No Novo almanach de lembranças para 1892 (p. 438) publica-se um poema, «Sob palmeiras», de J. D. Cordeiro da Mata. O poeta localiza-se no "Tombo - Margens do Quanza" (um pequeno porto, que servia para ligar e intermediar o comércio do interior com Dondo e Luanda).
É um dos exemplares de uma curta série quase mística, se não mesmo mística, tendo o poeta passado nesses dias por alguma experiência interior importante. Lendo o poema se percebe o meu quase e o seu místico:
Como d'alma no intimoeu t'amo, doce sombra!Como o peito, de jubilopulsa – grato – n'alfombra!...Oh! doce arque ao peito enfermode gosos ermovens vida dar;deixa as harpas eóliasos doces sons vibrar...Que só de Eolo a musicasabe o triste alegrar...Oh! ar que passas célereentre as franças arfando,tu me deixas extacticoteus gemidos 'scutando...Essa harmoniaangelical,tem perennal,p'renal poesia.Quando com notas módulasperpassa o ar n'alfombra,não sei que encanto magicotanto me prende à sombra!...
A dimensão mística da sombra no arvoredo era cultuada na Europa antiga também, nos bosques romanos por exemplo - onde podia chegar a causar terror. Com o apoio do calor tropical, acentuado e (por vezes) aliviado pela humidade do Quanza, Cordeiro da Mata apercebeu-se do mesmo tipo de sensação mística (mas não aterradora), na qual até parece que uma voz fala connosco e nos acalma.
Nesse retiro, é bastante provável que o poeta estivesse com livros. Por um lado, porque sempre se fazia acompanhar deles; por outro porque parece ter aproveitado retiros idênticos, mesmo quando tratava de negócios, em que lia bastante. Seja como for, leitor dedicado e absorvido, na calma sombra da palmeira se havia de recordar também de muitos poemas, em cujos versos encontrava palavras, imagens, sugestões que ajudavam a formular a representação dos seus sentimentos.
O delicado e sugestivo som da brisa nas palmeiras, e na vegetação em geral, recordou-lhe uma expressão e um motivo recorrentes ao longo do século XIX e no círculo poético alargado (muito alargado) do Almanach de lembranças.
As harpas eólias eram muito valoradas no séc. XIX e no ambiente literário do Amanach. Um artigo do número para 1865 (p. 189, não assinado) falava delas e, de passagem, remetia para a “estátua de Memnon” (na verdade, de Amenófis III e sua esposa) no antigo Egito. Junto a Lúxor e no caminho para o Vale dos Reis, como se sabe, a estátua dupla do casal real tinha orifícios por onde o vento, passando, produzia sons agradáveis: harpas eólias. No mesmo Almanach (pp. 133-134), Silvério de Faria enviava, “Á M. I.”, uns “Enlevos” onde referia a “harpa eólia sonorosa”, que “um canto modulava” em “voz doce e maviosa” (talvez a mesma que Maia Ferreira ouvira em Angola!). No Novo almanach, para 1878 (p. 222), um autor pontual (A. Patrício Correa) publicava a «Harpa do descrente», na qual a “harpa eólia” inspirava um bardo a cantar “assim” – tanto quanto as da gruta que ouvira Cimarosa (1749-1801). Nesse mesmo Almanach, em uma «Esperança» ao dir., A. X. Rodrigues Cordeiro, escrevia da Madeira “d’harpa eólia o som gemente” outro ilustre desconhecido. Não sei porquê, muitas vezes é o som da harpa eólia conotado com dor e gemidos. O poema do nosso chantre, felizmente, não faz isso, acolhe a doçura do som, que é justamente o que me atrai nele (som de harpa). Provavelmente escutámos o mesmo instrumento. Nós e mais alguns.
Cordeiro da Matta, escutando a brisa nas folhas da palmeira, estabelecia uma ponte entre a harpa eólia ‘natural’, a das pétreas estátuas de Lúxor (africanas, portanto) e o instrumento ao qual se dava esse nome, sob uma das suas formas hoje muito vendido nas lojas dos chineses. Ele estava em linha, sem perder a originalidade, não só com o Almanach de lembranças, mas com uma das suas principais referências, como de todo o romantismo em português: em 1838, Alexandre Herculano escutara já o “som perdido / de harpa eólia esquecida em brenha ou treva” (Herculano, 1838, p. 52) .
O romântico e ultrarromântico Antônio Gonçalves Dias, por seu turno, já nos Primeiros cantos (1846), no poema III da sequência «A mendiga» (p. 144), falava gostosamente em “um suspiro / mavioso de virgem, - um soído / subtil, mimoso, como d’Harpa Eólia / que a brisa da manhã roçou medrosa”. Na p. 212 da 4.ª ed. dos Cantos (Dias, 1865, pp. 211-212) , no poema «A sua voz», a voz dela, falando em “amores”, é como “harpa eólia” cantando incessante...
Um poeta que transitou, com vocação própria, do ultrarromantismo para o realismo, Guerra Junqueiro, em 1885, no primeiro poema de A velhice do Padre Eterno (“Aos simples”), ecoa a “angélica fragrância” dos humildes da sua infância “como uma harpa eólia a cantar a distância”.
Na afirmação pós-romântica do parnasianismo brasileiro, em 1880, Luís Guimarães Jr. ouvira talvez instrumento semelhante (“de harpa eólia os matinais ruídos”, poema datado de “187…”).
Cordeiro da Mata mostrava, portanto, conhecer a bibliografia que dava horizonte de receção aos seus poemas e escolhia, do motivo artístico em causa, o melhor efeito possível.
Destoando, neste quadro lírico e bucólico, tão musical quanto inefável, só mesmo o “carro de bois” recebia o glorioso apodo de, precisamente, “harpa eólia” - mas isso foi nos campos de Portugal, antes de os carros de bois atingirem os engenhos do Brasil ou, mesmo, os sertões de Angola, "a ilustre e culta" ...de Cândido Furtado.
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