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Mensagens

A flor do bar de Tomás Vieira da Cruz

  Na introdução que escrevi para a edição da obra poética de vocação angolana de Tomás Vieira da Cruz ("poeta do amor e da África"), mencionava que "os seus primeiros poemas publicados em Angola, nos quais a referência africana é ainda escassa ou nula, seguem geralmente estruturas tradicionais portuguesas, como a da quadra popular." Em seguida faço uma nota e remeto para algumas referências, incluindo uma revista Desportine . Essa referência, metida no meio das outras, induzia em erro, levando leitores a pensar que se trataria de um poema (e, de facto, nessa publicação - como em Os Desportos , que se lhe seguiu logo - há poemas exemplificativos do que digo). Convém, portanto, esclarecer. A minha frase apontava (foco principal) as "estruturas tradicionais portuguesas, como a da quadra popular", mas também as peças nas "quais a referência africana é ainda escassa ou nula". Era a propósito da emergência de referências africanas, ainda escassas, qu...

Harpas eólias no Tombo de Cordeiro da Mata

No Novo almanach de lembranças para 1892 (p. 438) publica-se um poema, «Sob palmeiras», de J. D. Cordeiro da Mata. O poeta localiza-se no "Tombo - Margens do Quanza" (um pequeno porto, que servia para ligar e intermediar o comércio do interior com Dondo e Luanda). É um dos exemplares de uma curta série quase mística, se não mesmo mística, tendo o poeta passado nesses dias por alguma experiência interior importante. Lendo o poema se percebe o meu quase e o seu místico:  Como d'alma no intimo  eu t'amo, doce sombra!  Como o peito, de jubilo  pulsa – grato – n'alfombra!...  Oh! doce ar  que ao peito enfermo  de gosos ermo  vens vida dar;  deixa as harpas eólias os doces sons vibrar...  Que só de Eolo a musica  sabe o triste alegrar...  Oh! ar que passas célere  entre as franças arfando,  tu me deixas extactico  teus gemidos 'scutando...  Essa harmonia  angelical,  tem perennal,  p'renal poesia....

Falas e contações - apontamento genológico

  Em tempos hoje recuados, Luandino Vieira chamava de “estórias” as suas narrativas. Ele talvez se inspirasse na diferença entre story e history , mas a sua atitude tinha um antecendente, nesse tempo ainda próximo. Em Cabo Verde, António Aurélio Gonçalves, por alguns considerado o maior, ou um dos maiores contistas africanos, chamava as suas narrativas de “noveletas”. Nem contos, nem novelas, portanto, mas “noveletas”.   As designações dão sinal da clara desadequação entre as divisões clássicas dos géneros literários europeus, as divisões tradicionais dos géneros das oraturas, e a produção contemporânea escrita, que se coloca nem numa nem na outra dessas ‘divisões’ com seus generais e suas marchas militares. As aproximações à linguagem quotidiana e citadina tiveram mais relação com isso do que se pensa quando se nota que o facto não costuma ser referido nesse contexto. Por outro lado, a nossa focagem desse processo fica desfocada por uma crítica fixada no princípio de que...

Antologias no século XXI: para quê? para quem? Sessão no CITCEM da Fac. de Letras da Univ. do Porto

Com que sentido, propósito e contexto em vista os antologiadores antologiam? Quais as motivações? Após a publicação, que reflexões suscitam comentários e análises? Qual o tipo de cobertura que se pretendia com cada antologia?  Estas questões nos orientaram na Oficina de investigação científica   do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória ) da Fac. de Letras da Univ. do Porto, a convite do Prof. Francisco Topa. A reprodução das falas: Participação angolana: Abreu Paxe, Carlos Ferreira, Francisco Soares (por ordem alfabética)

Apontamento sobre a pregação de D.ª Beatriz Kimpa Vita

  (retrato de D.ª Beatriz extraído ao relatório de Bernardo da Gallo. V.  L. Jadin, « Le Congo et la secte des Antoniens », in  Bull, de l’Inst. Hist. Belge de Rome,  fasc. XXXIII (1961). Foto reproduzida em  https://www.ufrgs.br/africanas/beatriz-kimpa-vita-1684-1706/ )   Em várias passagens referi já o caso de D.ª Beatriz Kimpa Vita, figura precoce extraordinária e que terá gozado de dotes oratórios invulgares. O que nos pode interessar, numa abordagem das zonas de sombra da formação de uma comunidade literária e de suas margens, é o que deriva da sua colocação, do seu lugar entre a cultura escrita do Livro (ou seja, da Bíblia , que circulava, por fragmentos e interpretações-traduções, na oralidade), e uma tessitura de oralidade e de iconicidade na qual se cruzavam referências bíblicas, do cristianismo europeu, com o sistema de crenças, de ritos e de valores do antigo reino do Kongo (Congo), já de si uma plataforma de ascendências várias (as loc...

Exílios - aos amigos moçambicanos

  EXÍLIOS: COMEÇO POR AGRADECER     Aos meus amigos moçambicanos. A Gabriela Ruivo Trindade A Nara Vidal A Japone Arijuane À FILQ     Boa tarde e boa noite.   Começo por agradecer a todas as pessoas aqui presentes e às que tornaram possível este encontro. Segue um abraço especial de parabéns para Amosse Mucavele e seus companheiros pela dedicação à causa áspera e forte (Humberto da Silvan), nobre e acre da literatura e, em particular, à causa da literatura em Moçambique.   Parafraseando Tomás Jorge, hoje a minha voz é de búzio […] hoje não trago nada para dizer . A nossa história foi tecida com prisões, exílios e combates. É por isso difícil aprendermos a paz. A paz interior, a que não precisa de ordem, mas de liberdade e de harmonização. Do regresso da ausência de si mesmo (Henrique Guerra).   São geralmente conhecidos os principais exílios da luta pela independência, na tentativa de resgatar o que não foi poss...