Morreu – não sabemos ainda como – o escritor e antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho, um dos nossos muitos escritores com formação inicial no estudo da fauna e da flora (assim de repente há nomes que me assaltam a memória: Ernesto Lara Filho, Inácio Rebelo de Andrade, João Maimona. Mas há mais).
De feitio difícil, deixou no entanto uma obra marcante em várias disciplinas artísticas e ensaísticas: na lírica, onde contribuiu para a renovação decisiva da poesia angolana nos anos 70; na narrativa, misturada à reflexão antropológica desde Como se o mundo não tivesse Leste; no hibridismo genológico, acentuado pela aproximação entre ensaio, reportagem e narrativa artística – hibridismo acentuado com o passar dos anos e já misturado à cinematografia em Sinais misteriosos… já se vê…; no próprio cinema, em que a reflexão antropológica e identitária é também dominante; na investigação em ciências sociais, com destaque para Ana a Manda – sua tese de doutoramento em Paris, na EHESS – mas também com as variações poéticas incontornáveis de Ondula, savana branca, um dos seus livros mais simples e mais belos.
Não penso que a escrita artística de Ruy Duarte de Carvalho seja tão rigorosa e depurada quanto alguns dizem. Pelo contrário me parece que se torna desnecessariamente prolífica e até circunstancial – por exemplo quando usa as páginas de um romance para ajustar contas com pessoas com quem teve desavenças. Despropositado e desagradável. Desagradou-me também, desde sempre, na lírica de Ruy Duarte a mesma tendência para a proliferação – por vezes radicalmente combatida, reduzindo o poema a um só verso, isolando versos graficamente para concentrar neles a leitura, mas raramente versos com suficiente energia poética. Falo do que sinto, claro. Acho que essa tendência para a proliferação e a mistura com o meramente circunstancial perturbou várias vezes a sua obra, principalmente a obra lírica. Mas isso não põe em causa os contributos decisivos que nos trouxe.
O que me parece importante nele é a inquietação do artista e do homem, nunca sonegada; a simultânea procura de coerência entre o pensado e o vivido; o domínio seguro de novos critérios de composição poética e da sua adequação ao quadro cultural angolano; a fina observação antropológica tentando trespassar os velhos e reconhecidos limites do 'eu' e do 'ele'; a consistente visão fílmica mais do que narrativa, visão que se pode flagrar nos poemas, nos romances, nos contos; finalmente e principalmente o hibridismo multidisciplinar.
Enquanto pessoa pública, cidadão, fica-me a imagem da verticalidade e lucidez com que frequentemente desmontava, nos últimos anos, os ardis e sofismas que inundam e entopem o que devia ser o curso natural e convivial da cultura e da política em Angola.
Que seja lembrado.
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