Um dos mais conhecidos poemas de Alda Lara tornou-se famoso depois de cantado por uma fadista portuguesa, Teresa Tarouca. Compõe-se de duas partes e o conjunto leva o nome de «Poemas que eu escrevi na areia».
A segunda parte fala em "soldadinhos de chumbo / na coberta perfilados". Este, como vários outros poemas de Alda e de Ernesto Lara (filho), é fortemente intertextualizante (prefiro o termo assim do que no particípio passado - indica sugestividade e processo, em vez de qualidade estática, fixa, do particípio-adjetivo).
Creio que Alda Lara terá lido o famoso e comovente conto infantil do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), «O soldadinho de chumbo».
No poema da nossa benguelense,
Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
Que, numa praia distante,
Meu bergantim se afundou.
No conto de Andersen a parte que pode relacionar-se com o poema é aquela em que o soldadinho de chumbo é posto num barco de papel e, depois de passar por um túnel, acaba por se afundar entre as ondas do mar - o papel rasga-se (depois, biblicamente, o soldadinho é comido por um peixe que vai parar à cozinha da casa de onde saiu, e onde estavam os seus 24 companheiros).
Ou seja: afunda-se numa praia distante.
É claro que o poema de Alda Lara alude igualmente à situação política de Angola (e de Portugal), pode funcionar portanto como alegoria política se articulado com o estrito contexto epocal. E suscita várias outras intertextualizações, como já disse. É claro também que a intertextualização não é uma cópia, tal qual, de outro texto, mas em geral é um jogo feito a partir de outro texto, ou aludindo a ele, uma espécie de metáfora em que um dos termos de comparação não é tirado à realidade social ou física, mas a uma realidade textual. Por isso tudo a grande poetisa angolana põe o nome no plural: "soldadinhos de chumbo", não "soldadinho". Se o leitor conhece, porém, a estória de Andersen, o potencial o poema torna-se ainda mais forte, ou sugestivo.
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