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Mensagens

Cendrars e a descolonização da Europa

  A descolonização da Europa: um refluxo globalizante Francisco Soares CITCEM-FLUP-UP Resumo : O artigo persegue uma hipótese clara: a de que a história literária europeia, particularmente o advento dos modernismos, pode ser compreendida, em grande parte, pela articulação dos respetivos países com o processo de globalização dos mercados. Exploro, com mais pormenor, o caso do escritor Blaise Cendrars antes do seu desembarque no Brasil. (i) 1 O processo de globalização dos mercados, para muitos autores, iniciou-se nos séculos XV e XVI, coincidindo com o princípio da expansão marítima e colonial europeia. A partir dessa altura, escritores das colónias, ou de reinos com uma intensa relação com países europeus colonizadores (como era o caso do reino do Kongo), tornavam-se literatos dentro de um sistema de ensino formal (o dos jesuítas, principalmente), inspirado no sistema das universidades europeias e na respetiva divisão dos saberes ( trivium , quadrivium ). Inteligiam das tradições o...

Literatura e marxismo em Angola - apontamento sobre Eugénio Ferreira

  O título «Literatura e marxismo» pode levar as pessoas a pensar que vou refletir sobre a visão que os marxistas possuem da literatura, mas não é isso que vou fazer. Há muitos anos e durante muitos anos, o Dr. Eugénio Ferreira o fez aqui em Angola e esse é o motivo próximo, chegado, pelo qual falo de literatura e marxismo – em Angola. Com maior ou menor conhecimento das obras do próprio Karl Marx, de uma forma geral os nossos autores nacionalistas, em qualquer das gerações anteriores à independência, foram marxistas ou reclamaram-se ou se identificaram publicamente como tal. O marxismo constituiu, portanto, um dos cânones dessa época e a sua vulgata , o que publicamente se divulgava como marxismo, corria na boca de quase todos os candidatos a intelectuais e poetas por aqui.  Podia ter sido um modismo, mas um modismo não dura tanto e, sobretudo, não marca tão estruturalmente uma literatura. Nos países ditos ‘socialistas’, sobretudo naqueles sob influência da URSS, a ligação en...

A função das etiquetas em literatura

  Em estudo recente (“ Preparing for the unknown: How working memory provides a link between perception and anticipated action ”) publicado na revista NeuroImage por Marlene Rösner e outros, aborda-se como funciona e que funções desempenha a chamada ‘memória de trabalho’, equiparada à memória a curto prazo. Firma-se, entre outras conclusões, que O que armazenamos na memória de trabalho não é apenas a representação mental de impressões sensoriais do passado. Também inclui informação sobre qual o objetivo atual que perseguimos ou qual a ação futura ou operação mental que queremos realizar. O conteúdo da memória de trabalho pode portanto ser visto não só como cópias de informação sensorial, mas também como um planeador mental que seleciona a melhor opção para a situação em questão entre todas as opções. É para este “planeador mental” (ou planejador mental) que se dirigem as etiquetas dos livros, como por exemplo “romance”, “ensaio”, “poesia”, etc. Elas ativam na memória de trabalho u...

Poemas de massemba

Massemba é uma palavra polissémica. O seu historial está resumido aqui e um bom exemplo, dos cantos que orientavam a dança, pode ser visto aqui também .  A massemba  - no conjunto do seu campo semântico e especificamente com o significado de festa, batuque, baile - tornou-se de referência central, incontornável, para a vida em Luanda no século XIX e, sobretudo, na segunda metade.  A dança evoca tanto passos europeus de danças de salão quanto passos locais e, no seu conjunto, um ritual de conhecimento com enamoramento, possivelmente com final feliz e sem sentido de posse ou de ciúme. Tendo isto em mente, comentando os poemas bilingues do século XIX em Angola, resolvi chamá-los de 'poemas de massemba' - apesar de só um deles (o do português Eduardo Neves) mencionar explicitamente o "batuque".  Que poemas são esses? O núcleo duro é constituído por três composições. A que julgo ter sido a primeira, foi publicada em 1878 no Jornal de Loanda , subscrita por João Eusébio ...

Então vamos beber água

Um mito recorrente, seja na 'África negra' ou para 'o resto do mundo', é o de que as canções tradicionais, as adivinhas, os provérbios, só devem ser interpretados por membros das comunidades tradicionais, iniciados (ou seja: preparados para a vida) nelas, pois só eles conhecem a 'verdadeira' mensagem e a correta interpretação dos textos orais, etecetera. Isso mais afasta que aproxima. Nas pequenas comunidades rurais, é comum que haja uma interpretação tradicional que encaminha e limita a leitura um sentido único, moralmente respeitável e conveniente para condicionar as crianças aos comportamentos que delas esperam os mais velhos. Em grandes cidades, porém, isso não sucede. No mundo globalizado também não. As interpretações estão libertas de condicionamentos prévios. Isso pode induzir em desvios de interpretação que a semiótica não aconselharia. Mas os desvios se corrigem por uma análise rigorosa do texto e das 'realidades' por ele convocadas. De resto, h...

Como estudar a formação de uma literatura - a angolana, no caso -

estabelecer fronteiras e datas e identidade fixa, ou compreender e conhecer como se foram formando textos, leituras, comunidades e, depois, sistemas literários nos vários países? Ou seja: por uma leitura identitária, militante, marcada, ou por uma leitura do processo de crioulização no qual as literaturas se vão formando a partir de contributos vários? COMO ESTUDAR A FORMAÇÃO DE UMA LITERATURA - A ANGOLANA, NO CASO https://www.youtube.com/embed/TW-YEOfRgnU Na sequência desse vídeo, tiram-se várias conclusões. A principal é a de que não se pode estudar uma literatura sem a perceber em diálogo, tenso e contraditório, com as outras. É claro que uma literatura própria tem continuidades próprias, aliás constantemente chamo a atenção para isso. São mesmo estas continuidades que entram em diálogo e se renovam conversando ou confrontando outras.  No caso da Literatura Angolana, houve outra literatura incrustrada no seu território, no território no qual a respetiva comunidade de autores e d...