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Exílios - aos amigos moçambicanos



 

EXÍLIOS: COMEÇO POR AGRADECER

 

 

Aos meus amigos moçambicanos.

A Gabriela Ruivo Trindade

A Nara Vidal

A Japone Arijuane

À FILQ

 

 

Boa tarde e boa noite.

 

Começo por agradecer a todas as pessoas aqui presentes e às que tornaram possível este encontro. Segue um abraço especial de parabéns para Amosse Mucavele e seus companheiros pela dedicação à causa áspera e forte (Humberto da Silvan), nobre e acre da literatura e, em particular, à causa da literatura em Moçambique.

 

Parafraseando Tomás Jorge, hoje a minha voz é de búzio […] hoje não trago nada para dizer. A nossa história foi tecida com prisões, exílios e combates. É por isso difícil aprendermos a paz. A paz interior, a que não precisa de ordem, mas de liberdade e de harmonização. Do regresso da ausência de si mesmo (Henrique Guerra).

 

São geralmente conhecidos os principais exílios da luta pela independência, na tentativa de resgatar o que não foi possível aos ancestrais (Zetho da Cunha Gonçalves). Viriato da Cruz foi morrer a Pequim. Agostinho Neto esteve preso e exilado. Costa Andrade publicou Tempo angolano em Itália quando estava em São Paulo. Ernesto Lara Filho, um homem que a morte não conseguiu reter (Agualusa), foi contar estórias em Brazzaville depois de dizer à irmã:

 

Não mais encontrarás à tua espera

A nossa casinha de adobe

Da rua principal

[…]

(Lembras-te das promessas que fizemos?)

 

Esta a razão porque os exílios reforçam tanto quanto somos: as promessas que fizemos. E, no entanto, os dias imprevistos explodiram promessas de exílio. Dias imprevistos a pólvora e pasto […] nos olhos da pátria que buscaste, onde agora […] a noite faz ninho […] e trazes macutas de prata nos cabelos (José Luís Mendonça).

 

Para não faltarem à promessa, Pepetela e vários outros chegaram às matas, à resistência, passando pela Europa e, muitas vezes, Argélia ou Marrocos. Mário Pinto de Andrade saltou de país em país até ao fim da vida. E aqui entra o depois. É do antes e do depois que vos venho falar agora. Mas não por minhas palavras: hoje a minha voz é de búzio.

 

O nosso foi sempre um país de exílios. Exilados portugueses, italianos, brasileiros e de outras nacionalidades integraram o nosso mapa genético. Ao mesmo tempo, os nossos iam para fora. Muitos, com areia nos pés ainda, quissanjes dispersos / nas insónias do mar (Manuel Lima), formaram as vozes dos engenhos, dos banguês, das tongas, […] vozes das sanzalas […] gemendo blues (Viriato da Cruz). Ninguém querendo. Mas nem sempre acorrentados. Esse foi o caso de José da Silva Maia Ferreira, fugindo às traições amorosas e políticas a partir de uma posição de elite, nos antípodas dos escravos que seu pai negociara.

 

Ele saiu de Angola precipitadamente, por um porto livre, ou seja, não controlado pelas autoridades coloniais. Daí se dirigiu para Nova Iorque, onde os Figanière o protegeram. Isso deu-se após um confuso episódio, mal conhecido, e depois de integrar um grupo de filhos da terra chamado Jovem Luanda, em nítida conotação com a Jovem Itália de Mazzini. Quando trabalhou em Benguela, contribuiu para a denúncia da corrupção governamental e os atingidos terão esperado pelo momento oportuno para a vingança, que pode ter aparecido pela traição de outra Beatriz (Maia Ferreira) que não lhe pertencia. Viveu nos EUA considerando-se um exilado. Chegou a afirmar ao irmão caçula, já brasileiro, que abandonara a poesia. Lá, porém, compôs os seus Cantos de exílio até hoje inéditos, a par das Memórias íntimas dum africano. Veio a morrer no Rio de Janeiro, no nº 1 da então rua de São Diniz, em Rio Comprido. Ao falecer declarou-se de nação africana e assim ficou descrito nos jornais.

 

Quase cem anos mais tarde, foi o caso de Assis Júnior em Lisboa, onde a vida o largou, sintomaticamente, a 27 de maio de 1960. Entre os primeiros nacionalistas é pouco notada a ida de Maurício de Almeida Gomes para Lisboa ainda nos anos 70. Lá viria a falecer, cerca de 52 anos depois de Assis Júnior. E também, durante muito tempo, foram ignorados ou caluniados os qualificados exílios de Mário António Fernandes de Oliveira, Manuel dos Santos Lima, José Sousa Jamba. Declarados e assumidos esses, outros houve nem sempre claramente pronunciados, como o de Tomás Jorge Vieira da Cruz e o de David Mestre. Outros há que não sei bem como por outro nome os nomear, por exemplo o de José Eduardo Agualusa, sempre mal visto pelo poder em Luanda e por alguns outros luandenses. Houve exílios e afastamentos, enfim. Poetas que partiram e, por um motivo ou por outro, nunca mais voltaram a residir em Angola. Como escreveu Carlos Ferreira:

 

tu lá longe

(em exílio dolorido)

eu criança

acreditando refazer vossos sonhos

já não tinha mais morro da maianga

António Cardoso

 

Numa inevitável quanto involuntária conotação com o poema de David Mestre, verificava o mesmo retorno impossível:

 

Fui à rua da Maianga

A ver se a via:

Havia não.

(David Mestre)

 

Outros ainda foram levados cedo, pelos pais fugindo à guerra civil, e também não mais residiram no país, onde outros pais abandonavam outros filhos em plena mata, urbana por vezes. Alguns teimosos saíram dando vivas à pátria e à revolução mas, na verdade, levando na bagagem tal mágoa inconfessa que também não voltaram para residir. Eu não cito mais nomes atuais, para não melindrar e porque, fazendo meus uns versos brasileiros, “o pecado nativo / é simplesmente estar vivo / é querer respirar”.

 

Isso tudo são exílios, com mais ou menos subterfúgios, matrizes e nuanças. Exílios, da palava latina arcaica exul, prima direita de ambular e deambular, prima esquerda de alacer, ironicamente hoje se dizendo alegre mas no começo significando ágil, rápido, veloz – e sabemos como, tantas vezes, o acesso à liberdade fora do país dependeu da rapidez ou da agilidade na fuga.

 

Podia tecer aqui louváveis considerações, mais ou menos filosóficas, sobre as subtilezas do exílio e a nem sempre fulgurante liberdade nele vivida. Mas os poetas angolanos escreveram já sobre isso com propriedade. Por mim, como já disse, hoje a minha voz é de búzio. 

 

Maia Ferreira, em poema publicado em Lisboa em 1855, falava sobre si próprio enquanto Exilado:

 

É-lhe pior do que a morte

Este trance tão fatal,

Ver assim, por crua sorte

Fugir-lhe a terra natal!

[…//…]

E assim vai o exilado

Que ao longe vê sumir

Pelas sombras do horizonte

Já de mui frouxo luzir,

Essas grimpas de montanhas

Onde há feras de mais sanhas

Que o fero tigre a rugir.

[…//…]

Vai ver a obra gigante,

Única, só, sem igual,

Essa harmonia possante,

Após Deus, a mais real,

Vai ver a maior beldade

Deste mundo, a liberdade

No seu fulgor divinal!

 

Apesar disso, o poeta e várias outras vozes antes e depois dele, sabe que o exílio para viver em liberdade não deixará de fazê-lo sonhar algum regresso. Como o de Alda Lara:

 

A minha alegria enorme

De poder enfim dizer:

Voltei!...

 

E, quem sabe, com vagidos novos nas sanzalas (Arnaldo Santos).

 

Mas a amargura da condenação, da necessária partida, manteve-se até hoje, forçada pelo contexto ou diretamente pelo poder. Está na voz de Amélia Dalomba, por exemplo:

 

Em quem eu confiava sem pestanejar estava tão frustrado, tão frustrado

Entregou-me ao estranho, para degolar-me a fé

Fez com falas mansas, com que acudisse ao seu chamado

Esperava-me um outro, com um gravador incrustado de malvadez

Com sua sentença cruel:

O exílio!

 

Um exílio de olhos grandes / perdidos na distância (Cochat Osório), onde entardeci, amor (Dario de Melo), apesar de sentido ainda, em tempos recuados, com futuro. António Jacinto foi o poeta coerente que se exilou para dentro de si numa Luanda impossível de reconhecer a partir do fruto. Bem vistas as coisas, a cobra surgiu / depois do arco-íris (João Melo). A sua visão dos exílios, hoje, ganha por isso um novo sentido. O desterro é – este fuzil apontado / E inútil da distância (António Jacinto). Fuzil aguçado, sem dúvida, pelo silvo incisivo das serpentes.

 

Hoje.

 

Hoje sim, hoc die, neste dia mesmo, agora / que se iniciam os passos da distância para as inexistências do regresso (Costa Andrade), por onde chegámos à necessária conclusão de que a demora foi tão grande como a espera, quimeras de validade perdida num supermercado oleoso e sujo que nem vale a pena figurar.

 

Quantos furos teve esta quimera? A memória? Quantos séculos teve a nossa idade […], pavio aceso […] no desfile antigo dos companheiros adiados pelo excesso de silêncio.  Espera sentida por dentro todos os dias, num insílio amargo, amigo Cassé, porque a verdade não veio, nem cedo nem tarde – por mais compensatória que fosse a imagem das ilusões do que partiu entre as viúvas eternas da liberdade (David Mestre):

 

Lesto

Tu nos deixaste

Como se

fossemos velhas cubatas de capim

apodrecendo

  como se

  no azul do outro lado do mundo

  em torrente escorresse o hidromel

e

  de outro amadurecessem as nochas

 

Como se

fossemos velhas cubatas de capim

apodrecendo

Lesto

Tu nos deixaste

 

Isto escrevera Arlindo Barbeitos, antes talvez de partir 

 

em terra de esquecimento

para além

da cinza destes dias

longe

muito longe

 

Mas faria sentido, ainda, Fernando Marcelino, a vocação do pied noir? Qual pied-noir?

 

O pied-noir de Angola

Como tal exercido em Moçambique

Oferecido à Imprensa

E à Revolução.

 

O pied-noir exaltante

De República Popular

Entusiasmado e desconfiado

Dos que não beberam

Com ele na Feira Popular.

«Aqui todas as noites se embebeda

Ernesto Lara Filho»

(Mário António)

 

Faria sentido, Fernando Marcelino, ainda hoje, a vocação de pied-noir

 

Num tosco amor à terra deformado e cheio

Da pressentida culpa

De não incluir os homens

 

Pergunto. E agora recuo, / colando o rosto / à arcada fria da ponte, medindo o palmo a palmo da infância (E. Bonavena). Espero não ser injusto. Sinto que o sentimento de exílio foi mais depurado e fundo e fino e agudo na poesia de Mário António, subtil, franca, atenta aos pormenores mas à conclusão também. Cito poucos exemplos. O primeiro reflete sobre a questão identitária que o exílio nos pode colocar:

 

Ah, Cidade grande, longe!

Não há distância, tempo

Para soltares de mim

Velhas, finas raízes.

No quarto impessoal,

Rodando o interruptor,

Vem-me de longe a imagem.

Dedos de fuligem apertam a torcida

Da candeia de azeite:

Um odor a palma no ar.

Numa longínqua noite

Como a de hoje, de insónia.

Sou, concerteza, o mesmo.

Não adormeço ou esqueço.

 

O segundo exemplo é uma denúncia, uma denúncia mais subtil:

 

Também eles me não querem

Ver fugido. E quando

A noite vem, tranquilizante,

Eles desafivelam suas máscaras

De mortos, para falar

Comigo. Não têm medo já

Não tenho medo eu

Reconhecidos uns nos outros.

Sabemos: nossa vida foi assim.

Não lamentamos feridas sobre o corpo,

Misérias, piolhos, cabíris carregados

De carraças. Foi o nosso quinhão.

Por isso nos é fácil dizermo-nos: «Irmão.»

 

E o excerto de um difícil reencontro, já publicado em 1988, pouco antes de morrer, em Lisboa, no exílio:

 

Ah, os topónimos na nossa boca deles,

Luanda,

Roma,

Moscovo...

Também Rio de Janeiro,

Lisboa,

À procura de Angola!

 

A Churrasqueira do Mário

Valia todos os quilómetros

Para a encontrar.

 

Meu desencontrado irmão,

Sabes quantos angolanos

Em 1950

Faziam o percurso para Moscovo

Através de um pequeno (como o dinheiro,

Como tudo ao seu alcance)

Receptor Philips?

 

Pois continuemos, camarada,

Gosto do teu inglês internacionalista,

Das viagens aéreas.

[…]

Pois ainda sobram palavras.

Essa, agora: alguma oportunista

Pode aceitar.

Mas houve quem não aceitasse,

Primeiro desacordo.

 

Houve, sem dúvida alguma, uma estranha presença da pátria, do estigma de uma centrada pátria (Abreu Paxe) nos exílios desacordados dos grandes heróis. Mas os heróis não voltam, Maria Alexandre, os heróis não querem estar vivos. Agora só podes tentar a sobra do pálido gesto das ruínas, homens cravados no ontem que os pariu, passo lento na vidraça embaciado. Cassé, Confundo-me com o espelho. Por essas e outras morremos no bulício da madrugada (Cassé). Porque não fugimos, oh nunca Dina / os vestígios antecipadas normas habituada incineração […] o povo coincide com a vidraça na porta espessa, talvez azul dobrado, não é verdade, fuga para a sombra de uma mulher, os árabes depois adormecem subúrbios no regaço, (Abreu Paxe) palácios dourados entre russas e novos escravos. É talvez por isso enorme o silêncio da sua voz, dos adorados poderes em sonantes angolares, dos reis prosaicos perante os quais ajoelharam sem escrúpulos as ficantes na dança dos ventres.

 

Eu, porém, me fixo também nos exílios infelizes, anónimos, párias, lapidarmente nomeados, e a cada estação reconstituo o roubo: uma breve despedida para um longo fracasso (ainda Mário António). Eu também me penso na vossa pequena ilha, Moçambique. Trespassa a lâmina do sol / silenciosamente o colete (Mário António), eu também me penso, Gonzaga de Minas e Marílias. A tua face macua não me esquece, degredo […] de ilha a continente, eu também me penso, Moçambique, covil de traficantes de escravos e de piratas, governadores e damas dançantes, sultanias isoladas, arabescos de poeira, miscigenação e insalubridade célebre, palácios recheados de tapetes turcos, cristal no teto e mobiliário indo-português, escravos vendidos aos franceses, panos coloridos da Índia, um cordão de missanga desfeito na praia, porcelana chinesa e holandesa… assim palavras. Trocas desonestas, ouro e marfim, coral rosa e tartarugas quase extintas (Aida Gomes). Essa, também, a minha descentrada pátria, macua excessiva / com a claridade espantada de ser negra … em Nova Iorque, num salão de beleza (Mário António).

 

Agora chega de barulho, ressonâncias magnéticas sem dúvida, mas cansativas. Amizades e pessoas, a partir de agora, quero sair em rumo de exílio. Deixemos fluir os múltiplos sentidos, que ainda não é este o último adeus (Kiokamba Cassua) e, se saltaste para dentro do fogo, agora não podes parar (Paula Tavares; Leste de Angola). O exílio é também isso, um ponto de não-retorno.

 

 

Francisco Soares.

Cassino, Rio Grande, Brasil.

Ontem.

 



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