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Literatura angolana do século XIX - Nelson Pestana



Um país esquecido de si próprio é um país alienado e sem rumo. 



Angola, que pode ostentar uma cultura urbana e escrita das mais antigas da África subsariana, tem visto nos últimos anos poucos estudiosos investigando esse nosso passado. No entanto, lendo os que antes de nós aqui fizeram literatura, veremos que a maioria das questões candentes que nos afligem viveram-se também nesses tempos. E vemos que a nossa literatura nacionalista não teria existido, com o formato que teve, sem a literatura do século XIX e dos princípios do século XX. 



Nelson Pestana (Eduardo Bonavena) é precisamente um dos poucos nomes  significativos na pesquisa sobre a literatura angolana do século XIX. Desde os anos 80, da revista Archote, que nos apresenta vários resultados e ensaios que nos surpreendem e esclarecem acerca desse período, fundamental para a formação do nosso perfil urbano. 

Não ficou só. Acompanharam-no, sobretudo, as investigações de Carlos Pacheco - entretanto mais dedicado agora à pesquisa sobre tempos recentes e igualmente fundamentais. E eu próprio, modéstia salvaguardada, que intermitentemente me dedico também a tais investigações, das quais dei conta em vários livros - sobretudo na Notícia da literatura angolana e, agora, reincidindo em Kicola

Que façam e continuem a fazer estudos acerca da nossa literatura do século XIX, entre angolanos, não me recordo de mais ninguém. Há, sim, num escopo mais abrangente, o laborioso e extenso trabalho de Arlindo Barbeitos, cuja tese de doutoramento a Kilombelombe acaba agora de publicar, aliás numa bela edição. 

Isto faz recair sobre nós uma responsabilidade muito maior e um esforço também acrescido. A publicação, pelo Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, de dois títulos de Bonavena vem dar conta deste sentido de responsabilidade. 

Para o público angolano, estes dois textos trazem à luz uma súmula do que sobre Joaquim Dias Cordeiro da Matta (Jakim ria Mata) e Pedro Félix Machado foi já investigado, quer pelo autor quer por outros autores que Nelson Pestana atentamente cita. Atualizamos com eles o nosso conhecimento sobre as respetivas biografias, a angolanidade de cada autor, a sua sabedoria literária e a sua contemporaneidade. O que não é pouco. 

Para o público português estes textos precisam - e de certo modo ampliam - as informações contidas nos prefácios que Bonavena fez para as edições da lírica de Cordeiro da Matta e do romance de Félix Machado (Lisboa, IN-CM). 

Para o público em geral há um suplementar interesse, que é o da desmontagem dos equívocos criados em torno destas figuras do nosso protonacionalismo. Frutos em geral de um conhecimento limitado dos textos (que não estavam antes ao dispor dos interessados), mas principalmente resultando de preconceitos ideológicos e leituras anacrónicas, esses equívocos continuam por vezes a ser repetidos de universidade em universidade, de conferência em congresso, de artigo em ensaio, como se não tivéssemos ainda limpado os óculos. 

As leituras equivocadas prendem-se geralmente com a visão deturpada da relação destes autores (e de José da Silva Maia Ferreira) com Angola. Que é uma relação identitária, de amor e de pertença que não deixam dúvidas a qualquer leitor atento. Só o fanatismo ideológico, ou a preguiça de quem repete o que os outros disseram sem se dar ao trabalho de verificar, só uma destas duas causas pode explicar que, por exemplo, se desconheça o significado primeiro (e ainda novecentista) da palavra 'prima' (primeira) numa passagem determinante da nossa lírica do século XIX. Por isso se fizeram leituras deste verso:

Serias das filhas d'Eva Em belleza, ó negra, a prima! 

pressupondo que a negra seria prima das filhas de Eva! Quando, afinal, o que diz o poeta é que, entre as filhas de Eva, aquela mulher, negra, seria a primeira!

Com estas e outras deturpações se contribuiu para levar os angolanos a desprezar e ignorar o seu passado literário. Livros como estes dois de Bonavena vão-nos ajudar a perceber o quilate e o significado dos nossos escritores do século XIX. 


Esteja atento:


Pestana, Nelson - Literatura angolana do século XIX: Pedro Félix Machado. Luanda: CEIC, 2012. 
Pestana, Nelson -  Literatura angolana do século XIX: a poesia de Cordeiro da Matta. Luanda: CEIC, 2012. 


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