É com todo o gosto e com a lúcida noção da urgência imposta pelas circunstâncias que publicamos esta análise e tomada de posição sobre o golpe de Estado na Guiné-Bissau:
O Golpe de Estado de 12 de Abril foi um acto eminentemente
político e premeditado, cujo objectivo era exclusivamente impedir a realização
da segunda volta das eleições presidenciais, provando mais uma vez uma complexa
mas indissimulável cumplicidade política entre as FA e algumas forças políticas
nacionais.
A questão angolana e dos acordos secretos foram apenas um
falacioso pretexto utilizado na vã tentativa de explorar sentimentos
nacionalistas e desviar a atenção das populações, coisa que não aconteceu, uma
vez que estas continuam a manifestar-se contra o golpe, a reclamar o regresso à normalidade
constitucional e pela retoma do processo eleitoral interrompido.
Os militares constituem o mais importante problema político
da Guiné
A insubordinação militar é uma doença infantil da luta
de libertação nacional, cujas primeiras e dramáticas manifestações se
consubstanciaram nas rixas, indisciplinas e crimes cometidos no Sul do País,
nomeadamente em Quinara, Unal, Balana, Catés e Catchamba, logo nos inícios dos
anos sessenta, quando surgiram as primeiras áreas libertadas. Os guerrilheiros,
não suficientemente preparados para o desafio da libertação, embriagados pela
posse de armas de fogo e dominados por crenças obscurantistas, agiam nas
aldeias como autênticos “Khmer vermelhos”, aterrorizando populações,
expropriando-lhes bens, infligindo-lhes sevícias piores do que aquelas
conhecidas do poder colonial, matando pessoas inocentes, acusando-as de
bruxaria e traição.
O Congresso de Cassacá serviu para pôr cobro aos desmandos e
vingar o carácter não militarista da luta de libertação nacional, submetendo a
dimensão armada ao foco político. Este equilíbrio e submissão durariam apenas
até à libertação nacional, momento em que a desobediência ressurge e
transfigura na sua essência.
Com efeito, após a independência, a intervenção militar na
arena política ganha um novo cariz, estatuto e contornos também novos,
porquanto conquista autonomia em relação à vontade e iniciativa de
políticos:
- Ela se forma, se desencadeia e se manifesta por impulso e determinação próprios, arbitrando o jogo político e funcionando como ordenador de Governos e chefes de Estado. Isso começou efectivamente com o 14 de Novembro, graças à ascensão, pela primeira vez na história da Guiné, de chefias militares a estruturas e lugares mais cimeiros de alguns partidos e do Estado. Desde então, o fenómeno se repetiu, inclusivamente também através da tentativa de golpe de Estado de 17 de Outubro.
- A nossa história política está repleta de recursos à violência para a resolução de conflitos políticos, consubstanciando processos sumários e assassinatos em massa de concorrentes, rivais ou “inimigos”, com o envolvimento das forças de segurança. Mas, de 14 de Novembro aos nossos dias, em todos os chamados 'casos', a intervenção militar tinha por objectivo, seja alterar as relações de força, seja consolidar a hegemonia de uma das facções, culminando o processo sempre com o afastamento ou, mesmo, a eliminação dos rivais, umas vezes entre as diferentes correntes em luta dentro do PAIGC ou do PRS, outras vezes do PAIGC ou do PRS com os restantes movimentos políticos.
- Mas, além do seu caracter violento, extremamente violento, desrespeitador da dignidade das pessoas, preocupante é a emergência de uma nova filosofia do poder subjacente às intervenções militares:
- De algum tempo para cá, é impressionante a constância de um substrato identitário, tanto no discurso legitimador como nas reivindicações que se lhe seguem, sendo que a intervenção é geralmente encarada e vivida como um acto que se enquadra na missão histórica das Forças Armadas. Por exemplo, a 14 de Novembro, exaltamos os verdadeiros “fidjus di tchom”, tomando os cabo-verdianos como bodes expiatórios.
- Mais recentemente, crentes de uma doutrina miserabilista, segundo a qual os mais “coitadis” são os melhores “fidjus di Guiné”, os golpes de Estado têm sistematicamente consistido numa tentativa de impor o protagonismo político de um grupo étnico, elevando-o ao “rang” seja do Governo, seja da chefia das FA. Infelizmente, se as FARP traduziam a diversidade nacional na sua composição e a unidade nacional na sua actuação e missão, mercê das purgas político-militares que grassam na história recente do país, as casernas guineenses assemelham-se hoje a um “chão/tchom” quase-homogéneo, na perspectiva étnica. Em virtude deste fenómeno, as FA têm agido como vector e por conta das reivindicações políticas de agrupamentos ou associações de pessoas portadoras de uma determinada identidade cultural, com fundamento ora no peso demográfico, ora na missão histórica.
O golpe militar exprime total desconsideração à
vontade popular.
Infelizmente, com o Golpe da Guiné avultam os sinais
denunciando um retrocesso democrático no continente africano. Todavia, se o
golpe de Mali era condenável, por maioria de razoes o é este da
Guiné-Bissau:
- É uma clara intromissão num processo político e eleitoral julgado claro e transparente tanto pelas instâncias jurídicas nacionais como também pelas chancelarias e organismos internacionais;
- Trata-se de uma afronta à CEDEAO e à Comunidade internacional, a poucos dias dos acontecimentos do Mali;
- Manifesta uma inequívoca vontade de interromper as reformas que visam modernizar as FA, torna-las efectivamente republicanas, ou seja, menos permeáveis a ecos políticos e à vontade de grupos sociais, a pôr termo à delapidação do dinheiro público que acontece através de um sistema de despesas opaco e que cresce de maneira insustentável para o orçamento geral do Estado. Por fim, erradicar o envolvimento com o narcotráfico.
A actualidade recente mostra o quanto este golpe
é anti-democrático e tem como único intento defraudar o sufrágio popular.
Pergunte-se: porque é que a Junta Militar tem medo das
populações, dos jovens e das mulheres cujas manifestações são sistematicamente
reprimidas estes dias? Porque é que eles fecham as rádios, o que nunca
aconteceu nestes anos de democracia na Guiné? A resposta é clara: nem a
Junta, nem a sua face politica configurada na CNT são portadores de um projecto
democrático.
Ficando claro que o único objectivo deste golpe
é afastar do poder aqueles que o conquistaram através do sufrágio
eleitoral livre, justo e transparente, pode a comunidade internacional
compactuar com esta atitude? A África e o mundo estão com os olhos postos na
Guiné-Bissau, à espera de um claro sinal no sentido de eliminar os Golpes de
Estado das formas de acesso ao poder.
A Junta Militar não faz parte da solução.
Com que legitimidade a Junta Militar se arroga o direito de
escolher quem deve exercer o poder político? Porque é que, depois de
perpetrar um grave atentado contra a democracia e o Estado de Direito, ainda lhe
assiste o direito de decidir quem Governa o país, sem respeito nenhum pelo
sufrágio popular? A solução para a crise guineense não pode afastar-se da estrita
observância das normas internacionalmente aceites em matéria de convivência
democrática e do acesso ao, e exercício do poder político:
A criação da CNT é uma mascarada através da qual os
golpistas obstinam-se a materializar o objectivo de retirar o poder a quem o
ganhou nas urnas em favor de uma minoria incapaz de enfrentar o jogo
democrático e de aceitar o veredicto das urnas. Quem são os membros da CNT?
Qual é a sua representatividade política? Quantos deputados têm no parlamento?
Qual foi o resultado por eles conquistado nas recentes eleições presidenciais?
A passagem do poder a um eventual CNT consubstancia o mais grosseiro “hold up”
eleitoral e político jamais visto nos nossos países. Como o enfatizou hoje
Maman na sua cronica no RFI, entregar o poder ao CNT consiste em “entregar o
ouro ao bandido”1.
A solução para a crise passa pois por uma firme condenação do
Golpe Militar, o abandono do aventureirismo, o regresso à legalidade, o
respeito pelos resultados eleitorais e pelas instituições legalmente
constituídas, a libertação dos prisioneiros políticos, o regresso ao normal
funcionamento das instituições legítimas, a restauração da liberdade de
imprensa, de opinião, de reunião e de manifestação, e o respeito pelos direitos
humanos.
Os militares não têm nenhuma solução para a crise que eles
próprios despoletaram. Eles são o verdadeiro e o mais agudo problema político
da Guiné, por se consagrarem ao “affairismo”, por erigirem o desacato como o
modo de ser soldado da República, por usarem de assassinatos como filtro
político para escolha de governantes, tendo sempre como objectivo último a
hegemonia étnico-política, a delapidação do erário público, o crime e o
narcotráfico.
Balanço da Governação de Carlos Gomes
Podemos concordar com os analistas que acusam Carlos Gomes
de má gestão das relações políticas e da prática de clientelismo ou de
nepotismo na condução de políticas públicas. Mas, daí a aceitar e
legitimar um golpe de Estado, é preciso não ter a democracia como
convicção para cumprir esse passo.
Além da inaceitável alteração da ordem
constitucional, a escolha de novos governantes denuncia as verdadeiras e
profundas intenções deste golpe militar: promover uma política de reparação
social em favor de uma elite política que se sentia excluída, mas que na
verdade se automarginalizou socialmente, ao recusar qualquer outro emprego que
não seja um cargo governamental (arranjar emprego governamental a pessoas que
nem endereço profissional tinham anteriormente).
Pode-se admitir que o balanço de Carlos Gomes apresenta
défices em matéria de “politics” e de inclusão. Porém, confrontado com o
passivo deixado por aqueles que o precederam, contrariamente ao que muitos
dizem, ele é o único a se ter preocupado com a criação da riqueza, o
crescimento económico, o saneamento das contas públicas e o bem-estar geral das
populações, através de visíveis realizações infra-estruturais, de uma maior
conectividade do país, da promoção de negócios, do pagamento atempado de
salários, do aumento salarial, do fornecimento de meios elementares para o
correcto funcionamento da administração pública. Enquanto os outros, sob a capa
de um igualitarismo de “kakres na kabás”, mas também atabalhoados pela
incompetência e manietados por arranjos clientelistas, delapidaram o erário
público e endividaram de maneira sufocante o país, talvez em “politics”, mas sem
deixar realizações tangíveis em termos de “policy”.
Não sendo perfeito, no entretanto, tínhamos um Governo com
quem se pode falar de desenvolvimento, contrariamente a discursos lunáticos e
inócuos dos seus predecessores, dizem os nossos parceiros de desenvolvimento.
Prosseguia objectivos claros e cumpria com os compromissos, quando no passado a
palavra dada era escamoteada na primeira esquina e oportunidade.
Em jeito de conclusão, diria o seguinte: em primeiro lugar,
constato com tristeza que se tem justificado o golpe e desculpado os golpistas
através de discursos de reparação ou de compensação social. Seja qual for o
balanço que fazemos da Governação de Carlos Gomes, nada justifica um golpe de
Estado, “a fortiori”, nas vésperas da segunda volta das eleições.
Infelizmente,
os golpes que granjeiam a nossa história não têm trazido senão situações
políticas, económicas e sociais mais complexas e mais difíceis para todos. Em
segundo lugar, julgo que o que importa neste momento é o respeito pelo sufrágio
e o regresso à normalidade. Este deve ser seguido de um pacto de regime
inclusivo e portador de esperança às diferentes componentes da sociedade
guineense, tendo sempre em mira a consolidação da unidade nacional e da coesão
social, a consolidação da trajectória para a estabilização, da reforma das forças de
defesa e de segurança, da restauração da ordem pública e do Estado de Direito, da
reconciliação do país com o crescimento económico e da elevação do nível de
bem-estar geral das populações.
Para tanto, em face desta flagrante e inaceitável alteração
da ordem constitucional, a CEDEAO, a ONU, a UA e a UEMOA devem adoptar no caso
guineense, no mínimo, uma atitude similar àquela tida contra os golpistas
malianos: firmeza e tolerância ZERO. Não cabe aos militares arbitrarem
diferendos políticos. Eles devem voltar às casernas e submeter-se ao poder político legitimamente constituído.
Neste momento em que muitos encontram virtudes na actuação
dos militares e em que alguns tentam compreender o golpe de 12 de Abril com
fundamento na inabilidade do Governo no campo do “politics”, por mais que não
gostemos de Carlos Gomes Júnior, ele e o PAIGC venceram as eleições
legislativas, e ele é o vencedor da primeira volta da corrida presidencial.
Os democratas devem respeitar a vontade popular livremente
expressa.
Dibo Miguel - Fidjus di Guiné foronta
1
A Junta e os partidecos da oposição acabaram de assinar o "famoso acordo
de Transiçao". Segundo Handem e Ferreira, este instrumento está ferido de
legitimidade em múltiplos aspectos: A grande maioria dos assinantes não dispõe
de um mandato dos respectivos Partidos, além do facto de que aparecem como
signatários partidos que praticamente já não existem, do ponto de vista legal.
Muitas pessoas assinaram à revelia da direcção dos próprios Partidos. A
ser assim, assinaram enquanto militantes, o que não engaja o próprio partido.
Reparem bem que não existe nenhuma assinatura explícita/assumida por parte do
Comando Militar, salvo melhor explicação. Mas tudo isso traduz apenas a
determinação cega de acesso ao poder, o verdadeiro leitmotiv do golpe.
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