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António de Névada


Não desmerecendo o seu melhor passado e recuperando pela única via poética possível – a da criatividade – a poesia caboverdiana continua a evoluir no sentido do seu aperfeiçoamente estético e espiritual, atualizando-se a partir de energias que emergem também das suas mais fundas e poéticas raízes.
António de Névada é um bom exemplo disso, a julgarmos por Esteira cheia ou o abismo das coisas, uma obra já com 11 anos de idade mas que permanece de uma serena atualidade. As epígrafes e outras referências explícitas apontam um leque sintomático: cultura popular caboverdiana e africana (com uma passagem pela Grécia a propósito da filha do etíope Perseu), John Coltrane, Dante Alighieri, T. S. Eliot (The waste land), Nuno Júdice. Da literatura esrita caboverdiana duas nomeações: João Vário e Corsino Fortes.
João Vário foi um dos casos extraordinários da poesia caboverdiana. A profundidade filosófica, o rigor estético e o poder criativo das suas metáforas trouxeram-nos uma poesia que só hoje vem sendo valorizada na medida própria pelo meio literário local. Infelizmente, essa revalorização não passou ainda para fora, nem sequer para o pequeno e ronceiro meio dos estudados estudiosos da literatura africana lusógrafa.
Corsino Fortes foi um dos mais evidentes e concretos inovadores da poesia caboverdiana, dando-lhe uma poética noção do espaço, da distribuição de versos e palavras no espaço, de realização das sugestões fónico-semânticas das palavras (em passagens que nos lembram o poema-processo e o brasileiro Mário Chamie) e da atualizada globalização dos signos da caboverdianidade.
Em Esteira cheia esta constelação de referências poéticas está viva, incorporada e recriada pelo tom pessoal de Névada. A sua poesia é uma síntese que ultrapassa as referências explícitas e vai mais longe na tradição literária caboverdiana e mundial.
Há, de quando em quando, alguma ganga, alguma palavra a mais, por vezes apenas uma conjunção, ou dispensáveis elementos explícitos de comparação ("tal", "como"). Mas são, felizmente, momentos raríssimos que não chegam, portanto, para dissipar a densidade semiótica e a pujança estética dessa lírica tantas vezes desencantada mas em canto, ressurgindo das sombras das árvores.
São talvez as principais caraterísticas deste livro. O autor escreve porque tem mesmo algo para dizer e di-lo articuladamente (articulado com o conjunto da obra também, com uma leitura atenta da poesia do seu país e do mundo e com a geografia que respira) – de onde lhe vem a densidade semiótica. O equilíbrio estético é notável, apesar das imagens hipertróficas poderem de quando em quando fazer-nos pensar que não. Digo apesar disso porque me parece haver ali um jogo entre o agigantar das analogias (levando, por exemplo, um elemento corriqueiro – vamos supor, o coentro – a uma dimensão cósmica) e o regresso aos fragmentos desanimados do quotidiano dos quais se levanta depois o estro de poeta.
Tematicamente é notável a recorrência do tempo, quase personificado, quase corpóreo – e o quase, mais uma vez, não é de somenos importância, porque de quando em quando se desfaz o 'clic' do encanto jogando a noção térrea de ser o tempo a nossa invenção – como se o poeta nos não deixasse voar muito alto para não cairmos depois muito baixo. A discussão em torno da verossimilhança é outro eixo temático a levar em conta, mesmo porque não demasiado visível, ou melhor, menos visível do que significativo – o que também resulta da arte própria do autor neste livro.
Enfim, uma obra não é passível de se reduzir a uma recensão dela. Apenas alinhavei alguns aspetos e sugiro que se leia. A editora é portuguesa (Angelus novus) e a edição é já de 2000 (o depósito legal). Comprei-a através da livraria digital wook, agregada a uma editora portuguesa também.

Comentários

  1. Talvez fizesse sentido assinalar que tanto esses elementos de comparação (em particular o "tal")como os temas do tempo ou da verosimilhança são justamente herança de João Vário... Ou não lhe parece?

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  2. Agora que leio a sua mensagem, sim, parece-me bem observado, embora tivesse que fazer uma comparação sistemática para conferir.

    Obrigado pelo comentário.

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