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Ritmos sobrepostos


Seja por influência do Concretismo (mais recuadamente do Modernismo), seja por uma evolução geral da cultura, um dos desenvolvimentos da lírica em verso no século XX, dos mais notórios e sobretudo a partir dos anos 50, prende-se com a exploração de ritmos sobrepostos.

Até então a mancha gráfica dos versos era corrida, correspondendo a uma unidade métrica e rítmica. Essa unidade, conforme as escolas e os gostos dos autores, podia coincidir com uma unidade lógico-sintática ou não - caso em que se dava o transporte do sentido de um para outro verso, vulgarmente conhecido por enjambement.

Neste último caso já se sobrepunham dois ritmos: o da leitura 'lógica' e o da leitura rítmica. O século XX veio acrescentar mais um nível ao complexo de sobreposições que é também a lírica em verso. É o ritmo visual, da leitura gráfica. Os versos indicados como tal graficamente já não correspondem, necessariamente, a uma unidade rítmica, essa é apanhada pela leitura sonora, interior ou em voz alta. Por isso também não podemos dizer que os poetas abandonaram as antigas noções métricas e rítmicas, que os ligam a tradições orais, ou a ritmos quotidianos. Elas sobrepõem-se à distribuição gráfica das palavras e, por isso, tendemos a acreditar no mito modernista vulgar do fim da métrica e do ritmo quando o que se deu foi a autonomização do trabalho artístico sobre o grafo (não encontro neste momento outra palavra).

Pego num exemplo de Marco Lucchesi, tirado do livro Sphera (Rio de Janeiro: Record, 2003)

E temo a cada
passo
o encontro que
não sei

Se o leitor, ingenuamente, for ler, declamar o ritmo gráfico, dá-se um desastre e quem o estiver a ouvir foge. O problema não é do poeta, a responsabilidade é sua, porque o ritmo sonoro não é esse. O metro é o de dois hexassílabos, com o ritmo trabalhado numa sequência de duas mais quatro sílabas (2+4, ou seja:

E te' ma ca da pa' sso
wen con' tro que não sei'

Como sucede no transporte, ou encavalgamento, a autonomização do ritmo gráfico permite construir leituras suplementares, alternativas ou concordantes, criando ambiguidades ou ambivalências. Permite igualmente, sem recurso à informática, somar leituras que o verso grafado como dantes não permitia. Por exemplo:

Passo / não sei

E temo / a cada encontro que
Não sei / o passo

Realmente, a informática veio apenas potenciar os mecanismos de realização, de projeção na tela (o substituto da página no computador) dos exercícios que só a imaginação interior visualizava.

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