Em várias passagens referi já o caso de D.ª Beatriz Kimpa Vita,
figura precoce extraordinária e que terá gozado de dotes oratórios invulgares.
O que nos pode interessar, numa abordagem das zonas de sombra da formação de
uma comunidade literária e de suas margens, é o que deriva da sua colocação, do
seu lugar entre a cultura escrita do Livro (ou seja, da Bíblia, que
circulava, por fragmentos e interpretações-traduções, na oralidade), e uma
tessitura de oralidade e de iconicidade na qual se cruzavam referências
bíblicas, do cristianismo europeu, com o sistema de crenças, de ritos e de
valores do antigo reino do Kongo (Congo), já de si uma plataforma de
ascendências várias (as locais e as de além Zaire, a norte – ao menos essas
duas). A criação religiosa que ela vai marcar – o antonianismo – é também uma
criação textual e uma criação textual entre escritas e oralidades. O que me
interessa aqui é a criação textual.
Uma criação textual nunca surge do nada. O próprio mundo o
percebemos como um texto e dessa perceção tiramos tessituras verbais ou
visuais. Mas vivemos numa semiosfera – seja qual for – onde a criação textual é
uma proposta e uma resposta inserida em uma ou várias séries. O caso em estudo
se insere numa série já ela resultante de outras duas – as que citei nos
parágrafos acima. Exemplifico:
O culto kimpasi, tal como retratado por John Thornton,
se dá num lugar próprio, cuja escolha (ermo, isolado) e organização nada têm de
ocasional. Esse lugar é encimado por uma cruz. A cruz tem um duplo significado:
o cristão, particular, e o geral, humano, de cruzamento entre este e o outro
mundo
Parece que D.ª Beatriz proibiu o culto da cruz mais tarde, mas
essa decisão, como várias das suas atitudes e palavras, é, pelo menos,
ambivalente. Justificou-se porque tinha sido a cruz o instrumento para a morte
de Cristo, mas a cruz era também, além de símbolo cristão, como vimos, um
símbolo superior do kimpasi, ritual operado em lugares secretos,
recolhidos, ermos. A proibição de venerar a cruz – se de facto existiu, se não
foi qualquer outra decisão ou frase manipulada por capuchinhos – ganha em ser
vista à luz do Novo Testamento e à luz do kimpasi, que também não
sabemos se ela rejeitou verdadeiramente. O que nos interessa é que a cruz
encima o lugar do kimpasi e que, no ritual, os iniciados passam por uma aprendizagem
também, na qual aprendem uma nova linguagem. Segundo Thornton, essa linguagem
resultaria de mudanças subtis na língua kikongo que podiam torná-la, em certas
passagens, ininteligível
O ponto crucial nos dará o sentido da sua fala, a possível
interpretação extensional e, simultaneamente, sinais dessa outra linguagem.
Para isso contribuirá também o conhecimento da progressão do kimpasi. O
instante do kimpasi (dando à palavra o significado acima definido) é
aquele em que o iniciado, ou a iniciada, entra em transe profundo, interpretado
como a morte, e depois desperta, ressuscita, mas incorporando uma energia nova,
correspondente a uma entidade antiga, espírito forte de um ‘mais velho’, um nkita
protetor do lugar, ou seja: ressuscita sendo já outra pessoa, empoderada, que
irá restaurar a ordem social e ritual. Também aqui há, fluídas e ténues embora,
interseções com o cristianismo, centrado sobre a figura salvífica da travessia
da morte e da consequente ressurreição. A pregação nos traduzirá, portanto, a
passagem para a restauração do reino. É a energia verbal da nova (e antiga)
entidade, com traços linguísticos próprios, resultantes ainda do ritual.
Quando falou com ela, já presa e pouco antes da sua condenação,
fr. Bernardo da Gallo estranhou-lhe as respostas, que dariam larga base a uma
condenação. Ela disse-lhe que era “Santo António vindo do Céu”
Da Gallo pergunta-lhe: “Mas se tu és uma mulher, como podes tu
ser Santo António?”. O padre estaria somente a provocar respostas
incriminadoras ou, por cima disso, desconhecia o facto de as entidades não
serem sexuadas, pondendo portanto incorporar-se em corpos masculinos ou
femininos. A princesa não estaria, portanto, preocupada com a pergunta e
retorquiu: “Santo António entrou na minha cabeça para pregar em Kibangu”.
Parece-me uma confissão clara para quem conhecesse por dentro o ritual do kimpasi
– não seria o caso de Da Gallo. Entrou na cabeça para pregar, o que se conota
com a nova linguagem proporcionada pelo ritual. Ainda se note que era a mbanza Kibangu
o centro histórico e dinástico do poder do rei D. Pedro IV, já sagrado em
Mbanza Kongo e que, afrontado pelo seu último rival, achou mais prudente
retirar-se para a sede do seu poder originário, dali saindo já,
definitivamente, como rei único – apesar da morte da profetisa, que terá
estado, em certo momento, do lado de um dos rebeldes, antigo aliado tácito de
D. Pedro IV e a seu mando ocupante de Mbanza Kongo
Da sua pregação, porém, pouco nos resta. O que sabemos deriva
sobretudo das transcrições dos religiosos europeus, sobretudo Bernardo Da Gallo.
Fr. Bernardo resume o teor do sermões da profetiza a isto
Santo António é o santo mais importante. Só a ele o povo deve rezar. Os devotos de Santo António vão descobrir dentro em pouco que no Congo também existem santos como Santo António. Jesus nasceu em S. Salvador do Congo. Jesus e Maria eram congoleses.
Mas o mais importante para nós é que o frade capuchinho
transcreveu, apesar de horrorizado, a versão antoniana (ou seja, feita por Dª
Beatriz) da Salvé Rainha, que seria chamada Salvé Antoniana.
Vamos então concentrar-nos nesse texto, que transcrevo por não ser
excessivamente longo. Sigo a tradução de Arlindo Correia
Salve, dizeis vós e não sabeis porquê. Salve, recitais e não sabeis porquê. Salve pancada, e não sabeis porquê. Deus quer a intenção, é na intenção que Deus pega. O casamento não serve para nada, é na intenção que Deus pega. O batismo não serve para nada, é na intenção que Deus pega. A confissão não serve para nada, é na intenção que Deus pega. A oração não serve para nada, Deus quer é a intenção. A Mãe e o filho na ponta do joelho. Se não fosse Santo António, o que teriam de fazer? Santo António é que tem piedade, Santo António é o nosso remédio, Santo António é o restaurador do Reino do Congo, Santo António é o consolador do reino do céu. Santo António é ele mesmo a porta do céu. Santo António tem as chaves do céu. Santo António está acima dos Anjos e da Virgem Maria. Santo António é ele mesmo o segundo Deus.
Lendo agora o texto, certamente concordarão comigo que isto não
parece uma versão da Salvé Rainha, mas antes uma resposta. Repare-se nas
primeiras duas frases, que formam uma estrutura paralelística (a única
introdução de informação deriva de substituir o “dizeis” pelo “recitais”)
apontando contra a reprodução mecânica da oração por parte de “vós”, que fazeis
isso “e não sabeis porquê”. A razão das orações havia de ser outra, “porque
Deus quer a intenção”, elas ordenam a mente no sentido da intenção, palavra que
será o mote de todo o resto desta primeira parte da resposta. Não valem nada os
ritos e cerimónias, os protocolos e convenções quando não se tem por motivo, ou
por objetivo, uma intenção pura. Pelo que se conclui que a própria “oração”
(portanto, a própria “Salvé Rainha”) não vale nada se não for animada por uma
intenção pura. Ou seja: o que está em jogo não é criar uma oração para
substituir outra, mas impugnar todas as convenções mecanicamente repetidas pelo
facto de serem ditas sem convicção, por não serem vividas. O discurso é,
também, para além de paralelístico e repetitivo, direto, incisivo, curto. Nada
mais oposto à retórica barroca e luxuriante, quer do pouco que sabemos acerca
das práticas discursivas no reino do Kongo de então, quer do muito que sabemos
das práticas escritas e das artes visuais na Europa e no Brasil contemporâneos
(de Kimpa Vita). Faz-se ouvir uma voz de comando e denúncia. Imperativa, sem
concessões, assertiva e sucinta.
Como sucede com a Avé Maria, aqui também temos um texto
com duas partes. Ambas as partes apresentam recursos estilísticos semelhantes,
sobretudo a figura da repetição. Na segunda metade a repetição serve para
definir o lugar e a função do divino Santo António, “restaurador do Reino do
Congo”. A passagem de uma para outra parte é confusa: “a Mãe e o filho na ponta
do joelho. Se não fosse Santo António o que teriam de fazer?”. Há um referente,
ali, que me escapa. Efeitos da mudança linguística referida por Thornton?
Nesta segunda parte, as duas primeiras frases são canónicas: o
santo é louvado e a ele se apela por ser piedoso e por ser um “remédio”. A
última palavra traz ambivalência no contexto, mas era muito usada em toda a
cristandade, associada a este santo (e a outras entidades). A heresia, a
variação, a inovação chega depois, numa estrutura nesse aspeto diversa da
primeira parte, porque forma uma sequência ascendente: o Santo passa a
restaurador do Congo, logo em seguida (por isso?) consolador do próprio “reino
do céu”, depois a “porta do céu”, de quem também ele tem “as chaves”, ascendendo
no panteão celeste acima dos Anjos e da Virgem Maria e colocando-se como
segundo Deus – o que trazia a ressurreição, a vida nova para a humanidade, a
partir da restauração do reino do Kongo e graças às suas virtudes.
Esta mescla, de valores e de hierarquias ora católicos ora
heréticos (animistas), numa progressão que leva da humildade ao segundo Deus,
pode ser tomada como exemplo de nacionalismo ou de nativismo, porém não deixa
de ser uma mescla muito bem feita e muito própria e muito complexa, não podendo
reduzir-se à intenção (Deus quer a intenção, mas não essa) política imediata.
Essa mescla também mistura fontes escritas e fontes orais, tradições animistas
e tradições bíblicas, estabelecendo um discurso inovador na fronteira entre as
duas semiosferas.
Claro, há mais do que isso, há o propósito de renovação da
própria Igreja, porque a igreja trazida nos navios adulterou-se (ou vinha
adulterada), perdeu a necessária coerência entre o que prega e o que faz. A
nova igreja, autêntica porque baseada na intenção e não na convenção (portanto
a sua autenticidade tem uma raiz que não é propriamente nacional mas pessoal,
interior), a nova igreja irromperá no reino do Congo a partir do culto do
“segundo Deus”, o restaurador. A interpretação messiânica não era desconhecida
nem de reinos cristãos nem da expansão portuguesa. É messiânica a missão dos
portugueses no Oriente se lermos Os Lusíadas e apesar do final
desencantado da epopeia. Messiância foi a tentativa de ressurreição da França
por Joana d’Arc. E é sugestiva a comparação de Beatriz Kimpa Vita com a santa
francesa: ambas foram condenadas à morte na fogueira – e mortas assim. Joana
d’Arc envolveu-se na política da época também, sendo as duas muito religiosas.
O seu envolvimento visava restaurar a unidade e o poder do reino afetado por divisões
em torno da sucessão dinástica, desmoralizados, enfraquecidos. Joana d’Arc
ouviu vozes e teve visões, Beatriz Kimpa Vita incorporou uma entidade
espiritual que falava por ela. Joana d’Arc vestiu-se de soldado, a profetisa
congolesa incorporou uma entidade masculina, possivelmente um rei-soldado, um
rei combatente. Ambas eram carismáticas e mobilizadoras. As duas foram presas
na sequência das rivalidades políticas e militares em que se envolveram. Quais
as diferenças? Uma era filha de camponeses e artesãos, a outra filha de nobres;
uma se tornou santa oficial (ainda que só no século XX); a outra só
clandestinamente.
Estas semelhanças não querem dizer que Dª Beatriz tenha imitado
a heroína francesa. Conjugadas às diferenças elas assinalam, primeiro, processos
típicos de mistificação política heterodoxa para a época, processos que teriam
no padre António Vieira uma formulação mais complexa, intelectual e requintada
(imaginando-se D. João IV como uma espécie de reencarnação de D. Sebastião);
segundo, procedimentos diferentes da hierarquia da igreja na posterioridade,
conforme se estivesse na Europa ou em África, possivelmente relacionados também
com o facto de Joana d’Arc não ter inovado tanto nem definido nenhum “segundo
Deus”. O que fica, porém, na tradição poética ou literária? A transcrição de um
discurso forte, incisivo, curto mas alicerçado em repetições ou paralelismos de
uma grande profundidade ou de grande alcance humano (primeira parte do texto) e
político-religioso (segunda parte do texto).
Campos, Fernando. 1995-1996. O rei D. Pedro IV Ne Nsamu a Mbemba e a unidade do
Kongo. África. 1995-1996, Vols. 18-19 (1), pp. 159-199.
Correia,
Arlindo. 2018. Dona
Beatriz Kimpa Vita. O Reino do Kongo. [Online] nov de 2018. [Citação: 3
de out de 2021.] http://arlindo-correia.com/140807.html#Dona_Beatriz.
Thornton, John. 2009. The Kongolese Saint
Anthony: Dona Beatriz Kimpa Vita and the Antonian movement, 1684-1706. 11ª. New York : CUP, 2009. ISBN
978-0-521-59649-7.

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