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Muekalia na segunda revolução


Na linha dos testemunhos de Alcides Sakala e Samuel Chiwale, foi publicado pela Sextante editora, também, o título Angola: a segunda revolução - memórias da luta pela Democracia, de Jardo Muekalia (2010). A obra, de que já comprei 2.ª ed. (2011), tem distribuição assegurada pela Porto editora, o que a torna facilmente acessível. 



Há muito que a tinha guardada, para ler quando houvesse tempo de a comparar com as duas congéneres. No conjunto são de facto três obras incontornáveis para quem deseje, com isenção, fazer um dia a história destes anos conturbados. Esse conjunto nos dá sinal razoável e credível de metade desta história (a outra já conhecemos - é a versão do MPLA). 


Parece que Jardo Muekalia é o mais nitidamente apostado - entre os três - em sustentar o contraste com a versão hoje oficial dos acontecimentos. E consegue fazê-lo, muitas vezes, com extrema isenção e clareza.


Um dos eixos centrais da sua narrativa histórica prende-se precisamente com esse objetivo, ao nos mostrar a cada passo a aposta da UNITA na paz (fosse por que motivos fosse) e, pelo contrário, como o MPLA apostou o mais que pôde (principalmente durante a primeira guerra civil) na solução militar. 


Outra versão que se desfaz neste contraste é relativa à famosa batalha do Cuíto. Não foi essa, como dizem, a maior batalha de África, mas a do Lomba, ocorrida alguns dias antes de começar o cerco do Kuíto (escolham o K ou o C, tanto faz). A batalha é apresentada oficialmente como uma vitória partidária (embora camuflado o partidarismo sob a conotação forçada entre o Partido e  o País) que mudou o cenário da África austral, obrigando a África do Sul a negociar. 


Tanto quanto me lembro e confirmo neste livro não foi isso. O processo negocial existia já, estava prestes a concluir-se, mas o MPLA tinha programado e preparado, ao longo dos dois últimos anos antes do ataque, uma última tentativa para desalojar a UNITA da Jamba e queria assinar o Acordo em vista com essa fulminante vantagem militar. Então atacou a Jamba, com o mesmo apoio soviético das duas tentativas anteriores. Só que perdeu a batalha, perdeu Mavinga e ia perdendo o Kuíto. A decisão de cercar o Cuíto foi posterior: aí a UNITA pensou fazer o mesmo que o MPLA e obter uma vitória, não fulminante, mas significativa, para assinar o previsto Acordo. Tudo ficou por aí: a UNITA não conseguir tomar os últimos 10% de território que lhe faltava tomar no Cuíto e o MPLA camuflou a derrota afirmando que a vila sobreviveu ao cerco. 


Entretanto os angolanos morriam dos dois lados...


Outra preocupação constante de Muekalia é a de mostrar que a UNITA é que sempre lutou pela democracia, pela distribuição da riqueza por todo o país e por uma economia privada, liberal e aberta ao mundo. 


Nesse aspeto me parece que, mesmo a julgar só pelo seu livro, ele tem e não tem razão. Tem porque a UNITA sempre falou nisso, enquanto o MPLA tentou primeiro a via do partido único e da economia centralizada. Não tem porque Savimbi era de facto um ditador e as suas referências téorico-políticas e económicas - como reconhece o autor - estavam muito ligadas ao marxismo na versão chinesa. Tudo isto ressalta das páginas do livro, como também dos testemunhos de Chiwale. E é uma parte que sentimos faltar na obra de Muekalia é a que nos desse a exata dimensão dos estragos feitos pela BRINDE, ao menos pela primeira BRINDE. Falta-nos também a sua versão sobre os incidentes das fogueiras, a sua versão sobre os alegados desvios de dinheiros quando da derrota, sobre as religiosas que a UNITA reteve - o que levou o Vaticano a afastar-se cada vez mais da Jamba (episódio detalhado por Jaime Nogueira Pinto, numa obra que também se tornou incontornável para estudarmos alguns episódios da nossa guerra civil). 


Mas fica-nos claramente explicado o contexto e a trama que levaram aos assassinatos de Tito Chingunji, Wilson Santos e famílias respetivas. De maneira que não percebemos como depois Jardo Muekalia parece estranhar o afastamento da comunidade internacional, relativamente à UNITA, após as eleições de 1992. Isso não se prende só com negócios, como salta à vista. É certo que José Eduardo Santos foi hábil e rápido a perceber que, negociando abertamente com os EUA e outros países, iria cercar e aniquilar economicamente a UNITA. Já não havia a Cortina de Ferro nem a ideologia que a legitimava podia limitar Angola mais, o que facilitava os negócios com o 'Ocidente'. Mas também sabemos que houve esses assassinatos, que houve mais episódios no mínimo rocambolescos e comprometedores, houve declarações inoportunas (feitas no pior momento e lugar) de Savimbi sobre os limites que pensava colocar às grandes multinacionais e aos negócios internacionais em Angola, enfim, houve uma série de erros táticos e decisões grosseiras que no mínimo reforçaram a disposição da 'comunidade internacional' contra a UNITA. Por isso também é que o esforço de diplomatas inteligentes e hábeis como Jardo Muekália já não chegava para manter os apoios à UNITA. 


O livro é, no seu conjunto, porém, uma reflexão lúcida e fundamentada sobre a própria experiência do autor e  de uma parte do povo angolano na luta pela dignidade, pela paz e pela democracia. Um testemunho incontornável a meu ver, um contributo decisivo para que no futuro se possa perceber o que passou. 

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