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Mensagens

Pöe anotação

"Eu prefiro começar com a consideração de uma emoção […/…] das inúmeras emoções, ou impressões, a que o coração, o intelecto, ou (mais frequentemente) a alma é suscetível, qual escolho neste momento?" (Edgar Allan Pöe, Filosofia da composição , p. 18). Subsequente à escolha da emoção define o autor o incidente e o tom apropriados a sugerir tal emoção. A escolha, em primeiro lugar, da emoção pode definir o romantismo – se, com Pöe, nos afastarmos da crença na inspiração romântica. Na medida em que essa corrente artística veio justamente colocar a emoção no centro das atenções, no primeiro móbil da criação poética (e primeiro em dois sentidos: o exposto aqui por Pöe – aquilo em que se pensa inicialmente – e o de principal, em torno do qual tudo o resto se desenvolve). Um clássico pensaria no assunto, no tema, no tratamento que deve ser dado ao tema e só depois (ou, quando muito, simultaneamente) na emoção, no tom e no incidente correspondentes. Vistas as coisas assim um poema...

Achille Mbembe

"Por fim, põe-se o problema da associação entre a arte, a cultura, a estética africanas e a etnicidade, a comunidade ou o comunalismo, a ideia dominante mas falsa (e partilhada por muitos africanos e outros tantos doadores) de que o acto de criatividade é necessariamente um acto colectivo, que as formas artísticas africanas não são objectos estéticos em si, mas códigos secretos que dão acesso a um nível do "real" mais abstracto, fundamentalmente etnográfico e representativo da diferença cultural ontológica da África, isto é, a sua autenticidade. É esta "diferença" africana e esta "autenticidade" africana que os doadores buscam, mantêm e, se for necessário, fabricam. Postos lado a lado, os efeitos combinados destes processos nas relações entre "doadores" e " beneficiários" bem como na criatividade e na autonomia culturais africanas são devastadores. Sem uma nova ética baseada no reconhecimento, na solidariedade e na reciprocidade, o...

Roderick Nehone uma boia na tormenta

Que toda a literatura tem seus clássicos, disso ninguém duvida. Nem mesmo que de os clássicos de cada literatura variam com o tempo, exceto alguns raros perpétuos. Ainda é cedo para dizermos quem são os perpétuos na nossa, mas podemos ir ao Brasil de Machado de Assis ou ao Portugal de Camões para dar dois exemplos. São, porém, exemplos de uma só das aceções da palavra 'clássico' em literatura. Da aceção mais comum, claro: a dos autores que, pela maneira como são recebidos ao longo dos tempos, tornam-se cânones literários. Há clássicos de outra ordem: os que, à partida, procuram sê-lo. Ser um clássico é uma vocação e quase uma profissão (de fé também). Implica disciplina, uma disciplina incorporada e decerto conscientemente. Implica um tipo de discernimento mais calculado (nem por isso menos autêntico), premeditado que o do escritor romântico, exaltado, boémio incorrigível, incapaz de dominar os seus próprios instintos. Roderick Nehone vem-se revelando, livro a livro, um cl...

Complexidade e arte

Um dos atributos universais da arte, segundo Denis Dutton ( Arte e instinto , v. abaixo a referência), seria o da complexidade do objeto artístico, da peça, enfim, da obra. Acho que nisso, como em vários outros aspetos, D. D. acertou em cheio. A sua definição de complexidade é a de que o termo refere "inter-relações densamente significantes da, digamos, poesia, do enredo e do ritmo dramático numa peça como O rei Lear de Shakespeare" (op. cit., p. 394). Vendo a parte universal da definição, complexidade seria igual a estrutura: as "inter-relações densamente significantes" entre os componentes de uma obra. Isto vem, por outra via (uma primeira foi a dos estudos sobre literatura e informática), mostrar a atualidade e pertinência de conceitos estruturais e semióticos, apropriados justamente para definir e compreender a 'complexidade'. Deste modo, o estudo da complexidade é também um estudo estrutural.

Ready made

Ouvimos hoje falar muito em 'ready-made' e há mesmo teóricos da literatura que se irritam com a moda. Na verdade a sua origem tem já cerca de 100 anos – o que não vem em desfavor ou favor do processo. O que sucede sempre que um termo se vulgariza é o seu uso menos rigoroso. Em reação a tal uso uns se estribam no estrito significado primeiro da palavra ou expressão e outros simplesmente abandonam o termo. Não me parece que seja necessária nenhuma dessas opções. Recapitulando: quando Duchamp enviou uma sanita para uma exposição de arte moderna, apenas acrescentando-lhe a sua assinatura e a colocação no espaço, não só ironizou o mercado de arte e a vulgarização da arte moderna que já então se iniciava. Ele chamou a atenção, paradoxalmente, para a importância da colocação, da relação da obra com o contexto imediato: retirando de um contexto fabril e repondo-a num contexto artístico, por exemplo, podemos levar o recetor a atentar na esteticidade de um objeto ou fenómeno do quotidi...

15 de junho de 1833

Deixa de se publicar, no Rio de Janeiro, o Semanário de saúde pública . Estas coisas têm consequências, a curto e longo prazo.  Pouco depois nasceria o romantismo brasileiro. Já dava sinais (ainda que por influência europeia) da nostalgia da natureza.

O mapa cor-de-Luba

"Entre os anos 800 e 1000DC acentuou-se, gradualmente, a separação dos dois principais ramos em que, já depois da travessia do Rovuma, se dividiram os protomacuas: o do norte e leste veio a dar origem aos modernos macuas; o do sul e oeste, composto por Lómuès e Lolos, dirigiu-se ao Chire e ao Baixo Zambeze. A sua vanguarda, formada por estes últimos, entrou em contacto com elementos do grupo Marave, vindos do país Luba, no sul do atual Zaire, através dos planaltos centrais, a ocidente do Lago Niassa. Parte destes Lolos foram designados por Cocolas pelo ramo mais meridional dos Maraves, os Manganjas" (A. Rita-Ferreira – Fixação portuguesa e história pré-colonial de Moçambique . Lisboa: IICT-JIU, 1982). Era o começo (se antes não houve mais nenhum, que desconheço) de uma longa história: a da nação Luba no corredor que leva do Leste de Angola até Moçambique. Relacionada com ela está, sem dúvida, a produção e circulação de "meios de troca com padrões de peso e volume",...