; na narrativa, misturada à reflexão antropológica desde Como se o mundo não tivesse Leste ; no hibridismo genológico, acentuado pela aproximação entre ensaio, reportagem e narrativa artística – hibridismo acentuado com o passar dos anos e já misturado à cinematografia em Sinais misteriosos… já se vê… ; no próprio cinema, em que a reflexão antropológica e identitária é também dominante; na investigação em ciências sociais, com destaque para Ana a Manda – sua tese de doutoramento em Paris, na EHESS – mas ...

Internet e exclusão

É muito frequente ouvirmos dizer horrores da globalização e de uma das suas facetas mais interessantes, a rede mundial (www) criada nos EUA a partir de um sistema usado pelas forças armadas desse país. Todos os fantasmas anti-imperialistas são fortemente evocados e invocados, em exercícios de estudada esgrima do politicamente correto, para dizer que uma e outra coisa não passam, afinal, de um prolongamento e de uma das armadilhas mais do domínio capitalista sobre o resto do mundo, etc. – um etc., de resto, sem qualquer interesse. No entanto essa crítica foi criando ou sustentando e multiplicando alguns termos e conceitos que se tornaram de uso comum com toda a razão. É o caso dos infoexcluídos. O tal mundo novo, do século XXI, viria cheio de injustiças excluindo os pobres, como sempre, pela simples razão de que eles não sabem mexer nos computadores e muito menos têm condições para aceder à 'net'. Ao mesmo tempo, quando se realizam campanhas, estatais e privadas, para aumentar ...

Ritmos sobrepostos

Seja por influência do Concretismo (mais recuadamente do Modernismo), seja por uma evolução geral da cultura, um dos desenvolvimentos da lírica em verso no século XX, dos mais notórios e sobretudo a partir dos anos 50, prende-se com a exploração de ritmos sobrepostos. Até então a mancha gráfica dos versos era corrida, correspondendo a uma unidade métrica e rítmica. Essa unidade, conforme as escolas e os gostos dos autores, podia coincidir com uma unidade lógico-sintática ou não - caso em que se dava o transporte do sentido de um para outro verso, vulgarmente conhecido por enjambement . Neste último caso já se sobrepunham dois ritmos: o da leitura 'lógica' e o da leitura rítmica. O século XX veio acrescentar mais um nível ao complexo de sobreposições que é também a lírica em verso. É o ritmo visual, da leitura gráfica. Os versos indicados como tal graficamente já não correspondem, necessariamente, a uma unidade rítmica, essa é apanhada pela leitura sonora, interior ...

Pöe anotação

"Eu prefiro começar com a consideração de uma emoção […/…] das inúmeras emoções, ou impressões, a que o coração, o intelecto, ou (mais frequentemente) a alma é suscetível, qual escolho neste momento?" (Edgar Allan Pöe, Filosofia da composição , p. 18). Subsequente à escolha da emoção define o autor o incidente e o tom apropriados a sugerir tal emoção. A escolha, em primeiro lugar, da emoção pode definir o romantismo – se, com Pöe, nos afastarmos da crença na inspiração romântica. Na medida em que essa corrente artística veio justamente colocar a emoção no centro das atenções, no primeiro móbil da criação poética (e primeiro em dois sentidos: o exposto aqui por Pöe – aquilo em que se pensa inicialmente – e o de principal, em torno do qual tudo o resto se desenvolve). Um clássico pensaria no assunto, no tema, no tratamento que deve ser dado ao tema e só depois (ou, quando muito, simultaneamente) na emoção, no tom e no incidente correspondentes. Vistas as coisas assim um poema...

Achille Mbembe

"Por fim, põe-se o problema da associação entre a arte, a cultura, a estética africanas e a etnicidade, a comunidade ou o comunalismo, a ideia dominante mas falsa (e partilhada por muitos africanos e outros tantos doadores) de que o acto de criatividade é necessariamente um acto colectivo, que as formas artísticas africanas não são objectos estéticos em si, mas códigos secretos que dão acesso a um nível do "real" mais abstracto, fundamentalmente etnográfico e representativo da diferença cultural ontológica da África, isto é, a sua autenticidade. É esta "diferença" africana e esta "autenticidade" africana que os doadores buscam, mantêm e, se for necessário, fabricam. Postos lado a lado, os efeitos combinados destes processos nas relações entre "doadores" e " beneficiários" bem como na criatividade e na autonomia culturais africanas são devastadores. Sem uma nova ética baseada no reconhecimento, na solidariedade e na reciprocidade, o...

Roderick Nehone uma boia na tormenta

Que toda a literatura tem seus clássicos, disso ninguém duvida. Nem mesmo que de os clássicos de cada literatura variam com o tempo, exceto alguns raros perpétuos. Ainda é cedo para dizermos quem são os perpétuos na nossa, mas podemos ir ao Brasil de Machado de Assis ou ao Portugal de Camões para dar dois exemplos. São, porém, exemplos de uma só das aceções da palavra 'clássico' em literatura. Da aceção mais comum, claro: a dos autores que, pela maneira como são recebidos ao longo dos tempos, tornam-se cânones literários. Há clássicos de outra ordem: os que, à partida, procuram sê-lo. Ser um clássico é uma vocação e quase uma profissão (de fé também). Implica disciplina, uma disciplina incorporada e decerto conscientemente. Implica um tipo de discernimento mais calculado (nem por isso menos autêntico), premeditado que o do escritor romântico, exaltado, boémio incorrigível, incapaz de dominar os seus próprios instintos. Roderick Nehone vem-se revelando, livro a livro, um cl...