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Apontamento sobre a pregação de D.ª Beatriz Kimpa Vita

 

(retrato de D.ª Beatriz extraído ao relatório de Bernardo da Gallo. V. L. Jadin, « Le Congo et la secte des Antoniens », in Bull, de l’Inst. Hist. Belge de Rome, fasc. XXXIII (1961). Foto reproduzida em https://www.ufrgs.br/africanas/beatriz-kimpa-vita-1684-1706/) 


Em várias passagens referi já o caso de D.ª Beatriz Kimpa Vita, figura precoce extraordinária e que terá gozado de dotes oratórios invulgares. O que nos pode interessar, numa abordagem das zonas de sombra da formação de uma comunidade literária e de suas margens, é o que deriva da sua colocação, do seu lugar entre a cultura escrita do Livro (ou seja, da Bíblia, que circulava, por fragmentos e interpretações-traduções, na oralidade), e uma tessitura de oralidade e de iconicidade na qual se cruzavam referências bíblicas, do cristianismo europeu, com o sistema de crenças, de ritos e de valores do antigo reino do Kongo (Congo), já de si uma plataforma de ascendências várias (as locais e as de além Zaire, a norte – ao menos essas duas). A criação religiosa que ela vai marcar – o antonianismo – é também uma criação textual e uma criação textual entre escritas e oralidades. O que me interessa aqui é a criação textual.

Uma criação textual nunca surge do nada. O próprio mundo o percebemos como um texto e dessa perceção tiramos tessituras verbais ou visuais. Mas vivemos numa semiosfera – seja qual for – onde a criação textual é uma proposta e uma resposta inserida em uma ou várias séries. O caso em estudo se insere numa série já ela resultante de outras duas – as que citei nos parágrafos acima. Exemplifico:

O culto kimpasi, tal como retratado por John Thornton, se dá num lugar próprio, cuja escolha (ermo, isolado) e organização nada têm de ocasional. Esse lugar é encimado por uma cruz. A cruz tem um duplo significado: o cristão, particular, e o geral, humano, de cruzamento entre este e o outro mundo (Thornton, 2009 p. 56). No caso particular, esse cruzamento é pensado de acordo com rituais locais, protagonizados pelos ngangas, intermediários entre as linguagens deste e do outro mundo. Mas a simbologia da cruz, mesmo no cristianismo, não deriva só da crucificação de Cristo. O cristianismo absorveu a simbolização arcaica e a posterior (ou contemporânea) gnóstica de cruzamento entre o eixo horizontal (o da extensão, o deste mundo, o da sintaxe na linguística de Jakobson) e o eixo vertical (o da ligação direta com o além, o superior, o transcendente, o sol que influi sobre a terra, o espírito que nos fala, a parataxe e o paradigma). A revelação mística se dá no ponto crucial em que o eixo vertical incide sobre o nó da sua ligação ao horizontal. A extensão, a horizontalidade desse encontro, desenvolve crenças e filosofias e teologias, organiza hierarquias religiosas, ritos e leis. A intensão remete-nos a novo silêncio, à expectação, à preparação pessoal para receber um novo influxo, uma nova fala, um novo paradigma, uma nova mensagem – que na extensão se traduzirá. O eixo vertical é o do instante; o horizontal é o do tempo. O instante intervém no tempo como factor de mudança, mudança de rumo (ou tentativa disso). O ritual do kimpasi, que era o de Dª Beatriz, era um dos rituais que preparava a emanação instantânea sobre a temporalidade com o fito de regenerar e, portanto, mudar o rumo, reorientar, restaurar a espiritualidade ou a verdade, o reino, ou a paz, na mundanidade, na história e sobre os desvios conducentes à guerra desastrosa. É importante compreendermos isto para definirmos o ponto crucial da sua pregação, que estaria ubicada na incorporação do eixo vertical, de uma entidade espiritual que estaria nela como Deus estava em Cristo.

Parece que D.ª Beatriz proibiu o culto da cruz mais tarde, mas essa decisão, como várias das suas atitudes e palavras, é, pelo menos, ambivalente. Justificou-se porque tinha sido a cruz o instrumento para a morte de Cristo, mas a cruz era também, além de símbolo cristão, como vimos, um símbolo superior do kimpasi, ritual operado em lugares secretos, recolhidos, ermos. A proibição de venerar a cruz – se de facto existiu, se não foi qualquer outra decisão ou frase manipulada por capuchinhos – ganha em ser vista à luz do Novo Testamento e à luz do kimpasi, que também não sabemos se ela rejeitou verdadeiramente. O que nos interessa é que a cruz encima o lugar do kimpasi e que, no ritual, os iniciados passam por uma aprendizagem também, na qual aprendem uma nova linguagem. Segundo Thornton, essa linguagem resultaria de mudanças subtis na língua kikongo que podiam torná-la, em certas passagens, ininteligível (Thornton, 2009 p. 57). Este influxo sobre a linguagem não será dos menos importantes na sua palavra.

O ponto crucial nos dará o sentido da sua fala, a possível interpretação extensional e, simultaneamente, sinais dessa outra linguagem. Para isso contribuirá também o conhecimento da progressão do kimpasi. O instante do kimpasi (dando à palavra o significado acima definido) é aquele em que o iniciado, ou a iniciada, entra em transe profundo, interpretado como a morte, e depois desperta, ressuscita, mas incorporando uma energia nova, correspondente a uma entidade antiga, espírito forte de um ‘mais velho’, um nkita protetor do lugar, ou seja: ressuscita sendo já outra pessoa, empoderada, que irá restaurar a ordem social e ritual. Também aqui há, fluídas e ténues embora, interseções com o cristianismo, centrado sobre a figura salvífica da travessia da morte e da consequente ressurreição. A pregação nos traduzirá, portanto, a passagem para a restauração do reino. É a energia verbal da nova (e antiga) entidade, com traços linguísticos próprios, resultantes ainda do ritual.

Quando falou com ela, já presa e pouco antes da sua condenação, fr. Bernardo da Gallo estranhou-lhe as respostas, que dariam larga base a uma condenação. Ela disse-lhe que era “Santo António vindo do Céu” (Correia, 2018). Se ligarmos a afirmação com o ritual do kimpasi, no qual a incorporação da entidade se faz para toda a vida (não é momentânea), podemos postular que ela tenha incorporado o nkita com esse nome. Pertencendo à nobreza e desde nova escutando os relatos das guerras civis e da destruição do reino, ela pode ter incorporado o próprio D. António, que morreu às mãos do exército colonial (chefiado por Luís Lopes de Sequeira) na batalha de Ambuíla, a 29.10.1665. É sintomático Luís Lopes de Sequeira, filho da terra e mestiço, criado em Massangano e Muxima, ter decidido cortar a cabeça do rei para expô-la em Luanda. Isso evitava que se criasse a lenda ‘sebástica’ do seu regresso. Mas a lenda criou-se, porque o regresso era espiritual, era o regresso do seu espírito incorporado em alguém. O ritual de incorporação duradoura era o do kimpasi, que a nganga marinda Dª Beatriz tinha sofrido.

Da Gallo pergunta-lhe: “Mas se tu és uma mulher, como podes tu ser Santo António?”. O padre estaria somente a provocar respostas incriminadoras ou, por cima disso, desconhecia o facto de as entidades não serem sexuadas, pondendo portanto incorporar-se em corpos masculinos ou femininos. A princesa não estaria, portanto, preocupada com a pergunta e retorquiu: “Santo António entrou na minha cabeça para pregar em Kibangu”. Parece-me uma confissão clara para quem conhecesse por dentro o ritual do kimpasi – não seria o caso de Da Gallo. Entrou na cabeça para pregar, o que se conota com a nova linguagem proporcionada pelo ritual. Ainda se note que era a mbanza Kibangu o centro histórico e dinástico do poder do rei D. Pedro IV, já sagrado em Mbanza Kongo e que, afrontado pelo seu último rival, achou mais prudente retirar-se para a sede do seu poder originário, dali saindo já, definitivamente, como rei único – apesar da morte da profetisa, que terá estado, em certo momento, do lado de um dos rebeldes, antigo aliado tácito de D. Pedro IV e a seu mando ocupante de Mbanza Kongo (Campos, 1995-1996). Dª Beatriz pregava a reunificação e a ressurreição do reino que, desde a morte de D. António I em Ambuíla (Mbwila), nunca mais tivera sucessão consensual, ou rei único mesmo que imposto. Portanto parece confirmar-se a hipótese de que ela tivesse incorporado o nkita D. António, que fosse D. António a sua voz.  

Da sua pregação, porém, pouco nos resta. O que sabemos deriva sobretudo das transcrições dos religiosos europeus, sobretudo Bernardo Da Gallo. Fr. Bernardo resume o teor do sermões da profetiza a isto (Correia, 2018):

 

Santo António é o santo mais importante. Só a ele o povo deve rezar. Os devotos de Santo António vão descobrir dentro em pouco que no Congo também existem santos como Santo António. Jesus nasceu em S. Salvador do Congo. Jesus e Maria eram congoleses.

 

Mas o mais importante para nós é que o frade capuchinho transcreveu, apesar de horrorizado, a versão antoniana (ou seja, feita por Dª Beatriz) da Salvé Rainha, que seria chamada Salvé Antoniana. Vamos então concentrar-nos nesse texto, que transcrevo por não ser excessivamente longo. Sigo a tradução de Arlindo Correia (Correia, 2018):

 

Salve, dizeis vós e não sabeis porquê. Salve, recitais e não sabeis porquê. Salve pancada, e não sabeis porquê. Deus quer a intenção, é na intenção que Deus pega. O casamento não serve para nada, é na intenção que Deus pega. O batismo não serve para nada, é na intenção que Deus pega. A confissão não serve para nada, é na intenção que Deus pega. A oração não serve para nada, Deus quer é a intenção. A Mãe e o filho na ponta do joelho. Se não fosse Santo António, o que teriam de fazer? Santo António é que tem piedade, Santo António é o nosso remédio, Santo António é o restaurador do Reino do Congo, Santo António é o consolador do reino do céu. Santo António é ele mesmo a porta do céu. Santo António tem as chaves do céu. Santo António está acima dos Anjos e da Virgem Maria. Santo António é ele mesmo o segundo Deus.

 

Lendo agora o texto, certamente concordarão comigo que isto não parece uma versão da Salvé Rainha, mas antes uma resposta. Repare-se nas primeiras duas frases, que formam uma estrutura paralelística (a única introdução de informação deriva de substituir o “dizeis” pelo “recitais”) apontando contra a reprodução mecânica da oração por parte de “vós”, que fazeis isso “e não sabeis porquê”. A razão das orações havia de ser outra, “porque Deus quer a intenção”, elas ordenam a mente no sentido da intenção, palavra que será o mote de todo o resto desta primeira parte da resposta. Não valem nada os ritos e cerimónias, os protocolos e convenções quando não se tem por motivo, ou por objetivo, uma intenção pura. Pelo que se conclui que a própria “oração” (portanto, a própria “Salvé Rainha”) não vale nada se não for animada por uma intenção pura. Ou seja: o que está em jogo não é criar uma oração para substituir outra, mas impugnar todas as convenções mecanicamente repetidas pelo facto de serem ditas sem convicção, por não serem vividas. O discurso é, também, para além de paralelístico e repetitivo, direto, incisivo, curto. Nada mais oposto à retórica barroca e luxuriante, quer do pouco que sabemos acerca das práticas discursivas no reino do Kongo de então, quer do muito que sabemos das práticas escritas e das artes visuais na Europa e no Brasil contemporâneos (de Kimpa Vita). Faz-se ouvir uma voz de comando e denúncia. Imperativa, sem concessões, assertiva e sucinta.

Como sucede com a Avé Maria, aqui também temos um texto com duas partes. Ambas as partes apresentam recursos estilísticos semelhantes, sobretudo a figura da repetição. Na segunda metade a repetição serve para definir o lugar e a função do divino Santo António, “restaurador do Reino do Congo”. A passagem de uma para outra parte é confusa: “a Mãe e o filho na ponta do joelho. Se não fosse Santo António o que teriam de fazer?”. Há um referente, ali, que me escapa. Efeitos da mudança linguística referida por Thornton?

Nesta segunda parte, as duas primeiras frases são canónicas: o santo é louvado e a ele se apela por ser piedoso e por ser um “remédio”. A última palavra traz ambivalência no contexto, mas era muito usada em toda a cristandade, associada a este santo (e a outras entidades). A heresia, a variação, a inovação chega depois, numa estrutura nesse aspeto diversa da primeira parte, porque forma uma sequência ascendente: o Santo passa a restaurador do Congo, logo em seguida (por isso?) consolador do próprio “reino do céu”, depois a “porta do céu”, de quem também ele tem “as chaves”, ascendendo no panteão celeste acima dos Anjos e da Virgem Maria e colocando-se como segundo Deus – o que trazia a ressurreição, a vida nova para a humanidade, a partir da restauração do reino do Kongo e graças às suas virtudes.

Esta mescla, de valores e de hierarquias ora católicos ora heréticos (animistas), numa progressão que leva da humildade ao segundo Deus, pode ser tomada como exemplo de nacionalismo ou de nativismo, porém não deixa de ser uma mescla muito bem feita e muito própria e muito complexa, não podendo reduzir-se à intenção (Deus quer a intenção, mas não essa) política imediata. Essa mescla também mistura fontes escritas e fontes orais, tradições animistas e tradições bíblicas, estabelecendo um discurso inovador na fronteira entre as duas semiosferas.

Claro, há mais do que isso, há o propósito de renovação da própria Igreja, porque a igreja trazida nos navios adulterou-se (ou vinha adulterada), perdeu a necessária coerência entre o que prega e o que faz. A nova igreja, autêntica porque baseada na intenção e não na convenção (portanto a sua autenticidade tem uma raiz que não é propriamente nacional mas pessoal, interior), a nova igreja irromperá no reino do Congo a partir do culto do “segundo Deus”, o restaurador. A interpretação messiânica não era desconhecida nem de reinos cristãos nem da expansão portuguesa. É messiânica a missão dos portugueses no Oriente se lermos Os Lusíadas e apesar do final desencantado da epopeia. Messiância foi a tentativa de ressurreição da França por Joana d’Arc. E é sugestiva a comparação de Beatriz Kimpa Vita com a santa francesa: ambas foram condenadas à morte na fogueira – e mortas assim. Joana d’Arc envolveu-se na política da época também, sendo as duas muito religiosas. O seu envolvimento visava restaurar a unidade e o poder do reino afetado por divisões em torno da sucessão dinástica, desmoralizados, enfraquecidos. Joana d’Arc ouviu vozes e teve visões, Beatriz Kimpa Vita incorporou uma entidade espiritual que falava por ela. Joana d’Arc vestiu-se de soldado, a profetisa congolesa incorporou uma entidade masculina, possivelmente um rei-soldado, um rei combatente. Ambas eram carismáticas e mobilizadoras. As duas foram presas na sequência das rivalidades políticas e militares em que se envolveram. Quais as diferenças? Uma era filha de camponeses e artesãos, a outra filha de nobres; uma se tornou santa oficial (ainda que só no século XX); a outra só clandestinamente.

Estas semelhanças não querem dizer que Dª Beatriz tenha imitado a heroína francesa. Conjugadas às diferenças elas assinalam, primeiro, processos típicos de mistificação política heterodoxa para a época, processos que teriam no padre António Vieira uma formulação mais complexa, intelectual e requintada (imaginando-se D. João IV como uma espécie de reencarnação de D. Sebastião); segundo, procedimentos diferentes da hierarquia da igreja na posterioridade, conforme se estivesse na Europa ou em África, possivelmente relacionados também com o facto de Joana d’Arc não ter inovado tanto nem definido nenhum “segundo Deus”. O que fica, porém, na tradição poética ou literária? A transcrição de um discurso forte, incisivo, curto mas alicerçado em repetições ou paralelismos de uma grande profundidade ou de grande alcance humano (primeira parte do texto) e político-religioso (segunda parte do texto).


Textos citados: 

Campos, Fernando. 1995-1996. O rei D. Pedro IV Ne Nsamu a Mbemba e a unidade do Kongo. África. 1995-1996, Vols. 18-19 (1), pp. 159-199.

Correia, Arlindo. 2018. Dona Beatriz Kimpa Vita. O Reino do Kongo. [Online] nov de 2018. [Citação: 3 de out de 2021.] http://arlindo-correia.com/140807.html#Dona_Beatriz.

Thornton, John. 2009. The Kongolese Saint Anthony: Dona Beatriz Kimpa Vita and the Antonian movement, 1684-1706. 11ª. New York : CUP, 2009. ISBN 978-0-521-59649-7.

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